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O Substituto

Naquele dia os alunos estavam mais ruídosos que o normal. Ele bem que ensaiou uma ou outra arrancada inicial no conteúdo programático da disciplina, porém nenhum serumaninho lhe voltou a atenção. Estavam acostumados a se calar no grito e o grito costumeiro não veio. Era como o som de muitas águas a comunicação no local. Ele simplesmente sentou atrás da mesa, minúsculo e derrotado, imaginando como fazer para dar a sua aula. Aquela turminha presunçosa já tinha um farto histórico de por em fuga os assustados professores substitutos. Ele seria apenasmaisum! O apenasmaisum em silêncio retirou o violão da cartola e suavemente dedilhou o hino que foi sucesso em sua geração menos de meio século atrás: "enquanto todo mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência"... Sua paciência não era fingida e dois pares de olhos lá no fundo da sala perceberam, voltando-se em sua direção. Os quatro olhos ganharam pernas e arrastaram suas cadeiras para pertinho do apenasmaisum. Fossem eles conhecedores da letra, os quatro olhos teriam ganhado bocas também, por ora, contentaram-se em aguçar os ouvidos. Nunca antes um professor abrira a boca para falar de paciência com a turma. Seu comportamento até aí só fora digno de revoltas. O círculo foi aos poucos se alargando e o apenasmaisum trouxe seu repertório para mais perto da galera jovem. Agora eles cantavam na mesma nota. Foram gentilmente afinados e estavam prontos para o conteúdo! No soar do sino o professor ouviu sussurros por toda a turma ruidenta: "A aula dele é diferente. Ele tem um jeito meigo de cativar a gente. Ele não é apenasmaisum, não. DEFINITIVAMENTE! Por: Jaquelini S. B. de Jesus

Pandemia



Por fora o terror me assombra
Pavores que nem sonhava.

Janeiro, presságios de morte.
Fevereiro, desafiava.

Março, um pânico infindo.
Janelas e portas, trancava.

Abril, sorriu a esperança
A morte já não rondava.

Maio, a volta de tudo.
Susto diário e pavor,
O fenecimento escancarava.

Junho entrou estranho,
De canto de olho ressabiava.

Meu Deus, o frio em junho?

Nunca em junho nevava!

O terror de morte e o assombro.
Por trás da porta espreitava,

Pressagiando mudanças
Que nem sequer imaginava.

E o frio do frio junino
Que chegou e assustava.
A neve no firmamento
Cambiando o que pensava.

Lá fora, a água e o vento.
Nunca em junho nevava!

Elijanique Savil

Ajuda

A ÚLTIMA HORA

Não perguntei se posso, mas vou dizer mesmo assim






Ouvi que todo ponto de vista
É a vista de um ponto
Tenho visto inúmeras gentes
Ponteando a visão umbilical
Tenho ingerido tanta Corona
Nos momentos atuais
Justo eu que nunca bebo
Embriaguei-me e estou mal.

E já que está na moda
Pontear a visão do mundo
Vou colocar meu ponto
Para a apreciação geral
O ponto que ora coloco
É simples e muito prático
Pontuo que cada um decida
O que para si é normal

Você quer sair de casa
E encontrar muita gente?
Vai na fé. Deus o abençoe
Mas deixa o outro também
Decidir por si só.
Não obrigue as pessoas
A coronarem-se contigo
Ou pactuas o geral amém.

O ponto que compartilho
Não é meu ponto exclusivo
Visto que muita gente
Pontuou o mesmo fato
É o desabafo contra os dizeres
Não pegue. Não toques.
Não sintas. Não manuseie.
Quando sou um tocador nato.

Vegar me é natural
Desde que nasci brasileiro.
Não cumprimento à distância.
Não reconheço sem tocar.
Pontuaram-me ponto-a-ponto
Como devo não proceder.
Mas o toque é minha forma
Mais humana de amar.

Coronada, fico em transe
Não sei ser quem sou
Nessa contemplação passiva
Quero outros rostos comigo
Ter os colegas ao pé de mim
Eu decido se quero
O isolamento mortal
Ou a regeneração entre amigos

Sementes Malditas


SEMENTES MALDITAS

ELIJANIQUE SAVIL









MISERÁVEL VERME QUE SOU;
FORJADOS DO MESMO BARRO;
BRUTALIDADE;
O INFERNO SERIA A ÚNICA RECOMPENSA;  
EU NÃO ERA CULPADO;
SEMENTES MALDITAS;
DUAS SERPENTES CRIADAS.




APRESENTAÇÃO


Diversos narradores se alternam para contar uma história de suplantações e fúria. Uma família (im) perfeita da alta sociedade que vai ruindo diariamente em razão das armações tramadas pelos “anjinhos” órfãos de mãe.
Assunto: A mãe passa por fortes tensões durante a gestação, é diagnosticada com uma crise de depressão pré-parto, a situação maléfica atinge os fetos que nascem assentimentais, para piorar a crise, a mãe morre logo depois de dar a luz. Os bebês são criados por um pai atencioso, mas incapaz de amá-los. Depois de adultos os gêmeos submetem o pai a uma prova desesperadora que acaba por desenvolver nele um desejo sobre humano de vingança.
O romance conta com grau zero de romantismo por parte das três personagens principais, que são as vozes narrativas, e uma espécie de aversão incondicional por parte da personagem secundária que divide a trama com o pai e seus dois filhos.





PARTE I

MISERÁVEL VERME QUE SOU






















VII – O PRISIONEIRO

A manhã está cinza. Falta o colorido intenso daqueles dias quentes de verão.
Em cinzas também tenho hoje a alma que em breve se derramará como o cúmulo que ora vejo instaurando-se no céu.
Não se dissipa a tempestade e há indícios de algo mais forte reservado para o amanhã. Vejo reinar nas sombras todo o peso de cinquenta anos atrás.
Grilhões que impacientemente jazem a espera do momento (in) certo para calar mãos nervosas que surdamente se fazem ouvir; para algemar bocas incautas que agem loucamente sem se fazer sentir.
Aqui estou.
Tenho a minha volta espessas camadas de ferro e me pergunto se um dia terei a chance de ver o brilho do sol.
Ah liberdade! Por que você me falta?
Teria contemplado a luz do sol, tivesse tido tempo de viver. E o raiar incandescente da aurora resplandecendo a cada amanhecer.
Negaram-me o encanto desta hora. A luz do teu olhar cegou o meu.
Meu referencial de belo é tua face e, tudo o mais, na vida, se perdeu.
Olhe só para mim: um romântico incoercível em pleno século XXI.
Minhas lamentações estão um tanto ultrapassadas.
Bem sei.
Ainda mais se consideradas à luz das últimas ações a mim atribuídas.
No entanto, a iniciativa era muito boa, tenho certeza que sim.
Céus!
Quando foi que tudo começou a dar errado?
Tinha tanto ainda por fazer. Tanta coisa para descobrir. Para contar. Minha imprudência foi altamente destrutiva para nossa casa.
Eles confiavam em mim até todo esse boato se espalhar. Contavam comigo e acho até que me amavam.
Contavam com minha capacidade de resistir bravamente, mas falhei.
Não combati o bom combate, só acabei a carreira e, sinceramente, não sei o que é de minha fé.
Alegam que a barbárie insana conduziu meus atos até aqui. Porém sou uma alma boa. Ao menos costumava ser enquanto era eu. Não sei nada mais de mim nem de quem sou agora. Só sei que até aquele triste momento eu era movido pelo amor. Só pelo amor.
Agora que tenho tão pouco tempo de sobrevida entendo o desespero de um idoso implorando por um instante a mais para estar sobre a terra. Entendo a dor que via todos os dias nos olhos de meu pai quando lamentava não ter tido tempo para realizar seus sonhos mais íntimos e fazer melhor tudo o que tinha para fazer.
E ele fez bem o que lhe veio às mãos. Me amou. Me educou com carinho e respeito. Me ensinou a viver e preservar a vida do próximo, mesmo este próximo não estando ao meu lado como percebo agora. Eu nunca poderia ter feito a maldade da qual sou acusado.
Ou poderia?







VI – O SUPLANTADOR

Você abre a porta da casa, olha a rua deserta, a ausência de automóveis nos estacionamentos da calçada e, outra vez se sente só. Apenas a sua velha companheira de guerra — a solidão — permanece com você.
É natural.
Você sempre esteve ocupado demais para se prender a detalhes burocráticos.
Coisas insignificantes, como a conquista de amizades desinteressadas, sempre esteve para além de seus planos. Só agora que tudo foi tirado de você é que você pensa no quanto foi abençoado, tendo a graça e o apoio de quase todo o povo, gozava de infinita liberdade de ação. Apesar de nunca ter dado seu apoio e lealdade de fato ao povo.
Você não precisava de compreensão ou carinho. Sua arrogância não permitiria. Você foi sempre o bastante para si. E não deixou que seu coração conhecesse o amor.
Que é o amor? Esta coisa indefinível que não foi ainda conceituada claramente por ninguém.
Filósofos tentaram. Trouxeram vários conceitos e ideias brilhantes que no final, ou foram contestadas por outros filósofos ou não puderam ser sentidas, comprovadas na matéria.
Cristo o conceituou e provou na sua matéria (carne) as bases do amor, no entanto, desde que não pode ser experimentada por outra criatura humana ao longo dos séculos, como sabê-lo?
Poetas e romancistas se aplicaram a exemplificá-lo a partir de moldes humanos verificáveis. Porém, o papel aceita tudo. Dizer que o amor é fogo que arde e não se vê não o define, uma vez que ardor também não deixa marcas. É irreal!
Não vale a pena sonhar.
Nem que quisesse abrir uma porta, você não tem mais o controle em suas mãos. Vai onde te levam, come o que te dão. Nem das tuas ideias você é senhor, “Pedro”.
Agora é este inferno.
Chovem acusações de todos os cantos.
Você descobre que não tinha ninguém, de fato, ao seu lado.
Ninguém tem.
Nem a melhor das criaturas encontrou o refrigério de ver a seu lado um rosto amigo no momento da tortura.
Onde estavas, Pedro — fagulho tirado da rocha — quando seu mestre precisou de alguém para ajudá-lo a carregar a cruz?
“Não Senhor. Não sou um deles....”. “Minha Senhora, nem conheço tal homem... Sequer cheguei a ouvir ao seu respeito, senhores!”.
Qual é? A segurança às vezes falha, mas é duro ver que você não pode contar nem com aqueles que são pagos para matar e morrer com você.
Ou, por você.










V – O INOCENTE

            Você é inocente.
Jura que foi vítima de um complô muito bem arquitetado e o delegado ri na sua cara:
Tem razão senhor. O senhor não fez parte do esquema de corrupção, é fruto de uma imaculada concepção e o coelho da páscoa botou um ovo enorme em meu jardim ainda há pouco! Veja só, que interessante!
Ora dá-se!
Amigo, eu só preciso dos nomes. Diga quem estava com o senhor e aí a gente ferra só metade da droga de sua vida.
Só metade! Tem lógica afirmar isso quando toda a sua vida é composta dessa metade? Dessa maldita metade!
Quando até o útero gerador você teve que dividir com alguém?
O que a todos parece metade, para você pode ter sido uma vida inteira de tormentos, de angústias, de submissões e de...

FINGIMENTOS!

Ninguém entende quando você explica que a ideia era muito boa; que você tinha intenções de outra natureza; que o desvio não estava em seus planos. Que o assassinato foi só a consequência de um ato impensado. Que ele foi arquitetado pela esquerda (se bem que, numa visão de fora, você é à esquerda) para lhe derrubar.
Tudo foi planejado por aquele irmão maléfico que você bem poderia ter sufocado na fase embrionária. Afinal, você já era um Sr. Feto, com todas as características de um vencedor, enquanto ele, apenas uma massa amorfa, se revolvia, buscando equilíbrio no líquido amniótico.
Para!
Você não teria coragem para tanto.
O fato é que você está vivendo o pior momento de sua vida.
Não está com “saco” para agüentar nem suas próprias esquisitices, aí, de repente, começam a se levantar do túmulo, fantasmas de séculos atrás.
Eles surgem cheios de razão, exigindo reparações por erros que você tem certeza que não cometeu e, caso tenha cometido, obteve licença para isso.
O pior é que eles se acham em situação de exercer direitos que você não delegou a eles.
O que fazer em momentos assim?
Você pergunta.
Em outros tempos bastaria ligar para aquele seu amigo: “muito bem pago” e pedir...
Não.
Pedir não que você não costuma praticar essa ação.
Ordenar.
Esse verbo soa bem mais melodioso aos seus ouvidos. Ele exerce um encantamento indizível sobre você.
Então, bastaria ligar para aquele seu amigo: “muito bem pago” e ordenar que ele executasse a tal reparação.
Mais agora você não pode fazer isso. A marcação é cerrada e todos os seus telefones estão grampeados.
Estar em prisão domiciliar é um martírio bem maior porque você está ao mesmo tempo no mundo e desligado do mundo.
Às vezes você esquece que a droga dos caras está te observando e deixa escapar algum ato impraticável, alguma palavra não pronunciável, ou algo do gênero.
É um inferno em todas as dimensões da palavra.


   



















IV – O SUPLANTADOR

            Há exatamente um mês eu vivia o pior momento de minha vida.
Não suportava mais a rejeição daquele que por muito tempo foi meu único elo com a humanidade.
Dividimos o mesmo útero e ele insistia em acusar-me por algo que eu nunca ousei pensar.
Fico relembrando a infância todos os dias.
Tento, nessas voltas ao passado, entender quando as nossas vidas se afastaram tanto.
Nascemos juntos e, durante um tempo expressivo foi como se fôssemos um único ser. Nossas ideias eram uníssonas. Entoávamos um canto orquestrado, melodioso, perfeito. Uma aura de alegria emanava intensamente de nós e as pessoas elogiavam a magicidade de nossa união e a beleza de nossos atos contínuos.
Confiavam em nós.
Era como se nosso nascimento houvesse pressagiado um novo tempo, para todos, de uma vida mais digna, melhor e mais tranquila. O sonho de se fazer ouvido, sentido, percebido pelo outro era então mais palpável. Quase real.
Porém, inexplicavelmente, comecei a ser suplantado por ele.
Já não falávamos a mesma língua desde o sacrifício tão grande exigido de nós. Apesar de negar até a morte, percebi que no fundo ele estava curtindo a ideia da paternidade. No fundo ele era também um filho acima de tudo. O estado do pai o abalou sobremaneira.
Ele agora guardava uns segredinhos assim... Assim... Ouvia minhas palavras com uma irritabilidade mal disfarçada e saía por aí reproduzindo um discurso distorcido, dizendo que era de minha autoria.
Entendi que não era mais bem vindo e determinei meu banimento.
É claro que quem ouviu nossa história soube de algo bem diverso.
Ele forçou-me a me separar levando comigo minha terça parte das estrelas.
Eu soube sair por cima. Dramatizando um pouco minha história, todos o viram como vilão. Da mesma forma que ele, eu aprendi a usar a opinião pública ao meu favor.
Eu também manejava bem as armas com as quais ele lutava. Afinal, fomos forjados do mesmo barro. O mal que o roçava levemente irradiava dos meus poros com uma intensidade descomunal.


















III O PRISIONEIRO

Trinta e cinco dias de angústia intensa. Você já não sabe com quem pode contar nem como se arranjar na vida. Uma dor tão profunda se apoderou de você. O caso é tão crítico que você consulta o espelho a todo o momento buscando descobrir quem é de fato. Este cidadão vil e mesquinho estampado nos jornais do país inteiro não se parece contigo. Ao menos não com a imagem que você tem, armazenada da infância e dos primeiros anos de sua formação. Então percorre outra vez, a passos lentos, os poucos centímetros de chão que tens para transitar.
Quem sabe nos passos quase apagados ainda reste algo da sua essência? Não custa nada procurar um pouco mais não é? Depois, você não tem nada de útil ou interessante para fazer aqui mesmo... Quem deveria ocupar esse espaço está lá fora discursando eloquentemente e arrastando multidões atrás de si.
Você deve estar louco para saber quem lhe fala não é?
Chegou à hora de começar do princípio.
Se bem que, Machadianamente, esta fábula surtiria melhor efeito se narrada inteira pelo fim. Mas, é preciso falar dos mortos para encantar alguém com um “Cubas” — ser tão absurdamente normal que se ainda vivesse, morreria sem prender a atenção de ninguém. Arte mesmo é registrar memórias de uma vida incrível fazendo ainda parte dela.
Você não acha?





II – O INOCENTE

Está tudo meio confuso para mim. As ideias completamente embaralhadas mais tudo bem. Chega de lamentar os laços desfeitos. Vou encarar a situação de cara limpa.
Estou por minha conta daqui para frente. Não tenho mais a quem culpar por tudo o que der errado a partir de agora. Vai ser triste e doloroso existir sem a proximidade dele. Na verdade, me acostumei a deixar a cargo dele o trabalho pesado. Bem como, todas as sujeirinhas que esse negócio exige. Preferia não ter que sujar as mãos, mas fazer o quê?
É comigo agora.
Devo admitir que já comecei arrasando!
Ele foi meu primeiro trabalho sozinho e saiu tudo PER-FEI-TO.
Infinitamente melhor do que eu planejei.
Alguém dirá, no final, que sou um ser sem alma. Não me importa. Agi por instinto de sobrevivência. Ele teria acabado comigo caso eu tivesse deixado uma brecha qualquer.
Felizmente aprendi bem cedo que nesse ramo não se pode ‘baixar a guarda’ em nenhum momento. Não se está seguro nem mesmo entre irmãos.
Sinto pena dele. Tão sábio e tão ingênuo. Será que ele pensou mesmo que a batalha estava ganha quando me afastei? Ele devia saber que às vezes é necessário “tomar tempo. Tomar distância” para observar melhor a disposição das peças no jogo. Para entender as estratégias do adversário, antecipar suas jogadas e, até mesmo, persuadir as peças de mais importância para que venham lutar a seu lado.
Sinceramente, esta foi minha tática que mais, e melhor, surtiu efeito.
Queria contar em outros termos esta fábula de minha existência, mas tudo o que tenho de resto, para escrever, parte da visão do vencedor que para minha infelicidade, nesse caso, particularmente, sou eu.  
PARTE II

FORJADOS DO MESMO BARRO


CAPÍTULO I – A MULHER

O dia está quente.
Não daquele quente abafado que costuma estar de vez em quando nos dias de inverno, nos momentos que antecedem uma tempestade. Hoje é diferente:
O calor é intenso e acolhedor;
Tudo está calmo agora.
O cheirinho de erva fresca traz um consolo, uma paz que só é possível sentir em um lugar como este, estando em estado de planta. Absorvendo os nutrientes da terra boa para transformá-los em seiva vital. Completamente absorta repousando sobre a relva.
Alcádia se sente feliz. Além de toda a calma que consegue conservar nesse sítio, acaba de ser examinada pelo médico e está tudo bem. Foi apenas um susto. Seus filhos vão nascer saudáveis. Só não deu mesmo para descobrir o sexo dos bebês.
Seria muito arriscado levar até ali toda a parafernália da ultrassonografia. O doutor disse que com um pouco de sorte ela conseguirá segurar a gravidez até o oitavo mês. Não é uma perspectiva muito animadora, mas dadas as circunstâncias ela já está vivendo um milagre.
O esposo não entende como ela e os filhos sobreviveram a tanta brutalidade.
Os caras não tiveram ‘pena’ e agiram o tempo todo como seres bárbaros, criados sem pai nem mãe.
Como explicar tanta degeneração em entidades formadas dentro dos mais rígidos padrões de moralidade e ordem?
Que algumas sociedades se desintegrem, persigam seres humanos como bichos e matem em nome de Deus, não é aceitável, mas é perfeitamente compreensível. Afinal, todos querem ser liderados por um ser tão poderoso e desejam fazer algo para merecer essa liderança, ainda que seja por vias tortas. No entanto, é inadmissível que um grupo de homens mais ou menos inteligentes pratiquem absurdos para conservar a ilusão de um poder tão efêmero como o poder político.
Onde estão hoje os grandes ditadores do passado? A vida é tão curta. Poderes se sucedem. Pessoas vêm e vão. Não dá para perder tempo perseguindo e odiando uns aos outros.
Ele reflete outra vez nos motivos que os levou até ali: O povo precisava de uma representação firme e séria para fazer frente aos ditadores. Era preciso muita coragem, pois os homens não brincavam em serviço, estavam dispostos a tudo para continuar dominando, a despeito da situação de quase miséria econômica e social a que estão submetidos os dominados, enquanto os dominantes vendem a autonomia nacional, aproveitando o capital estrangeiro para sustentar a ideologia de uma meteórica fase desenvolvimentista.
O casal conhece bem essa estratégia.
Os pais de ambos vivenciaram um período mais ou menos parecido nas primeiras décadas do século XX, na vigência do venerado “estado novo”, quando as massas eram excluídas na divisão dos benefícios em favor da elite.
O povo viveu nesse período a euforia de um desenvolvimento explosivo um pouco antes do golpe de estado.
Assim como agora, um intenso crescimento é noticiado enquanto o país sofre um golpe militar nas surdinas. Futuramente essa história se repetirá novamente. Deus sabe em que termos a população receberá a notícia de um novo governo ditatorial, fruto desse ‘agora’ no passado.
A história sempre acontece em ciclos repetitivos. Mudam os agentes, no entanto as bases de uma ditadura são sempre as mesmas.
Eles tinham noção de tudo isso não por terem ouvido alguém dizer, mas por vivenciar a situação.
Estavam acostumados a servir. Por isso não hesitaram em se oferecer à causa tão nobre. Mal sabiam a dor e o sofrimento que trariam a sua família ainda em formação.
Nos primeiros dias a marcação não era tão forte. Eles agiam nas sombras, libertando e protegendo os companheiros mais perseguidos. Reuniam-se em galpões e casas abandonadas.



















CAPÍTULO II – O ESPOSO

Alcádia era uma militante de coragem. Encarava com bravura os riscos aos quais se submetiam constantemente.
Os companheiros tinham plena confiança nela. Nele também, apesar de encará-lo mais como uma sombra. É que ele dava instruções. Arregimentava o pessoal e agia sempre por intermédio dela. Todos sabiam do companheiro Liu, mas ninguém o tinha visto ainda.
Ele precisava preservar sua identidade pelo bem dos companheiros.
De repente a repressão começou a se intensificar. O número de soldados armados nas ruas cresceu e qualquer espécie de ajuntamento nas ruas era motivo de fortes suspeitas. A situação saiu da normalidade e os militantes decidiram buscar ajuda para a causa por meios mais drásticos.
O melhor plano surgiu da criatividade do Teixeira.
Duas outras milícias tinha pensado na possibilidade de um sequestro, mas foi ele quem estabeleceu as bases para a execução.
Alcádia estava por dentro de tudo, porém o trabalho era arriscado demais para ela querer envolver o amado.
Só depois de tudo consumado e, já na fazendinha em Minas Gerais é que ela me deu o serviço.
Coube a ela meter-se na embaixada, substituindo a secretária que mandou apenas um fax onde informava o grave estado de saúde da avó e seu afastamento provisório e necessário. Não deu maiores informações nem retornou à embaixada.
Se eu soubesse antes que ela não fazia parte da milícia, Catarina Suam provavelmente não teria engrossado a lista dos desaparecidos...
Enfim, Alcádia desenhou a rota diária do embaixador para os milicianos e manteve-se fora de cena até o momento da negociação no mercado.
Na data combinada, Zé Flávio e Tourinho, à bordo de um fusca azul-turqueza chapa fria, interceptaram a limusine do embaixador, ocupada apenas por ele e pelo motorista — falha imperdoável do governo, quem se lembraria de que a milícia tentaria algo nesse sentido em pleno domingo de páscoa? ­— dupla falha, aliás, em tempos de guerra toda a vigilância é pouca...
Bem, o fusca cruzou o largo do Ibirapuera e parou na frente da limusine. Um dos ocupantes simulou uma revisão no pneu e o outro dirigiu-se ao motorista do embaixador para solicitar ajuda. Quando o motorista desceu, o mocinho deu-lhe uma coronhada de pistola na cabeça e entrou na limusine. O outro jovem rapidamente ocupou a poltrona ao lado do embaixador e arrancaram dali, deixando desacordado o motorista.
Mário e Carmela ocuparam o fusca azul e seguiram em direção oposta à limusine. Eles tinham sido responsáveis pelo sinal de chegada do embaixador. Um outro fusca, ocupado por Rafael e por Cristovam, seguiu a limusine até o refúgio, um sobradinho discreto da vila Mariana.
Durante dois dias os quatro militantes estiveram ocupados em informar o embaixador da situação política do país. No fim do segundo dia Mário chegou, trazendo mais mantimentos e se colocou a postos para levar e trazer recados e informações. Só na quarta-feira Carmela se apresentou para tomar conta da limpeza e das refeições, ficando por ali até o fim das negociações. A exigência era que quinze presos políticos fossem libertados e o jornal noticiasse o fato.
Foi na tarde de quinta-feira que o sobrado tornou-se alvo de suspeitas. Como em tantas outras residências do bairro e da cidade, um furgão preto da polícia militar plantou-se na esquina do sobrado, seus seis ocupantes: um cabo do exército; dois investigadores da polícia civil, um sargento e dois pracinhas da polícia militar, ficaram ali até a manhã de domingo, quando os jovens conduziram o embaixador, que passou sem ser reconhecido pela guarnição de serviço, ele estava de óculos escuros e peruca loura. Em total segurança, ele foi abandonado no caminho da praia de Santos.
O seqüestrado foi bem cuidado pelos garotos e prometeu agir em favor da causa miliciana. Quando em liberdade ele tentou cumprir a promessa, no entanto foi obrigado a retornar à França imediatamente. Os médicos alegaram que o embaixador sofria de um aneurisma na parte frontal esquerda do cérebro. Toda essa riqueza de detalhes adquiri com o Dr. Estêncio, que cuidou pessoalmente do caso do embaixador.
Pobre alma boa... O aneurisma rebentou assim que ele desembarcou em sua pátria amada. Com ele morreu metade das esperanças dos milicianos. Preciso admitir que aqueles jovens tinham muita ousadia para desafiar a “própria morte”, embora lhes faltasse o suave embalo do berço esplendido...
Tantas vezes se entregaram de corpo e alma por causas nobres e viram seu sonho fenecer...
Entre eles sempre esteve minha bela e corajosa Alcádia...


Oi. Sim, sim, estou ouvindo claramente, pode dizer. O que? O peixinho dourado entrou no aquário? Meu Deus! Não, não. É que a base estava contando com o apoio dele para escapar do tubarão. A gente vai dar um jeito. Não se preocupe companheiro. Fique onde está. Vamos dar um jeito de mandar alguém até você. Claro que não. Eu mesma irei se for preciso. Tudo bem. Não se afaste daí ok?
Problemas amor?
O Ricardinho caiu. Eles estão chegando perto demais Liu. Isso está ficando muito perigoso!
Eu já disse a você Alcádia. Você precisa sair de cena agora.
Ainda não meu bem. Vou ver dois companheiros hoje à tarde. Precisamos montar uma estratégia para tirar o Jesse de circulação, ele está marcado e morrendo de medo. Talvez eu mesma tenha de ir removê-lo do abrigo. As coisas se complicaram muito depois do sequestro... Os milicos estão muito revoltados agora.



Alguns pólos de reunião foram estourados. Vários militantes da base de Alcádia acabaram presos. Liu temia pela segurança de sua esposa, agora grávida. Pediu a ela que se afastasse do movimento. Pelo ao menos até o parto, ela estava irredutível, não poderia abandonar os companheiros nesse momento.
Ela prometeu que se cuidaria, porém foi pega no mercado com dois amigos bem próximos. Era um encontro “casual” para negociar os termos de soltura de alguns dos líderes do movimento.  









CAPÍTULO III – OS PAIS

Tinha corrido tudo bem até ali. O sequestro do embaixador fora um sucesso em todos os sentidos. Desde a arquitetura do plano até os minutos finais da ação, porém logo na madrugada de segunda o Teixeira caiu. Ele foi um “Titã” e não entregou ninguém, mas de alguma maneira as informações estavam vazando. Teixeira foi fuzilado depois de vinte horas de interrogatório. Então pegaram Alcádia no mercado com Mário e Zé Flávio... Nunca mais se ouviria falar dos dois. Ela teve mais sorte. Torturaram-na bastante, coitadinha, mas ela era de rocha. Negou veementemente qualquer envolvimento com a turma. Os companheiros não foram tão felizes na negativa.
Libertaram minha vida depois de três dias de reclusão. Graças a Deus não tivemos maiores complicações. 
Decidimos sair de cena “até as crianças nascerem”, ela disse.
Ela sentiu a necessidade de se preservar pelos filhos. Soube na clínica em que se recuperava da tortura que teria dois bebês.
Tudo está tão monótono agora. Só a lembrança dos dias de fúria embala os momentos de solidão do esposo. Esse sítio no qual se refugiaram lhe era estranho até então. Ele que sempre viveu na agitação do grande centro, transitando dia e noite nas movimentadas ruas de São Paulo, tinha que aprender a conviver com a quietude de uma fazendinha no interior de Minas, apartando bezerros à tarde, tirando o leitinho de manhã e sem nenhuma outra ocupação de efeito no resto do dia.
Só ele e Alcádia ali com pouca, na verdade, quase nenhuma conexão com o mundo exterior. Só uma visita eventual de um companheiro do movimento, o médico que se prontificara a ir de vez em quando visitar a grávida, já que essa precisava de assistência no momento mais crítico de seu estado.
É estranho, na verdade.
Ele sabe de onde saíram, tem uma vaga ideia de onde se encontram nesse momento, mas ignora completamente o deslocamento.
Chegaram ali de olhos vendados. O mal de pertencer a uma facção é que você precisa se proteger até de você mesmo. Seus atos, suas lembranças são seus maiores inimigos. É melhor não saber quem é você, assim, se te pegarem você não poderá delatar seus amigos. Não saberá dizer nada ainda que queira profundamente. E então, tudo o que terá de fazer será suportar a tortura. Os males. A dor.



O doutor Estêncio chegou preocupado dessa vez. Liu notou a ruga no meio da testa que indicava a tensão do médico.
Há algo mais grave com ela Doutor? Alguma coisa que o senhor não pudesse dizer lá dentro?
Com ela não Liu. O problema é lá embaixo. Aquilo lá virou um campo de guerra. Cada dia cai mais um companheiro. É um inferno. Dá uma agonia tão grande a ignorância das pessoas, sabe? Não sei se fingem ou se não sabem nada realmente. Eu queria entender como eles conseguem permanecer tão vazios enquanto tudo isso acontece.
Não é fingimento não meu amigo.
Eles são mesmo muitos cordeirinhos. Os ricos, caso possam continuar trocando de carro todo ano, vestindo bem e comendo do bom e do melhor, não querem saber quantas vidas foram sacrificadas para manter o padrão de vida deles; os pobres, bem, esses estão ocupados demais tentando não morrer de fome, de bala perdida ou de uma epidemia qualquer; e acima de tudo, todos querem ser campeões do mundo.
Ou seja, deram ao povo um circo para baterem palmas sendo eles mesmos os palhaços. Os jovens só estão envolvidos nesta causa porque tem tempo e espaço para nos dar atenção doutor Estêncio.
Os outros não têm isso. Ou não querem ter. Eu acredito.
É Liu. Você tem razão. As pessoas estão ocupadas demais tentando manter o mundinho delas girando no mesmo sentido. Preservar a indiferença, comemorar feriados ignorando os mortos e feridos em consequência dessas comemorações e a celebração do horror heróico que construiu nossa história até aqui. Pensam que isso é o mais próximo que podem chegar da perfeição.
Às vezes, tenho vontade de lutar com garra para abrir os olhos dessa gente.
Outras vezes, tenho ganas de rasgar todos os véus que protegem as ‘corjas de assassinos que governam nosso estado’ e dizer: eis aí tua verdadeira história povo. Comemorem agora sabendo que a história de vocês é podre desde a fundação. Festejem as leis que lhes deram escritas não nas pedras como a Moisés, mas no barro, na lama de onde vocês saíram como vermes imundos. Na lama, produto do sangue e dos corpos de seus semelhantes dilacerados nos campos de uma batalha diária e secreta.
O senhor não pode dizer isso doutor. Estaria assinando sua sentença de morte.
Sinceramente Liu, não sei se me assusta mais a sentença de morte ou a condenação da vida!
Estou desiludido demais com toda essa luta inglória.
Pegaram meu filho, Liu.
Oh me Deus! Quando foi isso doutor?
Há uma semana. Acho que eles queriam a Alcádia. Ele não sabia de nada. Nunca se envolveu na nossa causa.
O John Robert era um menino da paz. Não queria encrencas com ninguém ou por ninguém. Eles sabiam disso, porém tentaram usá-lo para me mandar um recado.
Eles o destruíram, Liu, nem me entregaram o corpo. Estou em frangalhos, Liu. Eu sei que o acidente com o opala é falso. Meu garoto dirigia bem. Aquela explosão foi provocada. Eu tenho certeza...
Liu, mataram meu filho porque estou tentando preservar a vida dos seus.
Eu sinto muito meu amigo. Nem sei o que posso dizer ou fazer numa hora dessas. Eu...
Os dois choraram copiosamente por horas seguidas. Depois o médico estendeu a mão ao amigo.
Não estou culpando vocês de nada, Liu. Me entenda, por favor. Eu só precisava colocar para fora a dor de um pai que viu a vida de seu filho ser ceifada aos dezesseis. Ele tinha tanto ainda por fazer. Por viver, sei lá. Mas nós sabíamos que seria assim não é mesmo?
São os riscos da profissão e as consequências de nossos atos.










CAPÍTULO IV – O PARTO

 Alcádia passava o tempo inteiro deitada, isso dava a ele bastante tempo para repensar sua vida anterior. Sua via crucis. O que mais o alegrava no passado era a recordação do seu casamento. No começo a mulher era toda timidazinha, com relação a ele é claro. Eram colegas de trabalho há cerca de quatro meses em uma grande montadora de automotivos do estado e ele bem que a via de papinho com outro colega de trabalho todos os dias. Inclusive, nas raras horas de folga ela sempre estava cantando em alguns grupinhos musicais que se formavam por ali.
Ele sempre almoçava na mesa ao lado da dela e ficava prestando atenção no bate-papo do grupo. Um dia, não se lembrava qual o assunto que discutiam, mas, as palavras dela ficaram gravadas para sempre na memória:
Sou quem sou a exatamente vinte e dois anos. Alguma coisa mudou na forma e aparência física, porém, minha essência é a mesma ao longo desses anos. Minha essência estava formada aos cinco anos. Não sei bem quem eu era até ali, porém, venho sendo a mesma pessoa desde então.
O mesmo ser confuso e indeciso, capaz de ficar meia hora no mercado para decidir entre uma torrada normal e uma “queimadinha” e quase duas pensando se leva um pote de requeijão de 200g ou um de 250g (o preço tem uma variação de alguns centavos apenas).
Um ser assim, que ainda não descobriu do que gosta exatamente, mas que sabe perfeitamente do que não gosta.
Uma pessoa que sabe que não levará um suco de manga, (porque apesar de adorar a fruta, detesta seu sumo) mas é quase incapaz de decidir entre todos os outros sabores que tem a sua disposição.
Então, resumindo, sou aquela pessoa que não descobriu ainda do que gosta, mas tem certeza absoluta daquilo que não gosta.
Toda essa maneira encantadora e apaixonante de versar sobre gostos e preferências mexeu bastante com as emoções dele. Decidiu que precisava a qualquer custo conseguir um primeiro encontro com ela para fazer desse o único. Um eterno encontro de almas.
No entanto, sempre quando ele se aproximava a diabinha ficava muda. Só para ele não tinha assunto.
Tudo bem.
Ele sempre foi paciente.
Seu encantamento não era algo passageiro como a comunhão dela com o outro colega. Ele daria um jeito de se aproximar. Saberia esperar, pacientemente, até que o coração e a vida daquela mocinha bela e esquisitinha se abrissem para recebê-lo.
Aconteceu mais rápido do que ele esperava.
A oportunidade de estar a sós com ela veio instantaneamente.
O dia estava lindo.
Era por volta do meio dia quando chegou um ofício intimando-os a comparecer no escritório central. Seriam quatro horas de viagem. Só os dois e a beleza do caminho projetado pelos homens a fim de fazer o encantamento dos amantes.
Toda aquela selva de pedras que se aglomerava nos arredores do centro e que ele circundava vagarosamente a fim de fazer render as horas ao lado da mulher, amada tão veementemente. A magnitude do museu na Av. Paulista, tantos prédios arquitetados com esmero e maestria...
Ele conduziria o veículo da montadora e a pérola tão desejada desde o primeiro dia na empresa.
No começo da viajem ela permaneceu calada. Limitava-se apenas a monologar alguma resposta quando ele perguntava.
O diabo é que até ele estava ficando inibido. Ele que sempre fora tão expressivo com as mulheres. Ainda bem que ela se soltou um pouco mais depois de um tempo. Logo estava falando de quase tudo. Ela lia bastante. Isso ficou evidente, pois dominava diversos assuntos e temas.
Discorreu por horas seguidas a respeito do banquete de Platão, defendeu com bravura os motivos que levaram Raskolnikov ao crime, afirmando que em situação semelhante também faria o mesmo.
A seguir, trouxeram a discussão para um plano nacional e falaram sobre o governo e a constituição da nacionalidade brasileira. Depois dessa viagem os dois ficaram bem unidos.
E, não saberiam precisar como chegaram ao altar.


Finalmente chegou à hora do parto. Ela sofria horrores. A dor intensa parecia querer rasgá-la ao meio. Mesmo se esvaindo inteira ela encontrava forças para esboçar um sorriso.
Finalmente iria poder contemplar as faces de suas crianças misteriosas. Seus bebês, que durante longos meses foram apenas sentidos, estavam prestes a figurar em uma nova e bela realidade. Sua alegria estaria completa agora que a maldita perseguição chegara ao fim. O sistema agora caminhava para o estabelecimento de dias melhores para todos. Seus bebês fariam parte dessa transformação.
Como se por um segundo tivesse a oportunidade de vislumbrar o futuro de seus rebentos, num instante em que a dor transcendeu todas as suas possibilidades de resistir, um grito saído das profundezas de sua alma cortou o espaço e também o coração de seu pobre marido que o tempo todo segurava suas mãos implorando por uma chance de dividir o sofrimento com sua amada, velha companheira de guerra!
“Ah minha querida semente! Você teria sido uma verdadeira potência, tivesse produzido frutos com a tendência de permanecer pra sempre unidos e usando seu poder para o bem. Quisera poder bloquear aqui sua vinda ao mundo, tamanha é a desgraça que causará aos humanos. Pensar que nós os amamos tanto desde o primeiro momento, que abandonamos nossa vida, nossa causa para preservar vocês. Quanto horror meu Deus! Quanto sofrimento”...
Como Moisés, que tendo visto toda a beleza e extensão da terra prometida, morreu a alguns passos de seus limites, a alma de Alcádia a abandonou a alguns segundos de contemplar a face de seus meninos.















CAPÍTULO V – ÓRFÃOS NA TERRA

Liu desabou com a morte da esposa.
De repente era apenas uma sombra do homem forte e decidido que havia sido.
O próprio doutor Estêncio que esteve ao seu lado nos bons e maus momentos não o reconheceu quando chegou ali para auxiliá-lo.
O médico achou por bem levá-los de volta a civilização agora que a mulher havia partido. Só ela era procurada. O comando o deixaria em paz com os filhos.
O homem estava tão aniquilado que não questionou nenhuma das decisões tomadas por seu anjo da guarda.
Ele sempre achou que estivesse pronto para tudo na vida, mas esse golpe foi além do que poderia ter suportado. Por quinze dias não quis ver o rosto das crianças.
A babá disse que eram dois meninos.
“Lindos”, ela disse.
Mas ele nunca foi de concordar com a opinião alheia. Preferia suas próprias conclusões. E ele concluíra de antemão que se aquelas coisas foram capazes de sugar a vida de Alcádia para vir ao mundo, eles eram muito feios.
Pediu à babá que evitasse o choro dos pequenos sob pena de demissão. Aqueles chorinhos trariam de volta todo o sofrimento que tentava superar.
Todos nós temos tendência a ignorar a dor, como se dessa forma conseguíssemos nos manter imunes. Porém, ninguém está além do bem e do mal.
É preciso aprender a lidar também com esses momentos em que tudo deu errado. E ele foi aos poucos se anestesiando. Já não os culpava verbalmente por sua dor.
O médico sempre falava com ele e pedia que reagisse. Que mostrasse um pouco ao menos de força, ele devia isso aos bebês. Precisava ser menos egoísta. Justo ele que abdicara de tantas coisas para ajudar companheiros estranhos, agora ignorava as necessidades dos próprios filhos enquanto ele, o médico, estaria disposto a fazer qualquer coisa para ter seu Robert por perto outra vez se fosse possível.
Um dia Liu passou pela sala, os meninos dormiam na manta. Teve pena daquelas coisinhas indefesas largadas ali. A babá fazia o possível, mas não poderia dar a eles toda a atenção que precisavam e o amor de uma mãe. Eles nunca teriam isso.
Naquele instante ele entendeu que perdeu muito ao morrer o amor de sua vida, no entanto era belo, tinha posses, garra, coragem, enfim, cedo ou tarde encontraria outro amor. Enquanto que seus filhos foram privados, pela vida, do único amor incondicional.
Caberia exclusivamente a ele a tarefa de compensá-los por esse dano.
A partir daquele momento seria pai e mãe, diversão, passa-tempo, herói, fantasia, educação, moralidade, conhecimento. Tudo o que eles precisassem para viver bem.
Quando a babá voltou para a sala, encontrou-o dormindo com os rebentos aninhados em seus braços.
Desse dia em diante os meninos tiveram toda a atenção e todo o cuidado que ele pode oferecer.
Tiveram de tudo, menos limites.
O pai não tinha coragem de bater nos pobres órfãos nem quando necessitavam. A babá não tinha autonomia suficiente para isso, apesar de sentir muita vontade. Eles foram crescendo assim meio desumanizados.





CAPÍTULO VI – FILHOS DA MÃE

Enquanto cresciam eram unidos. O que Um fazia o Outro imitava e às vezes até confabulavam, inventando meios de esconderem do pai suas traquinagens. Quando a necessidade de encontrar um culpado era urgente, diziam apenas: “foi a Nancy, mas, por favor, pai não manda ela embora. Ela é como se fosse uma mãe pra nós. Não fala nada com ela também não. Ela pode se ofender e pedir pra sair e a gente não pode viver sem ela.
Foi assim no dia em que sem querer acabaram assassinando o gato de estimação do pai. Eles brincavam inocentemente de cemitério no terreno atrás da casa. Enterraram diversos mortos imaginários, choraram alguns defuntos que não tinham e, de repente, o que tinha a picareta nas mãos virou-se com olhos estranhos e gritou: “agora vou te matar”! O da pá se lançou em disparada gritando por socorro. Esse socorro veio na forma do gato que dormia displicentemente no meio do caminho. O bichinho não teve o privilégio de um último grito. Como estava mesmo morreu, achatado no chão por pés incautos que desabalados buscavam abrigo. Auxílio.
Quando o pai perguntou do gato Um se calou, o Outro disse que o bicho fora atropelado na Av. Transversal. A primeira mentirinha colou. A partir daí sentiram-se aliviados e motivados a novas aventuras nesse sentido.
A prática os estava aperfeiçoando.
Logo ficariam insuperáveis.
Por vezes lhe parece ver a imagem do gato no canto da cela exigindo reparação e dizendo: “fui seu primeiro crime. Sua grande culpa. Seu maior pecado”!
Chega!
Esse é o momento das memórias de infância. Lembremos desse episódio quando entrarmos em tempo oportuno.
Liu estava enganado quanto a encontrar em breve um novo amor. Apesar de todos os atrativos externos que portava, tinha um temperamento muito difícil.
Os anos de intensa dedicação ao sistema anti-repressão fizeram dele uma pessoa amarga e intolerante. A ditadura passou, porém deixou marcas muito profundas em seu caráter já um tanto taciturno.
Muitos de seus amigos, que nem eram tantos assim, morreram ou continuaram desaparecidos depois que a vida voltou ao normal. Até o doutor Estêncio, seu único amigo que restara decidiu ir embora do país. As lembranças de seu filho o estavam sufocando.
A mãe de Alcádia, sua parenta mais próxima ainda viva, tinha partido para a Espanha pouco antes de eles se envolverem com o movimento. Chorou lá, sozinha, a morte da filha e não entrou mais em contato com o genro por muito tempo. No entanto outro fator o distanciava mais das mulheres que suas crises pós-ditatoriais.
O fato é que ele buscava tanto os traços de Alcádia em todas as companhias femininas que acabou por permanecer só. O coração pode até tentar uma segunda chance quando sente que a primeira não foi verdadeira. No entanto, quando se vive algo tão puro, tão forte e tão intenso, só essa experiência é válida na vida. Nada substitui. Nada se compara.
Liu tinha uma certeza tão grande disso que nem demonstrando todo o amor e compreensão do mundo, mulher nenhuma conseguiria ocupar o espaço de seu único amor.
A primeira a tentar algo nesse sentido foi a babá dos meninos.
Ela deu muito de si àquela família em declínio. Abandonou seu próprio lar para isso. A princípio seu marido não entendia o fascínio que as crianças exerciam sobre ela. Eram dois órfãos como tantos outros que existiam por aí.
Nancy não gostava quando o marido falava dessa maneira. Soava um tanto bárbaro esse modo de se expressar. “os pobrezinhos nem chegaram a merecer um olhar da mãe. O pai nem os conhecia e já estavam com dez dias! Pra que trazer ao mundo se não saberia o que fazer com eles”?
Os primeiros momentos naquela residência lhe cortavam o coração.
Aqueles seres tão doces ali a mercê de sua sensibilidade ou falta dela. Só tinham a ela no mundo porque filho nenhum merece um pai que os ignora todo o tempo. Nem que seja para pegar no pé, dar uma bronca ou mandar que moderem no doce.
Um filho precisa do olhar dos pais para crescer saudável. Para se sentir amado, ou mesmo necessário na vida de alguém. Sem isso, ainda que tenha todo o ouro do mundo, a existência não faz sentido. Não vale a pena. As conquistas são inglórias e o ser se forma defeituoso.
Nancy sabia muito bem disso. Ela mesma fora uma criança muito pobre, não que estivesse em melhor situação agora, mas na infância, havia dias em que faltava até a farinha que normalmente a mãe usava para fazer o pirão de ovo que seria a única refeição diária dela e de outros cinco irmãos. Às vezes ela entrava em parafuso quando lembrava essa dureza.
Não entendia como os pais sendo tão pobres tinham se animado a cumprir tão seriamente a ordem de multiplicar e encher a terra. Para quê tanto filho se o que tinham não seria o bastante para um só?
Enfim. Essas eram coisinhas que ela não entenderia muito bem nunca. Mas de uma coisa ela nunca duvidou: seus pais a amavam profundamente. E tinham o mesmo sentimento por cada um de seus irmãos. Poderia faltar tudo, vestes, alimentos, remédios, estudos. Mas o amor não! Isso os cinco receberam com sobra. Tanto que agora ela tinha o suficiente para repartir com os pobres órfãos e até mesmo com seu patrão rabugento e depressivo.  
Durante vinte dias não voltou para casa nem telefonou ao seu marido. Sempre as voltas com os enjeitadinhos. Quando se lembrou do marido e resolveu aparecer em casa, encontrou uma longa carta contendo lamentos, acusações e uma chorosa despedida. Pensou que mais tarde resolveria esse problema. Tinha que voltar, os garotos agora eram sua única ocupação.
Depois de três anos eles foram encaminhados à creche. Como lhe sobrasse um tempinho para respirar por conta própria foi atrás do marido outra vez. Ele estava vivendo com uma garotinha anos mais nova. Tinham até uma filhinha. O marido não precisava mais dela nem a queria por perto. Apenas pediu que ela lhe concedesse o divórcio. Precisava legalizar sua nova situação. Não havia nada que ela pudesse fazer agora a não ser assinar. Dedicara tempo demais à família alheia e a sua se deteriorou completamente.
Com os pequenos na creche ela não tinha mais tanto o que fazer na casa então passava horas no velho parque próximo à residência. Aprendeu a conhecer cada plantinha daquele lugar e as chamava pelo nome. Adorava quando as folhas coloridas caíam sobre sua cabeça. Um vento suave soprava anunciando a chuva que se aproximava. Nesses momentos voltava para casa e encontrava o patrão ainda em volta da longa mesa de mármore escrevendo e revisando papeis de sua empresa que começava a se tornar notável. Ela se sentava na rede da varanda, cuidadosamente armada de forma a lhe permitir observá-lo sem ser vista.
Duas solidões na mansão que pertencera ao médico e que foi ofertada ao seu patrão quando aquele resolveu se expatriar. Uma casa tão bela, arejada, grande construída para ser habitada por uma família numerosa. Entretanto o doutor tivera apenas um filho e resolveu permanecer sozinho depois do falecimento da esposa, quando o menino, Robert, contava uns sete anos mais ou menos.
Ele alegou que não tinha mais prazer nenhum em continuar ali no lugar onde enterrou os mais belos sonhos de sua vida tendo lutado tanto para manter vivo o sonho de outros. Apegara-se a Liu como a um filho e o nomeou seu único herdeiro passando a este sua herança mesmo antes de morrer.


PARTE III

BRUTALIDADE





















VII – O INOCENTE

Um dia, quando pela enésima vez pensava nessas coisas, Nancy começou a lançar outros olhares para o patrão: “bem apessoado, jovem ainda, e podia-se dizer que era um homem rico. Entretanto não se casara novamente. Sequer apareceu com alguma namorada em casa nesses três anos”.
Com jeitinho ela foi se aproximando. Dizendo coisas que ele queria e precisava ouvir. Decidiram tentar a vida juntos. Já que eram mesmo seres largados no caminho.
Ele pensou que daria certo porque ela, como ele, vivia em função das crianças. Na pior das hipóteses teriam algo sobre o que conversar. No começo foi legal. Nancy era uma boa mulher. O diabo é que apesar de toda a amabilidade, ela não tinha o sorriso de Alcádia nem sua inteligência e resignação. Apesar disso os dois iam bem. Havia uma tensão ou outra na convivência, mas superavam as crises na maioria das vezes.
Com o tempo ela foi se tornando arredia, amarga e já não parecia a mesma mulher afável que esteve ao seu lado nos maus momentos. Ao contrário. Falava demais e sempre na hora errada.
As pessoas nem sempre conseguem chamar o silêncio para aconselhá-las na hora da ira. Extravasam toda a sua fúria em palavras tolas e desnecessárias. Elas não entendem que um pedido de desculpas não tem a propriedade de curar um coração ferido por uma palavra maldita.
Nancy cometeu esse pecado que para Liu não tinha perdão.
Ele que nunca brigara com sua amada nem ouvira ou dissera para ela algo depreciativo, chegou um dia em casa e encontrou a babá enfurecida, quebrando louças e xingando as crianças. Ela que nunca erguera a voz para nenhum deles até ali.
Os meninos estavam em transe, ele ficou sem reação na hora, trancou-se no quarto e ela ficou ainda mais irritada, como se fosse possível. Foi atrás esmurrando a porta e gritando. Lá de dentro ele quis saber o motivo da revolta.
Deixei minha vida por vocês, passo o dia inteiro trancada nesse inferno cuidando dos seus filhos e você entra mudo e sai calado todos os dias. Me trata como se eu fosse uma escrava de vocês e ainda me obriga a receber cartas de suas paqueras? Berrou ela.
Ele tentou argumentar que vivia para os filhos e para o trabalho, foi pior tentar consertar. O remendo novo fez o pano velho ruir de vez: Você ainda admite não ter um lugar pra mim em sua vida? Acorda de uma vez palerma! A Alcádia morreu. Não adianta viver como se esperasse ela voltar. Nenhuma mulher vai tolerar por muito tempo sua indiferença. E eu já estou no meu limite ouviu? No meu limite!
Ela saiu batendo a porta. Liu abraçou os filhos e chorou outra vez toda a dor das crianças órfãs junto com a dor de sua própria orfandade. Pois era, ele também, órfão de amor. Órfão de vida. Sua alma partiu no último suspiro da esposa. Agora, seis anos depois Nanci, a mulher que quase o fez esquecer essa dor, abriu a ferida novamente e deixou sangrando.
Ela nunca aprenderia a virtude de ficar calada esperando que a morte do dia assassinasse a ira e a revolta nascidas de um descontentamento qualquer. Para que o despertar de um novo dia não trouxesse consigo amargas recordações e a necessidade de um pedido de desculpas. Muitas pessoas passam a vida sem descobrir a grandeza dessa paciência, por isso extravasam em gritos e quebradeiras toda a fúria de um momento passageiro. Esquecem-se que não há meios de remendar feridas no coração...




VI – O SUPLANTADOR

Depois que se acalmou ela veio mostrar a carta que teria desencadeado toda a revolta:

“Querido Liu. Há tanto tempo não nos falamos. Eu precisava desse tempo distante para curar meu coração. Acho que agora já estou bem. Podemos retomar nossos caminhos. Refazer nossas vidas. Preciso voltar pra perto de vocês. Conhecer os meninos. Estou morrendo de saudades. Aguardem-me. Aparecerei em breve. Beijos, Marry”.

Ele leu a carta sem emoção, dobrou o papel e informou friamente: “Marry é mãe de Alcádia”.
Nancy ficou sem graça. Mostrou arrependimento e pediu desculpas. Ele disse que seu coração não se reconstituiria com um pedido de desculpas. Que estava sensibilizado demais para esquecer tudo o que ouviu. E que seria melhor ela ir embora agora. Eles nunca voltariam a ser um casal. Nem a sua confiança para tomar conta de seus filhos ela tinha mais. Seu destempero havia sido gravíssimo. Deletando os seis anos de dedicação total, Liu se recordava apenas da gritaria das últimas horas.
Ela se foi.
E sempre foi assim.
Todas as namoradas posteriores o acusaram de indiferença e ele mandou que elas o deixassem com sua solidão.
Acabou desistindo de procurar uma nova esposa.
Alcádia era insubstituível.
Os meninos tiveram mesmo só a referência paterna, sendo Liu a única criatura humana com quem puderam manter algum vínculo emocional.
Os dois eram seres desprezíveis, embora Um (o da pá) tenha sido mais dócil que o Outro (o da picareta) este sempre foi mais dissimulado. Talvez o momento agora seja oportuno para rememorar aquele episódio do assassinato do gato que acabou marcando a entrada dos dois para o mundo negro e sujo da criminalidade e da corrupção.
Pois bem, o gêmeo que tinha nas mãos a pá, realizando o processo de enterramento dos mortos imaginários, às vezes tinha uns ataques de bom senso e se via lamentando o fato de ser tão vil.
O Outro, que perseguiu o irmão com a picareta levando aquele a matar acidentalmente o bichano não se atormentava tanto com o resultado dos delitos. Era naturalmente perverso e, na adolescência saía com todas as namoradinhas do irmão que em alguns momentos era elogiado pela escolha de um programa que não havia realizado, em outros, censurado, ignorado até, por uma garota que se despedira apaixonadíssima apenas três dias antes. Esse Um explicava-se com o ditado tão popular: “o que querem as mulheres? São todas loucas, afinal”!
Ele só entendeu esses ataques quando uma namorada com a qual havia terminado seis meses antes apareceu grávida, jurando que era dele o bebê e obrigando-o a assumir. O estado era recente: dois ou três meses.
Descortinou no ato a sordidez da trama do Outro, mas, como negar o fato sabendo que esse bebê provavelmente teria DNA igual ao seu? E o filho da puta ainda negava de pés juntos qualquer envolvimento com a regateirinha.  O jeito foi assumir a barriga. Tratá-la com todo o carinho do mundo e chorar rios de lágrimas no velório da descarada que o traiu com seu próprio irmão.
Desse crime ninguém poderia acusá-lo, já que em tantas outras vezes, viu-se induzido pelo Outro a matar, arriscando-se e expondo-se nesse ato.
Desde o primeiro momento, acostumou-se a ser cúmplice do irmão em suas traquinagens. Ao menos desde que se podia lembrar. Carregava a culpa por coisas bobas e insignificantes. E também por acontecimentos sérios.
Tudo bem.
Para mantê-los unidos, faria tudo o que estivesse ao seu alcance. Suportaria tudo. O irmão saberia recompensá-lo depois, caso precisasse algum dia.
Irmandade para ele era isso até o Outro vir com aquele papo absurdo de que não engravidara uma garota usando seu nome (ou mais que o seu nome no caso). Dessa vez brigaram feio. Jurou pela alma da mãe que vingaria essa traição, pois nunca tinha saído com qualquer “peguete” do Outro.













V – O INOCENTE

Um deles estava mentindo. O velho tinha certeza disso quando via os dois se denegrindo, se acusando. Chegando as “vias de fato” em alguns momentos pelo filho que nenhum queria assumir. Mas, o diabo é que a inocência expressa nos olhos de ambos ao jurar negativamente era tão divinal que ele não poderia dizer qual era o sacana.
Pai, eu não sei como isso foi acontecer!
Como assim? Meu filho, você nunca ficou com ela?
Claro que sim, ‘né’. Mas a gente tinha terminado a um tempão.
Quanto tempo, mais ou menos?
Uns seis meses. Eu acho.
E como ela pode jurar que o pai é você?
Então, tenho certeza que o pai é o Outro. Mas ele nega o tempo inteiro. Por isso temos brigado tanto.
Ele teria coragem de fazer isso com você?
Sim. E o pior é que essa não seria a primeira vez! É a traição mais grave, é claro, porque agora tem uma criança em jogo, porém, não é a primeira vez que ele sai com uma namorada minha. Ele só foi apanhado em falta porque eu me esqueci de comentar que já tinha terminado com ela. A Silene não aceita isso. Ela acredita realmente que era eu o tempo todo! 
Houve um momento que o pai chegou a cogitar na hipótese de os meninos estarem sendo vítimas de uma armação infame. Ele acreditou nisso até a esposa (não) amada de seu garotinho ser morta em um fim de semana na casa de campo.
Tudo estava bem na sexta-feira. No sábado, ela decidiu repousar no sítio por dois dias e dirigiu, sozinha, os vinte quilômetros que levavam ao sonhado paraíso. Como não houvesse retornado na terça-feira, o sogro foi procurá-la. A pobre jazia no sofá da sala. Fora vítima de estrangulamento.
A casa não havia sido arrombada.
Todas as portas permaneciam trancadas e a chave de Silene ainda estava na bolsa dela. Nenhum dos rapazes estava na cidade. Como o velho houvesse sido a última pessoa a ter contato com a falecida, foi levado para apodrecer na cadeia, pois, a promotoria conseguiu enquadrá-lo em quatro artigos criminais hediondos.


















IV – O PRISIONEIRO

Ele entrou na sala de audiência com olhos de fera.
Ninguém tinha o direito de acusá-lo por um atentado contra sua menina.
Justo ele que fez de tudo para ajudá-la.
As mesas estavam dispostas em diagonal de modo que ele podia observar de frente a platéia que se aglomerava em seu julgamento.
Estava armado o circo e ele era a atração principal. Só que, a despeito de um espetáculo comum, as pessoas não o aplaudiam.
Xingavam-no.
Os gêmeos mantinham uma distância considerável da cúria e evitavam olhar-lhe nos olhos.
Onde foi que errei com essas serpentes?
Ninguém mais que eu sabe essa resposta!
Cada vez que passei-lhes a mão nas cabeças, evitando fustigá-los com a vara, lancei-os um pouco mais nos braços do caos.
Mimei-os demais, enquanto os amava de menos. De muito, muito menos!
É sempre assim.
O mimo encobre uma carga excessiva de desamor, e eu
?
Desculpe, Doutor. Não ouvi o que o Senhor disse.
?
Ah, sim. É só o que tenho feito, Doutor. Jamais me neguei a dizer a verdade. Sou realmente inocente e, é exatamente isso que direi ao excelentíssimo Senhor Juiz. Eu jamais mataria a Silene.
Que palhaçada este julgamento.
Como é que o ilustre Doutor Liu acaba em uma situação como esta. Como poderei convencê-los de minha inocência neste crime?
?  
Juro.
?
Sou Liu.
Sim. Vou relatar os fatos da maneira como aconteceram. Na Sexta-feira que antecedeu o homicídio, minha nora, a senhora Silene, decidiu ir passar o fim de semana na chácara. Nós estávamos almoçando quando o telefone tocou. Ela falou rapidamente e voltou à mesa apenas para me avisar que subiria à serra queimada imediatamente. Perguntei quem tinha ligado, ela desconversou. Tentei argumentar que não era bom ela viajar sozinha naquele estado em que se encontrava.
?
Claro. O estado de gravidez, com efeito.
?
Pois bem, disse que tiraria plantão no fim de semana, mas que iria com ela na segunda-feira, caso ela esperasse. Não funcionou.
?
O meu argumento. Ele não funcionou Senhor promotor. Prosseguindo. Aconteceu que tive um contratempo depois e acabei não comparecendo ao meu plantão.
?
Questões de ordem doméstica, Senhor promotor. Não vem ao caso agora.
 ?
Me desculpe. Então, na terça-feira, como ela não telefonasse, me preocupei e subi à Serra Queimada para ver como ela estava. Chegando lá, entrei na casa e a encontrei estrangulada, com um corte na barriga por onde haviam tirado o bebê. Me desesperei e, como sou médico, me julguei capaz de reanimá-la, por isso toquei no corpo. Quando constatei que ela já estava sem vida, chamei a polícia de plantão. O que eu mais queria era que a polícia tivesse me apontado o culpado pelo homicídio. No entanto, fui tomado como o principal suspeito e conduzido algemado à delegacia. Excelentíssimo Senhor Juiz, Senhores juRADOS, EU NÃO ASSASSINEI SILENE! EU NÃO TERIA MOTIVAÇÃO, NEM CORAGEM PARA COMETER TAMANHA BRUTALIDADE! EU AMAVA MINHA NORA E SONHAVA COM O NASCIMENTO DO BEBÊ!
?
Me desculpe, meritíssimo. Vou me conter. Eu só  não atinei que estava gritando, eu só queria. ... Eu jamais a teria matado... Eu nunca faria algo assim... É uma...
O julgamento se estendeu por vários dias.
A família de Silene ansiava por justiça.
Testemunhas ouvidas...
Sentenças discutidas
pela plateia...
Pela mídia...
Pelo júri...
Enfim, o veredicto final:
Condenaram-no a 27 anos de reclusão em regime fechado.



III – O SUPLANTADOR

Os meninos ficaram injuriados com o resultado do julgamento.
Que motivos o velho poderia ter para assassinar a nora e o neto? Só uma mente extremamente poluída poderia pensar algo assim, tão ilógico, irracional, sem nexo. Tão desumano enfim.
Agora que se acostumavam à ideia de ter um bebê correndo pela casa uma tragédia desse tamanho desestrutura toda a família?
Também, o que o velho tinha que ir procurar no sítio?
Tudo tinha sido tão bem planejado.
Os dois tinham o álibi perfeito: uma viagem de negócios.
Ela ali sozinha.
Encantadoramente morta.
Metade de seus problemas resolvidos!
O velho só tinha que ter esperado mais um dia.
O caseiro passaria por lá na quarta-feira e ficaria tudo certo. Como negaria o homicídio se além dos membros da família só ele tinha as chaves do maldito chalé?
 Estavam divinamente instalados na pousada imperial. Um deles aguardava o chamado para o anúncio da sonhada tragédia.
O Outro ligou a TV para se distrair — era um tédio inominável ficar trancado naquele maldito quarto, mas correr o risco de ser reconhecido por alguém na cidade não estava em seus planos — no meio do filme chato exibido durante a tarde (a tevê da pousada infelizmente só exibia aquela programação vazia) ele viu a cara do pai estampada no noticiário de emergência.
A história do homicídio já se alastrara como fogo em palha seca de modo que era tarde demais para qualquer tentativa de acionar uma válvula de escape em benefício do velho. O jeito era deixar as coisas acontecerem segundo a vontade do destino.
E eles souberam se aniquilar para que o destino fizesse seu trabalho com uma precisão de grande mestre.
Estiveram no velório e no julgamento, é claro!
Choraram rios de lágrimas em consequência da tragédia e depois não foram mais vistos em sociedade por meses seguidos.
Só o Braço Direito é que aparecia de vez em quando para sanar alguma necessidade básica como a provisão de víveres para os gêmeos, dar instruções aos funcionários do escritório e coisinhas do gênero.
Não falava com ninguém sobre os meninos e trancava-se outra vez.
Nenhum ser vivo teve permissão para entrar na casa, o santuário particular das pobres criaturas até que uma nova tragédia veio abalá-los.
Em um momento inoportuno Um deles começou a pensar na situação do pobre pai. Não que sentisse algum remorso por ele, mas queria entender por que aquela vadia foi se tornar tão cara ao sogro.
O que ela tinha de especial em si? Como saber agora que não havia mais solução? Ele perdeu horas de seu dia precioso lembrando os belos olhos azuis naquela encantadora face ruiva.
Aquele corpinho indiscutivelmente na moda. Magérrima e super bem cuidada. Estava com tudo em cima, mesmo em adiantado estado de gravidez.
Era realmente muito linda a diaba. Mas, precisava ser tão interesseira?
Não fosse seu caráter vil e seu desejo de ascender ainda mais socialmente, galgando os degraus de um casamento vantajoso, poderiam ainda estar se encontrando as escondidas como costumavam fazer.
Ele avisara que não haviam sido talhados para o casamento. Ela, no entanto, tinha dessas imbecilidades.
Apesar de predicar aos quatro ventos sua total aversão a toda forma de romantismo.
Quem pode entender as mulheres?
Quem pode explicá-las?
É tarde demais agora.
É sempre muito tarde quando se decide repensar os erros do passado.
Teria que conviver com essa culpa mesmo não sendo seu remorso tão grande ao ponto de levá-lo a confessar que ele mesmo...
Não!
Nem mesmo a um indigno papel contaria que...
Não contaria mesmo a ninguém e pronto! Todas as vezes que falou com o alguém sobre seus medos, sobre suas culpas sentiu-se injuriado.
Incompreendido.
Não diria nada agora, nem mesmo ao...







II – O INOCENTE

A chuva caia mansa lá fora. A tempestade se abrandara e gotas suaves se sucediam na queda como um abraço de mãe.
Era exatamente assim que mimetizava um abraço de mãe.
Nunca teve um.
Assim como nunca tomou um banho de chuva.
Uma vidraça sempre o separava dela da mesma forma que uma espessa cortina de vida o distanciava de sua mãe.
Pensando bem, ele se tocou, nesse ponto da reflexão, de que a criminalidade estava presente em seu gene formador.
O gato não havia sido sua primeira vítima. Matara antes sua própria mãe. Nem que quisesse se regenerar não lhe seria permitido.
Trazia o inferno na alma e muita dor aos que o cercavam.
Como “Tristan”, seria a pedra na qual todos os que o amavam se estilhaçariam.
Com a diferença de que ele, pelo ao menos, não amava ninguém.
Não acreditava em nenhuma relação externa de amor. Julgava morta qualquer expressão de romance.
O tempo agora não era mais para manifestações de romantismos e sentimentalismos reais ou escritos.
A expressão total e inconfundível do nada vigorava agora.
De forma que não estaria disposto a se sacrificar por ninguém.
Nem mesmo para fazer história morando no imaginário das pessoas.
Jamais.
Mudaria o curso de sua vida para encostar seu caminho ao caminho de alguém?
Nunca.
Dividira o útero materno, é verdade!
Porém, não dividiria mais nada nessa vida!
As águas caiam torrencialmente lá fora.
Ninguém, nessa vil e podre existência lhe arrancaria a doce certeza de sua inocência...
Desde que conseguia se lembrar, os delitos que cometera foram induzidos por Outro.
Agira sempre em função do Outro.
Nunca de si ou por si.
Sua consciência não poderia se permitir um abalo, mínimo que fosse.
Sim.
Certamente, era inocente.
Era inocente?





















PARTE IV

O INFERNO SERIA A ÚNICA RECOMPENSA














CAPÍTULO I – OS FILHOS DA MÃE

Ele ansiava pela tempestade. Desde muito cedo se acostumou a correr na chuva. Tinha a ilusão de que aquelas gotas Divinas correndo por seu corpo tivessem a propriedade de expiá-lo de suas culpas mais sombrias.
Desejava que a impetuosidade do raio pudesse transportá-lo para os braços aconchegantes da mãe que não teve.
Por vezes culpava-a de tê-lo abandonado indefesamente aos leões.
Acreditava que a droga da sua vida teria sido diferente.
Se a tivesse consigo...
Hoje não correria na chuva porque quando o fazia, imaginava as lágrimas da mãe se derramando em seu favor. Rogando piedade para o filho perdido.
Hoje, sobretudo hoje, não ansiava por nenhuma forma de piedade.
Mais do que nunca, tinha certeza de que não a merecia.
Por sua última ação, o inferno seria a única recompensa esperada.
O inferno.
Somente o inferno.
Faria sua escalada a passos largos a partir de agora.
Costumava perder um tempo precioso tentando entender o medo que o irmão tinha da chuva.
Ele era de uma coragem admirável para encarar os reveses da vida fossem da natureza que fossem. Inclusive os mais escabrosos. No entanto, tremia de medo de raios e se abalava profundamente com receio dos trovões. Nunca ouviu de um dia em que o aquele tivesse andado na chuva.
Virou-se para contemplá-lo um instante e viu Um minúsculo indício de ter diante de si uma criatura humana.
Talvez o único indício em toda a sua miserável existência: presente, passada e futura.
Havia lágrimas em seus olhos ferinos.
O Outro comentou que não estava disposto a ceder e sacrificar sua juventude e liberdade em favor do velho. Por isso, não conseguiria vê-lo atrás das grades. Nesse momento ficou acertado que o velho não receberia a visita de nenhum dos dois.
Também estou mal por ele. Você sabe que o velho era tudo para mim, mas não tem outro jeito cara. A gente teve um trabalhão para cuidar de tudo. Não dá para jogar tanto investimento fora, não é? Você, mais que todo mundo sabe que não tínhamos escolha, era ele ou nós. Qual é mano? A gente é ou não é uma equipe? Sempre unidos! Lembra? Quando tudo tiver passado ainda teremos nossa parceria! Cara, você precisa superar essa fase, veja como deu tudo certo pra nós até aqui. Ninguém desconfiou ou acusou na data. Tudo certo! Relaxa aí, vai...
Eu sei cara. Mas, pô, é o nosso velho. Eu não esperava ter que chegar a esse nível de frieza.
Beleza ‘rato’, vai ter crise de consciência agora? No meio da tempestade? Passa amanhã cedo, caramba! Talvez até lá a irritação esteja maior e eu lembre algumas coisinhas que a gente fez, só para refrescar sua ‘consciência podre’. Você não vai querer rememorar tudo... Vai?.
Você é desumano ‘pô’! Se soubesse que daria nessa merda toda, não teria entrado no jogo!
É? Mas agora que entrou, não vem rezar tirando onda de freirinha não. Se liga ‘rato’! Tem mais volta não! Já entrou no fosso, agora é só manter a boca fechada para não engolir a merda! Ok?
Nesse instante um raio invade a sala e o acovardado, completamente pálido se retira para o quarto.
Nos três primeiros dias após a retenção do velho a convivência entre os dois ficou bem difícil. Um acusando o Outro de tê-lo envolvido em sua rede. Depois, cada um por sua vez deixou de dar importância ao fato. O velho foi esquecido de vez no passado e os gêmeos voltaram as suas práticas cada vez mais desumanas.
Não fazia mesmo sentido uma crise súbita de consciência em seres completamente inconscientes. Mergulharam então na criminalidade, sua vivência comum.
Sacrificar duas ou três almas em benefício de seu império era um ato quase que diário. A quem mandara ao inferno toda a base e estrutura familiar, o resto do mundo não tinha a menor importância.
Para eles não tinha realmente.
Usavam as pessoas como a ferramentas para descartá-las no final como a roupas velhas.
Quando surgia alguma recriminação, o ofendido saia-se com:
Lave essas mãos imundas para tocar minha pele, ‘santo’. Somos forjados do mesmo barro!
O fato é que eram mesmo constituídos da mesma lama podre.
A mesma água fétida circulava no corpo de ambos em forma de sangue. A mesma massa desprezível formava na caixa encefálica da dupla algo que seria injusto denominar cérebro.
Ambos reprováveis e vis. Nada tinham em si do ‘bom gene’ do pai que os gerou? Nada da bondosa e amável mãe que os carregou no ventre!
Não tivesse morrido no parto, Alcádia teria se matado de desgosto ao ter contato com as bestas que produziu.
Sua criação estava miseravelmente perdida.
























CAPÍTULO II – A MULHER

O golpe sofrido não poderia ter sido pior para Liu. Se soubesse a tragédia que o aguardava ali teria ficado em casa, trancado em seu quarto com a cabeça coberta. Se bem que precisaria de um álibi para provar que não se afastou da cidade a semana inteira. Recapitulando... Teria saído para almoçar e jantar com uns três amigos diferentes todos os dias.
Agora não tinha nada a fazer.
Não conseguia pensar em um Barrabás autêntico para a ocasião. Poderia ser até Um dos meninos...
Talvez!
Qual deles?
Quando estava sendo conduzido à detenção se lembrou do último discurso de Alcádia e lamentou: “Você só se enganou em uma coisa meu bem: unidos ou separados eles seriam maléficos. Eu sempre tive uma leve desconfiança. Mas, meu coração de pai queria se enganar. Ele não podia se negar o benefício da dúvida. Fiz de tudo por eles e olhe só aonde eu vim parar? Se você ao menos tivesse me contado o mal que viu naquele dia, eu teria tentado evitar.
No fundo, eu sempre me senti culpado por você tê-los rejeitado no leito de morte. Fiquei mal no primeiro momento e não quis olhar para eles. Porém, quando me dei conta do que estava fazendo, retrocedi trezentos e sessenta graus para compensá-los por tudo o que deixariam de ter em sua ausência.
 Enfim, tentando ser um bom pai não os repreendi quando foi necessário, não me impus em tempo oportuno, nem mostrei os limites que precisavam e, com isso, acabei nos desgraçando a todos.

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É típico dos sacerdotes, passar de largo.
O cidadão estava ali à beira do caminho.
Não. Não estava ferido. Pelo ao menos não visivelmente. No entanto, tinha os traços psicológicos de alguém machucado interiormente. Pisoteado pelos inimigos da alma (vícios e marcas de subjugo) aquela criatura gemia como quem está à beira de um poço depois de escalar quilômetros para chegar até ali.
Ele só queria que qualquer humano lhe estendesse a mão e o levita passou...
Passou. No entanto, estava ocupado demais. Era o dia reservado para providenciar o sustento de sua casa. Definitivamente, ele não tinha tempo para ouvir o que aquele moço tinha para dizer sobre auxílios e recuperações. Precisava voltar antes das onze porque a família o aguardava em volta da mesa com as orações já realizadas. Faltava mesmo só a refeição que cabia a ele levar ao lar.
E então, veio o sacerdote.
Ele caminhava altivo, com ares de indivíduo agitado por fortes preocupações: tinha a prestação de seu carro importado que, no momento lhe parecia alta demais;
A sede passava por uns probleminhas financeiros;
Tinha a pintura de sua rica habitação. Afinal, já ia fazer um ano que ele a reformara pela última vez e agora não conseguia chegar a uma decisão quanto à cor a ser usada nessa nova pintura;
E ainda tinha o afastamento de alguns de seus fieis. Não que esses fossem assim tão importantes e necessários para sua instituição. Porém, a contribuição financeira deles costumava ser polpuda.
Enfim, seu andar e aparência eram tão imponentes que o pobre cidadão da beira da estrada sequer teve coragem para se aproximar e direcionar seu pedido.
Infelizmente aquele pobre diabo se encontrava a uma considerável distância de Samaria ou mesmo de Jerusalém. De modo que nenhum samaritano chegaria a cruzar seu sofrido caminho naquele dia.
Para sua desgraça, Um dos gêmeos o encontrou ali “ferido”, “largado” e, traço atípico em sua personalidade, decidiu estender sua malévola mão errante.
Levou-o para sua própria estalagem, gastou o que foi preciso para deixá-lo são. E quando a dor já era finita, disse como quem não gostaria de dizer:
“Reza a lenda que quando a vida do guerreiro é salva por Um indivíduo, o infeliz fica obrigado a servi-lo até ter a oportunidade de lhe retribuir o favor. Como não acredito que eu vá precisar de tua intervenção para salvar-me a vida, tomo tua alma por despojo e ficas a meu encargo. Consideras uma ação justa”?
Quem seria louco de discordar para ir mais cedo abraçar o capeta?
O infeliz não foi.
Assim, passou a ser a “mãozinha”, a força necessária em todas as ações geminianas.
O Braço Direito com o qual os dois contariam na vida. Ou, para encurtar conversa: apenas o Braço!
A primeira ação que o incumbiram de articular tinha a ver com Silene.     
Ela era uma garota comum.
Bem educadinha até. Não pertencia a classe alta, mas era de uma fineza admirável. Logo que contou da gravidez provocou um desarranjo no mundinho de Liu.
Os meninos, que até ali estavam sempre unidos, começaram a se enfrentar constantemente. Por isso a menina não foi bem aceita pelo velho no início. Seu gesto cheirava a armação.
Quando ela foi expulsa de casa pelo pai super conservador que não aceitou o estado da filha, Liu a acolheu em seu lar.
Mesmo não acreditando em sua história, ele não poderia suportar a ideia de que a possível mãe de seu neto, ou neta, ficaria na rua sem ter para onde ir. Com o tempo ele viu que ela era uma boa moça: gentil, amável e prestativa.
O velho achou um paraíso todo aquele mimo feminino outra vez. Há tanto tempo ele e os filhos não dividiam o ar daquela casa com uma mulher. Tudo por ali tinha características que faziam saltar aos olhos a essência da dominação masculina. E de repente, um perfume doce e envolvente passou a se exalar em todos os imensos cômodos da mansão. A passagem de Silene por ali foi rápida, mas tão marcante que o velho pensou mesmo que não poderia mais viver ali com a ausência dela. Ela foi por um tempo a filha que ele gostaria de ter tido.
Um dos gêmeos decidiu assumir o filho e mudou com ela. Estavam sempre juntos e era um nojo ver os dois de beijinhos, abraços e tudo o mais. Por isso não mereceu a desconfiança do pai quando do assassinato. Porém os dias iam passando e como nem mesmo ele apareceu na cadeia, o velho passou a desconfiar dele também. Apesar de todas as lágrimas derramadas pela mulher e filho. Nesse momento aquele rio lhe parecia falso demais. O Outro ignorava completamente a mulherzinha do irmão.
O carcereiro bateu nas barras de ferro obrigando-o a fugir de seu devaneio. Forçado a abrir os olhos Liu ouviu que o cara trazia uma visita. Finalmente, depois de sessenta dias naquele inferno alguém se dignou a visitá-lo.
Ele atravessou o corredor mal iluminado rezando para que ao menos Um dos gêmeos estivesse atrás da espessa porta de ferro.
Apesar de tudo, queria muito rever seus garotos.
“Preciso olhar nos olhos deles para entender que espécie de mal os domina. Eles não podem ser assim tão cruéis se os criei com tanto mimo. Nunca fui religioso, porém tive o cuidado de educá-los segundo os preceitos Bíblicos. Observei sempre a ordenança de ensinar o caminho em que deveriam andar, mesmo não crendo muito no que fazia. Quase entendo bem o ditado: ‘palavras comovem, mas o exemplo arrasta’. Falei muito com eles. No entanto, nunca dei exemplos. Bons ou ruins. Nada. Fui omisso nessa parte. Acho que foi esse meu grande mal”.
Ele queria realmente olhar nos olhos dos filhos para abandonar a horrível desconfiança com a qual dormira e acordara nesses dois meses.
No entanto, Não era nenhum dos garotos.
Era o pobre diabo, acolhido por eles, que vinha manifestar seus pêsames pela condição do velho. Ele estava triste e meio transfigurado ao dizer que não acreditava que o velho pudesse ter assassinado a nora.
“Vocês se davam bem demais para isso. Eu via verdadeira adoração nos olhos daquela garota pelo senhor. E, me desculpe, mas nos olhos do senhor também morava a mesma adoração. Era como se ela fosse à filha.”
O velho ficou extremamente agradecido.
Ninguém demonstrara tamanha consideração por ele desde que caiu na armadilha. Quando o homem se foi ele ficou pensando que esse sujeito bem poderia ser um suspeito a mais para sua lista mental.
Afinal, se Um gêmeo estrangulou a nora, ele precisou do apoio de seu Braço Direito. E se o Outro foi o assassino ele pode ter pedido uma mãozinha ao irmão... Que invariavelmente, teria lhe oferecido o Braço.




CAPÍTULO III – ÓRFÃOS NA TERRA

Neste tempo de confinamento aprendi coisas essenciais que não tive tempo para observar a vida inteira. Aprendi a estar sentado estudando o nascer do som que começa calmamente no sopro de uma brisa mansa e vai se intensificando e crescendo, crescendo... Até tornar-se insuportável aos ouvidos de um condenado que deseja o silêncio eterno!
Agora ouço o ciciar das brancas nuvens que se tocam levemente no ar e o gorgorejar estridente do vento tempestuoso lá fora, nas noites de grossas chuvas.
Escuto até o roçar triste da lua a terra, contando uma história milenar da composição suprema dos seres, constituídos a imagem e semelhança do Altíssimo, seres complexos com um corpo! Um espírito. E, uma alma?
Sei lá...
Observei que até as folhas falam profundo quando caem lentamente do galho. Aprendi com elas que nada é eterno. Nada permanece milenarmente preso a sua base. Toda potência pode ruir em um momento não esperado.
Esse aprendizado me consola.
Um dia serei tronco e verei minhas folhas podres sendo derrubadas pelo vento tempestuoso de minhas ações vingativas.
Há uma cerejeira atrás do pátio onde costumo apanhar sol diariamente e quando o vento roça suas folhas ela me conta histórias belíssimas de superação, de restituição da liberdade, de vingança, de...
Até as plantas falam comigo minha filha, mas você se cala e arrasa meu mundo.
Toda a beleza constituída, toda a melodia que orquestra a vida não faz sentido em teu silêncio.
Você me fez viver realmente, durante o curto tempo que tive a honra de tê-la por perto senti como se Alcádia tivesse voltado pra me devolver a vida doce que me roubou há dezoito anos.
Mas é loucura.
Tudo é loucura.
São raros meus momentos de lucidez.
Mas, sempre que retorno ao juízo perfeito algo me lembra que tive duas grandes mulheres em minha vida e que na morte de vocês minha graça foi para sempre perdida.
Se pudesse ao menos provar que eu nunca faria nenhum mal a você, filhinha. Você, não aqueles desalmados, seres infernais, tinha que ter sido gerada por Alcádia, minha menina!
Acho que nenhuma espécie de dor poderá me tocar depois de tê-la encontrado ali, estrangulada daquela forma.
Metade de mim havia morrido com Alcádia, a outra foi enterrada com você Silene.
Se algum dia eu conseguisse provar minha inocência eu voltaria logo para cá porque ceifaria a vida que dei aos gêmeos.
Não teria remorsos!
Não desta vez.
A agonia do momento nem lhe permitia pensar que os pobres diabos eram carne da sua carne. O combustível que o movia agora era apenas o forte desejo de vingança.
Os garotos ignoravam que ele já tinha estado no inferno e se era muito bom sendo o mocinho, como vilão seria ainda melhor.
A visita do Braço deu a ele um ânimo novo para agir no intuito de vingar sua querida nora. Arquitetou então seu plano diabólico, pedindo a esse que o executasse.
De repente, começaram a se espalhar pequenas intrigas em nome de Um gêmeo e do Outro. Coisinhas que em situação normal passariam despercebidas, no entanto, no clima de guerra instaurado no seio da família serviram para abalar profundamente as sólidas estruturas da sociedade dos meninos.
Liu sabia que se a confiança ruísse um jogaria ao vento as negociatas desprezíveis do outro, desencadeando a tempestade que Um deles sempre temeu.
Quem sabe numa dessas o crime que o levou à prisão voltaria à tona, revelando o verdadeiro culpado?
Ele não teria a nora de volta, é claro! Porém, uma vez estando em liberdade, poderia refazer sua vida sem a influência maléfica dos filhos.
Foi aí que tudo começou a desandar para os meninos.
Os errinhos de ambos passaram a ser encarados como armas letais e instrumentos cortantes.
Um já não falava mais a mesma língua que o Outro e temendo a iminência de um grande desastre provocado pela revolta e arrogância do irmão, foi se afastando das armações e dos negócios daquele.
O Outro, sentindo-se traído, sugeriu o rompimento da parceria. No que foi prontamente atendido. Entretanto, coisas desagradáveis ao seu respeito foram aparecendo tão logo à sociedade se viu desfeita.
Histórias inverossímeis e absurdas foram publicadas nos jornais.
Sem que se pudesse saber de que forma, a narrativa da traição vazou.
O Outro foi acusado de suplantar o irmão no amor e nos negócios.





CAPÍTULO IV – O ESPOSO

Ele não entendeu no início como a notícia de seu envolvimento na morte de Silene virou o hit do momento. Todas as redes explorando o fato sob diferentes ângulos.
Ele mesmo não a teria vivido com tanta emoção.
É claro que a princípio negou veementemente. Mas, logo surgiram provas que ele não sabia de onde vinha. É claro que se soubesse teria mandado o Braço destruí-las há muito tempo.
Se bem que toda essa tragédia poderia ser armação dele para se vingar dos maus tratos sofridos.
Ele também seria deletado da história tão logo surgisse uma oportunidade.
 Quando aquele rato foi encontrado na sarjeta, imundo e drogado e decidi patrocinar o seu resgate, pensei que ele me seria fiel até a morte.
Se bem que...
Ele pode estar me traindo para acobertar aquele Um... Afinal, foi dele, em última instância, a mão a acolhê-lo.
Mas não...
Não pode ser...  
Aquele patife pensa que eu não soube de suas piedosas visitinhas ao velho?
O que ele teria de útil a fazer naquele antro?
Que droga de pacto o velho tem que as criaturas só permanecem incondicionalmente ao meu lado até conhecê-lo?
Com a vadia foi à mesma coisa. Ela sempre soube que era eu pô! A gente era igualzinho na aparência, mas minha personalidade era mais forte. Todas as nossas namoradas diziam isso...
Por que ela não se apaixonou por mim com a mesma intensidade com que se encantou com o velho quando o conheceu? Ou mesmo com o amor que ela fingiu sentir pelo “maridinho” quando ele decidiu assumir de vez o feto?
Tudo teria sido tão fácil.
E eu queria tanto o filho daquela idiota. Mesmo afirmando o contrário.
Ela tinha que saber que eu só estava fazendo um charminho antes de assumir.
Tinha que ter sido meu o moleque. Ela de fato, tinha que ter parado de andar com ele como prometeu.
Ele era fraco demais para tomar qualquer atitude drástica. Mesmo em benefício próprio.
Espera aí, eu não armei, a merda do assassinato como os jornais estão dizendo.
Eu jamais a mataria não fosse à influência daquele Um, me atormentando diariamente e exigindo a reparação por meu inocente atentado contra nossa parceria ‘violando seu leito’! Há. Há. Há!
Tinha um plano sim, é verdade, porém eu implorei pra que fosse executado só depois do parto.
Ele tava comigo pô, então ele também matou.
O que me faz perceber que ele não era tão fraco assim...
Por que é então, que só eu fui acusado?
Só eu fui incriminado pelas malditas provas?
Se ele pensa que vai sair por cima está muito enganado. Estivemos juntos em cada armação sórdida nos últimos anos.
Sobretudo, nos últimos três!
Estou na corda bamba, mas vou trazê-lo para dançar comigo.
Eu juro!
Vai ser um “puta” balé em trio, pois o Braço não vai ficar ileso!
Se é que somos realmente forjados do mesmo barro, então vamos chafurdar na mesma lama podre e deixar que o velho tenha seu quinhão de liberdade.
Vou abrir de uma vez a minha boca e contar tudo agora.





















CAPÍTULO V – OS PAIS

Como prometera a si mesmo o Outro falou tudo. Até porque sua negativa só deixava o terreno livre para aquele Um crescer livremente lançando ramos em todas as direções e botando raízes onde lhe dava na teia.
O Outro convocou uma coletiva de imprensa e começou respondendo a pergunta que todos queriam saber:
Não, eu não estava com meu pai no assassinato da garota. Ou melhor, ele não estava comigo. Nem ele, nem eu matou ela.
O velho é inocente.
Ele até gostava da bandida.
Ela foi mais filha dele em alguns meses do que nós dois em toda a vida.
É verdade que ele sempre esteve por perto e fez quase tudo por nós, porém não foi capaz de nos amar. Porque quem ama educa e corrige, ele nunca nos corrigiu.
Talvez nem tenha reparado em nossos atos ao longo da vida.
Acho que no fundo ele não nos perdoou de fato por termos matado a mamãe.
Mas isto é uma coletiva para esclarecimentos não uma sessão terapêutica.
Pois bem, falemos então do que realmente interessa a vocês.
Eu tive ajuda sim para arquitetar o assassinato de Silene e essa ajuda veio de meu irmão. Planejamos matá-la logo depois do nascimento do bebê, no entanto, alguém se antecipou a nós.
Precisamos viajar juntos naquele fim de semana. Estávamos juntos quando vimos a notícia do assassinato.
Embora tenhamos planejado matá-la, não chegamos a executar o plano, como eu disse.
Não.
Ao contrário do que vocês podem imaginar, o velho não estava em nossos planos.
É claro que não!
Ele entrou de gaiato nessa.
O alvo previsto era outro, mas já que ele tinha sido pego pra Cristo nós não íamos tirá-lo da cruz não é?
Ele mesmo sempre dizia que quem tem o rabo de palha não deve se aproximar do fogo...
Porque corre o risco de sair queimado, ora bolas!
Ou nem sair, como é o meu caso.
Há, há, há.
Vocês querem saber a respeito das outras acusações?
O que posso dizer sobre isso?
Talvez eu seja inocente em boa parte delas. Culpado de outras tantas.
Sei lá.
Não basta uma confissão minha para desgraçar, inteira, a vida de nós dois?










CAPÍTULO VI

Não bastava.
E ele acabou percebendo que não era bem assim.
Um alegou que o Outro o acusou por medo de pagar sozinho por seus crimes.
Com relação às provas comprometedoras e às fotografias suas apresentadas na coletiva, disse:
Somos gêmeos idênticos. Pode muito bem ser ele retratado nessas fotos na tentativa de produzir provas contra mim não pode?
Eu concordo.
Claro!
Foram estarrecedoras as revelações feitas por ele.
Fiquei chocado!
Ele estava ali o tempo todo, sabe? Foi capaz de chorar no velório e no enterro de minha esposa. Lamentou comigo o desaparecimento da criança.
Dói até hoje não ter estado com ela naquele momento para protegê-la. Imaginar a dor que ela sentiu naquele parto forçado...
E depois nosso pai foi condenado e ele sabia o tempo todo que o velho era inocente.
O velho era inocente.
Ele me fez acreditar na culpabilidade do nosso velho!
Nosso próprio pai, merda!
O homem que praticamente deixou de viver para dedicar-se inteiramente a nós.
Eu jamais imaginei que ele tivesse tanta mágoa e que pudesse ser assim tão frio.
O amor que ele sentiu por minha esposa só podia ser uma doença... Uma espécie de patologia degenerativa...
E essa tentativa de me envolver em suas armações sórdidas?
Foi um golpe extremamente baixo.
Éramos sim muito unidos, mas eu nunca soube nada dos negócios nos quais ele se envolvia.
Não é verdade que eu possa ter entrado nessa de assassinar minha esposa por ciúmes, vingança ou despeito, seja lá o que ele tenha inventado. Eu nunca a culpei por ter andado com ele. Minha amada foi tão vítima quanto eu.
Eu nunca soube que ele tenha saído com qualquer namorada minha além dela, como foi colocado na coletiva.
Não!
Claro que não colocaria minha mão no fogo por nenhuma delas, é só que eu me garanto como homem.
Não, não.
O que posso fazer é disponibilizar uma lista com os nomes delas para que vocês falem pessoalmente com elas a fim de saber se foram ou não infiéis quando namoravam comigo como ele afirmou.
Não parece óbvio demais que alguém tenha documentado todos os meus possíveis passos na execução de tarefas tão arriscadas?
Se fosse realmente o assassino frio e calculista que lhes foi apresentado, eu teria tido o cuidado de preservar minha identidade, vocês não acham?
É tão evidente que ele deixou tudo muito bem planejado para tentar me incriminar em alguma eventualidade.
E esse truque de plantar provas...
É tão antigo meu Deus!
Entendo perfeitamente a decisão da justiça de me manter sob custódia.
 Isso é importante até para minha própria segurança. Imagine só. Eu não sei com que tipo de serviços ele conta aqui fora.
Pode ser que tenha colocado alguém a minha espreita, sei lá.
Acredito que estarei em segurança enquanto tiver alguém do poder executivo de olho em mim.
Ele não tentaria nada nessas circunstâncias.
Se estou com saudades do velho?
Morrendo!
Vou hoje mesmo apanhá-lo no presídio.
Quero levá-lo pra casa para recuperarmos o tempo perdido de pai e filho.
Sim.
Realmente não o visitei nos últimos três anos.
É que eu estava sob forte ameaça, sabe?
Meu irmão me convenceu de que corríamos um grave risco indo vê-lo.
Não sei bem.
Não faz sentido agora que ele confessou ser o verdadeiro assassino.
 Mas ele dizia que o lugar podia ser barra pesada e que o velho talvez estivesse envolvido com pessoas muito perigosas.
Que era melhor a gente não se envolver nessa sujeirada toda.
E até que o velho poderia mesmo ter assassinado minha mulher. E, nesse caso, eu alimentava uma certa mágoa em relação ao velho. Apesar de nunca ter acreditado muito nessa possibilidade.
Acho que estou passando recibo de idiota. E é exatamente assim que me sinto agora. Um idiota que não percebeu o tipo de pessoa que tinha a seu lado e que costumava chamar de irmão.
Me desculpem todos vocês, mas não consigo dizer mais nada agora...
Estou arrasado!
Foi duro demais este último golpe.
Eu confiava nele...
Era como se fôssemos uma extensão Um do Outro e ele destruiu minha confiança...
Disse em prantos as últimas palavras e todos ficaram comovidos com o derramamento de lágrimas. Ninguém se lembrou que Um e o Outro derramaram lágrimas parecidas no enterro de sua ‘querida esposa’.




















PARTE V

EU NÃO ERA O CULPADO



















VII – O PRISIONEIRO

Só Liu sacou a farsa e comentou:
Tão iguaizinhos.
Mesma cara de pau.
Mesmo nível de falsidade.
Duas sementes malditas!
Como chegamos a isso Alcádia?
Que erro nós cometemos para pagar um preço assim tão alto?
Ele pensa que vai convencer a todo mundo com esse teatrinho de irmão traído e enganado! Mas pra cima de mim não! Demorei a abrir os olhos, mas hoje sei exatamente com que tipo de fera estou lidando.
Sei perfeitamente que todas as maçãs neste cesto estão podres e que o Braço só está me ajudando porque não recebia mais contribuições financeiras de nenhum dos garotos.
Vou fingir que entrei no jogo para saber até onde vai à falta de humanismo de minha prole...
Depois, enquanto finjo vou recolhendo provas mais contundentes para pegar os dois definitivamente.
Afinal, se levei três anos para fazer o Outro cair! Posso perfeitamente esperar mais três anos para desbancar aquele Um.
Se tivesse que gastar todo o resto de minha vida nesta empreitada eu gastaria. Já que trouxe seres tão cruéis ao mundo, cabe a mim o dever de livrar o mundo desses seres!
Devo isso a minha amada!
Como ele pode negar a traição de cara limpa se ele mesmo me falou de seus temores...
Liu estava revoltado. Faria de tudo para vingar-se da armação em que caiu. Sua mágoa era tão grande que virou o rosto ao cruzar com o Outro no corredor da prisão quando voltavam do banho de sol semanal.
Já se falava em sua ordem de soltura agora que havia um réu confesso do assassinato, mas havia uma tramitação legal de papéis que não o deixaria sair antes do fim do dia.
Mesmo virando a cara percebeu uma mudança considerável no semblante do filho!
Arrependimento?
Não.
Remorso talvez, denunciado na cara de sofrimento por ter sido apanhado em falta!
De fato, havia algo de muito sério passando na cabeça do rapaz naquele momento...
Ele desconfiava que não seria bem sucedido em sua investida contra o irmão e tentava arquitetar um plano mais contundente para envolvê-lo na rede de corrupções.













VI – O SUPLANTADOR

Agora não me resta mais nada. O Outro pensava.
Tanto tempo e investimento jogados fora.
Apliquei todas as minhas forças na busca pelo crime perfeito e vejam só no que deu... Maldito o homem que deposita no homem sua confiança.
Essa máxima é perfeitamente verdadeira quando aplicada a homens. E eu, dominado pela idiotia, fui confiar todos os meus segredos inconfessáveis a dois ratos.
Sabendo que pisava em terreno escorregadio, não me preveni o suficiente e aqui estou. Curtindo o calor desagradável das barras...
Aquele Um conseguiu, não só, se livrar das acusações, mas também, jogar uma pedra de mármore em minha fria e pesada existência no cárcere.
Porém, ainda não fui aniquilado.
Vou dar um jeito de arrastá-lo até minha cova!
É só uma questão de planejamento.
Tudo feito com tanto esmero e com a complacência daquela serpente que jurou inocência...
Nada teria sido descoberto se ele não tivesse metido o dedo podre em minha defesa...
Agora até o assassinato que ele arquitetou pesa em meus ombros e toda aquela multidão fica lá fora gritando por justiça...
Se condoendo pelos anos que o pai esteve aqui injustamente...
Não me arrependo por tê-lo deixado pagar...
Ele bem que mereceu por nunca ter me amado como deveria...
Só me entristece saber que aquele Um agora desfruta sozinho do império e do prestígio que conquistamos juntos...
Dizer que Silene traía de caso pensado não era o bastante. Ele precisava de uma prova escrita, ou mesmo o testemunho de uma amiga em comum para a qual a mulher houvesse confessado seu envolvimento com os irmãos.
Então se lembrou de Simone, a confidente da vadia!
Se conseguisse fazê-la falar...
Mas de dentro da prisão não conseguiria fazer contato!
A menos que sua advogada conseguisse...
Ele tinha ao menos que tentar!
Em sua primeira visita, Simone estava bem apreensiva.
A imagem dele estava queimada demais para inspirar alguma confiança. Porém, depois de um pouco de mel e algumas promessas de grana alta, a garota acabou concordando em conceder algumas declarações... e a sacana tinha cartas assinadas por Silene!
Aquele Um estava com a liberdade por um fio...












V – O INOCENTE

Os pensamentos na cabeça do velho eram bem de outra ordem...
Mal podia esperar para contemplar novamente o brilho do sol.
Tanto tempo atrás das grades já estava mexendo com minhas estruturas.
Por vezes sentia que a razão estava me abandonando. Nunca pensei tanto em Alcádia quanto nesses últimos meses.
A degeneração total dos nossos rebentos me fez lamentar até os bons momentos em que nos amamos.
Se ao menos tivesse sonhado que uma relação tão doce e pura fosse produzir esses frutos podres eu jamais teria tocado nela.
Há momentos em que a culpo pela situação (i) moral dos rapazes, mas então recobro a consciência...
Ela não estava mais aqui quando eles acordaram para a vida. Se há um culpado, esse sou eu.
Única e exclusivamente eu!
A Nancy fez o que pode. Enquanto pode, não é? Quase se aniquilou completamente para dar uma existência a eles.
Hoje vejo o mal que fizeram também a ela.
Só criei monstros, meu Deus!
Como corrigir esse erro?
Até que ponto eu sou culpado por isso?
Devo ir agora... O carcereiro finalmente chegou com minha ordem de soltura.
Agora vou poder acompanhar de perto “a queda de Um anjo”.
Há, há, há!
Ele se acha muito esperto em ter deixado o Outro cair sozinho. Coitado!
Não sabe da minha vida a metade! Se soubesse que consegui passar ileso pelos vinte anos de ditadura, jogando nos dois times sem me comprometer verdadeiramente com nenhum deles...
Quem poderia imaginar que o companheiro Liu, tão apaixonado pela incrível Alcádia, líder do movimento de resistência à repressão, era o mesmo Cel. Sckiamo, ferrenho perseguidor dos militantes e o militar super conceituado que liderou a investida aos mais importantes aparelhos dos companheiros?
Alcádia, você definitivamente não teve responsabilidade na degeneração dos gêmeos!
O gene do mal, o barro podre estava em meu fio de costela. Você era um anjo minha amada!
O tempo que estive em reclusão me fez perceber o quanto fui injusto com você e com a causa da nossa vida.
Mas eu tinha que fazer algo pelo país entende?
Eu precisava escrever um capítulo interessante em nossa história. Era um sonho estar entre os vencedores.
Você há de entender, minha querida, que naquele momento os ditadores é que estavam vencendo.
Eles tinham as melhores propostas de governo. Estavam conduzindo o país a um avanço econômico nunca antes contemplado e, se de fato perseguiram alguém, o fizeram em nome da moral, da ordem e dos bons costumes! Convenhamos que nenhuma pessoa de boa índole foi retirada do seio de sua família. Os perseguidos eram, em sua maioria, arruaceiros e anarquistas! Não eram?
Alcádia, querida, apesar de lhe ter declarado amor eterno, história é história não é, meu anjo? E, cá pra nós, sempre fui apaixonado por ela.
É isso aí!
Vocês devem estar revoltados porque eu, assim como meus rebentos, traí pessoas e ideais que amava mais que tudo nessa vida. Como eles, fui o principal responsável pela morte da única mulher que amei de fato!
Sinceramente, eu poderia ter feito mais pela mãe dos meus filhos...
Se não a tivesse induzido a se envolver no movimento anti-repressão, talvez ela pudesse ter se tratado em uma das ótimas clínicas da capital. Mas não era viável, naquele momento.
Não há um só dia em que eu “tantas vezes reles”, não me arrependa pelo mal que causei a Alcádia.
Depois, não me perdôo pela falta de coragem em me denunciar para ela.
E ela ali o tempo todo, como uma ovelhinha... Pensando que o marido estava sacrificando sua liberdade por ela enquanto eu agia apenas em interesse próprio.
Que desperdício de vida!
Quando me retirei para aquele sítio estava comemorando a condecoração pela maior ação de minha vida militar! E usei a desculpa de que ela precisava proteger os bebês...
Quanta vilania!
Naquela semana todos os protegidos de Alcádia caíram. Acho que até hoje os sobreviventes não sabem como chegamos até eles se só a líder sabia a localização do aparelho.
Eles mesmos foram conduzidos às cegas.
É... Foi com aquela delação que garanti minha polpuda aposentadoria. Daí, com a morte de minha doce esposa, foi só assumir de vez a identidade de Liu — o viúvo boa praça — e seguir em frente.
De todo o mal que fiz, a coisa que mais me dói é o sofrimento que infringimos ao Dr. Estêncio matando seu querido filho...
O pobre nem imaginava que o garoto também estava envolvido no esquema.
Foi um choque terrível! Mas tivemos que sacrificá-lo! Ele sabia demais.
Sabia de mim!
O “nosso Johny” não era um cara tão legal assim...
Tudo bem, ele jurou que não ia dar o serviço, só que eu não poderia correr tamanho risco. O apoio do Dr. era vital para mim. Eu tinha que continuar contando com ele. Não que eu precisasse demais da herança dele, mas como explicaria meu súbito enriquecimento?
Ele nem era tão rico, no entanto, a administração da clínica me permitiu lavar boa parte do bônus que o estado pagou ao Cel. Sckiamo. Afinal, o pobre homem solitário elegeu a minha clínica como sua única beneficitária.
É.
Eu admito. Meus filhos saíram a mim.
Apesar de eu ter tentado fazer deles homens de bem. Falhei em minha missão, mas comprovei que a casca realmente não cai muito longe da árvore.
Dizem, acertadamente, que quem sai aos seus não degenera não é? No fundo eu tinha esperanças de que o sangue da mãe falasse mais alto. Já que ela sempre havia sido tão forte.
Bem, sempre é mais fácil uma maçã podre estragar todas as frutas do cesto do que acontecer de uma fruta boa melhorar as estragadas não é?
Chega de clichês por hoje.
Depois de tantas noites dormindo no mármore frio da prisão, só quero mesmo é colocar minha cabeça no travesseiro macio e descansar em paz!


V – O SUPLANTADOR

Acordei muito mal hoje.
De repente comecei a ter uns ataques de santidade.
Memórias da infância me assaltam e me perturbam. Penso que não deveria ter sido tão mal. Porque a fúria se sempre tive tudo o que precisava?  A falta de uma mãe não deveria ser motivo para degeneração.
Poderia não ter mergulhado tão profundamente na criminalidade.
Se tivesse aceitado os conselhos de meu pai minha vida seria bem melhor agora...
Perdi muito.
Eu sei.
Mas o Outro perdeu bem mais. Afinal, ainda estou livre e bem. Onde ele está agora, você sabe?
Já foi.
Para minha felicidade essas crises de consciência são passageiras. Como também eram passageiras as tempestades que eu costumava temer. Acho que me libertei também desse trauma...
Hoje já consigo caminhar livremente na chuva. Sou amigo da tempestade...
Estou feliz novamente. Tenho tudo o que quero. O mundo agora é meu.
Só preciso me ajoelhar aos pés do velho, fingir uma emoção não sentida. Um arrependimento que não tenho de fato por não tê-lo visitado na cadeia e, fica tudo certo!
O delegado me autorizou a buscá-lo às seis horas, então tenho quinze minutos para encontrá-lo lá e fazer meu número do pródigo...
Não é que deu certo?
O velho caiu direitinho no teatro. Nem foi preciso derramar minhas preciosas e escassas lágrimas em vão.
Como as coisas mudam rápido. Há menos de meio século ele se gabava de sua força. De seu não comprometimento romântico com o amor. Exceto por mamãe, é claro!
Dona Alcádia sempre foi um caso a parte. A mácula romântica em sua constituição modernosa.
A vanglória dele se baseava na qualidade de perseguir o novo. Estabelecer e disseminar ideais sagrados de descontinuidade e reparação de erros do passado.
Ele que como um D. Quixote, batalhava as causas inglórias em busca do resgate de valores essenciais deixados de fora pelos historiadores de épocas remotas: “meu objetivo precípuo é promover o novo de novo”, dizia ele.
Ele que lutou tanto pelo novo repete o velho deixando-se vencer pelos ideais românticos do bom filho corrompido que se arrepende no final e agora planta ‘rosas’ em sinal de regeneração...
Pura fraude. Devo lembrar.
Tenho quase certeza de que ele sempre agiu exatamente como aqueles que costumava criticar...
Talvez tenha deixado de fora valores muito mais importantes...
Pode ser que esse meu discurso já tenha sido proferido por alguém em outros tempos. O sábio tinha razão plena. Não há nada novo debaixo do sol.
Todas as técnicas já foram experimentadas e, falharam de alguma forma.
Todos os erros de hoje foram cometidos por alguém no passado.
E essa minha tentativa de inovar maquiando minha verdadeira história, floreando-a com nuances de discursos arrependidos (falsamente) já foi testada por alguém em algum lugar ou época anterior.
Não posso provar que tenha havido alguém tão vil como eu, entretanto, tenho quase certeza que minha atitude renovadora não é extremamente original.
Sou a cópia rasurada de diversas gerações de copistas.
A soma de todos os erros e de todos os acertos da Antiguidade até este século.
Estamos eternamente condenados a voltar ao passado e repetir as mesmas ações, os mesmos equívocos.
Enfim.
Lancei-me ao pescoço do velho alegando que meu coração é “frágil” e não teria suportado vê-lo no confinamento.
Ele só precisava ouvir isso como pedido válido de desculpas. E eu, bem. Eu não poderia dizer nada, além disso. A cara de pau e total falta de sentimentalismo de minha geração não chegaria ao ponto de me permitir confessar maiores mentiras. Paro por aqui.














IV – O INOCENTE

Tão sublime o momento do reencontro. O filho arrependido abraçando o pai por anos renegado...
E nós ali. Como habitantes inoportunos da idílica cena familiar.
Muitos abraços. Muita felicidade. Tudo festa no mundo sombrio...

Cara.
Não acredito que aquele Um, cobra como é. Caiu em minha encenação. Talvez não seja tão fácil duvidar da lealdade de um pai... Ele só pode ter sido pego pelos laços de família...
Mas só Deus sabe quanto me custou aquele abraço!
Saber que passei todos aqueles anos na detenção por um crime que ele cometeu. Eles, no caso.
Tudo bem agora. Tive meu dia de caça e comi o pão que o diabo sentou em cima na cadeia, mas hoje sou caçador. E, sinceramente, nem o diabo ia querer comer o pão que estou amassando para aquele Um!
Vou acabar com a vida dele como ele acabou com a vida da minha garotinha. As mulheres da minha vida já eram. Mas eles nem imaginam o que os aguarda ainda...
No fundo, não me comovi com o que tiveram coragem de fazer com a mãe, mas o bebê foi sacanagem. Nem no auge de minha insensibilidade cogitei maltratar uma criança ainda no ventre.
O que estou dizendo? Se eu mesmo consenti no aprisionamento de Alcádia sabendo do estado interessante em que ela se encontrava...
No entanto não sou assim tão mau. Eu quis o bem deles no final. Apesar de não ter sido tão convincente. Talvez eu só tenha sido humano demais quando eles precisavam de uma intervenção divina!
Hoje eu só quero que eles se desintegrem. Que se desmaterializem na cadeia!
E todo aquele discurso de que se sente mal com o carma de ser o inocente filho de um ex-detento e irmão de um bandido? A quem ele pensa que engana?
O pior é eu ter de consolá-lo como se o inseto da história fosse eu...
Como se todo o peso de ter sido traído, ferido e pisado não estivesse sobre os meus pobres ombros.
Como se já não fosse duro o suficiente todo o drama que vivi!















III – O SUPLANTADOR

Acho que ainda não falei disso com você, pai.
Mas, vez em quando uma dor me invade. Sinto-me mal quando saio nas ruas e vejo as pessoas me apontando, sabe?
Os olhares que me lançam são assustadores.
Primeiro foi por sua causa. Todo aquele drama que nos envolvemos.
Daí, quando o seu problema está se resolvendo, vem o Outro inventando armações e tentando me enfiar em seu pacote de estupidez.
Sempre fui meio incompreendido, no entanto as críticas agora estão intensas demais. Não tá dando pra aguentar. Tem dias que penso em abandonar tudo, ir viver em outro lugar...
(dá vontade de mandá-lo de vez para um lugar digno dele, porém, meu momento paizão não me permite...)
Não é bem por aí meu filho. Fugir, mudar não vai resolver nada (Se você se retira agora como fica minha vingança?). Você já é figurinha marcada, cara, onde for os problemas irão junto.
Eu já pensei nisso também. É que dói muito, entende? Apesar de não parecer, eu sou extremamente sensível. A rejeição com que sou olhado fere minha alma.
(como se esse patifezinho tivesse uma alma...).
Tô cansado de ser criticado. Principalmente porque, apesar do Outro, tenho meu próprio valor... Eu fiz coisas incríveis e ninguém se lembra. Só do mal que ele atribuiu a mim.
(Que ele atribuiu não, que você praticou mala!).
Não se preocupe com isso não meu filho. Por melhor que você consiga ser, não vai agradar de fato a ninguém mesmo. E depois, pessoas são iguais em qualquer lugar do mundo:
Os poderosos só querem descobrir a fonte do domínio massivo sempiterno;
Os fracos vivem em busca de um forte para reinar sobre eles dominando, subjugando. Na verdade, procuram alguém para recolher e administrar o pouco que ganham porque são incapazes de lidar com o quase nada que têm. Trabalham até a exaustão, sobrevivem da força do próprio punho, mas querem alguém com folga e ociosidade suficientes para roubarem-lhe quase tudo, presenteando-os com o pão parco, frugal e o circo, aquele espaço de diversões baratas e vazias, única cultura capaz de ser absorvida por suas mentes abarrotadas do nada;
Os intelectuais desprezam qualquer ideia que não tenha partido deles. Qualquer coisa que tenha vindo do outro é pequena demais, inconcebível demais, sórdida demais. Só lhes serve aquilo que inventam, transformam ou recriam a partir das ideias que outros tiveram e que eles anteriormente rejeitaram;
Os medíocres não entendem nada que está acima daquilo a que estão acostumados e por isso, retrocedem diante do novo, enquanto ainda é novidade. Aceitam apenas as coisas com conceitos já solidificados. Depois que vira moda é que se alcança o ideário dos medíocres;
E os simples, bem, esses não se preocupam com nada além da vida dos outros, se você virou notícia, então será o prato cheio para as discussões deles. Não importa o que tenha feito de certo ou de errado, eles querem mesmo é opinar sobre o que todos falam, e mesmo que não saibam nada de concreto, são todos doutores no assunto... Enfim, cuide de si. E o resto, que se dane garoto!







II – O PRISIONEIRO

Agora estou quase a ponto de trazê-lo para sambar aqui comigo.
Tem sido difíceis os dias aqui dentro, no entanto, Simone está a ponto de cumprir nosso combinado.
Depois da visitinha íntima da semana passada, ela jurou que no próximo encontro traria as cartas para anexar ao processo.
Aquele Um não perde por esperar...
Enquanto apodreço aqui dentro com toda a minha sabedoria, ele, o eterno covarde da história posa de bom filho e irmão traído diante do pai e da sociedade.
Quem ele acha que engana com todo aquele discurso de negociante democrata e bom moço?
A hora dele vem aí!
Se existe realmente uma justiça nesse país, eu não vou mofar aqui sozinho!
Não mesmo!
Espero que nada aconteça a ela nesse período porque aí estará tudo perdido...













PARTE VI

SERPENTES CRIADAS


















CAPÍTULO I – A MULHER

Tentei, de todas as formas, me convencer de que havia algo digno de salvação naquela família execrável, porém foi inútil minha busca.
Nenhum deles era capaz de admitir a culpa pelo terrível crime. Estavam todos tão bem escudados em álibis intransponíveis que todos os caminhos levavam-me para longe de todos eles.
Apesar de minha forte intuição Poirotiana levar-me sempre de volta a maldita mansão, nem mesmo a possível ligação dos fatos recentes com a tragédia na qual estiveram envolvidos em tempos remotos constituía um meio eficaz de condenação.
A porra de minhas investigações sempre esbarrava na muralha burocrática que o dinheiro deles chegava com sobra para erigir.
Vi-me em sérios apuros quando o Braço deles chegou até mim em um beco escuro.
Não literalmente, é claro.
Acontece que eu enfrentava uma avalanche de dificuldades financeiras quando, sem mais nem menos, aquele brutamontes desengonçado apareceu.
“O homem bateu em minha porta e eu abri”.
Pensei, a princípio, que ele queria um donativo ou algo do gênero, mas não. Vinha a mando do velho Liu. Furioso com minhas investidas contra as bases sólidas de sua família.
Qual é? Não é segredo para ninguém que ele mesmo moveu os pauzinhos para cercear a liberdade do Outro!
Teria talvez conseguido algo maior, CASO houvesse leis sérias tramitando no congresso.
Qual o quê?!
Chutou na trave mesmo tendo na intenção o conseguir um gol memorável. Todos os seus planos e armações surtiram efeito até irem de encontro à inteligência astuta com caráter de elemento advindo do submundo de Um.
Tinha que reconhecer que aquele serzinho era imensamente parecido com ele.
Respirava as mesmas ameaças que ele.
Lutava com as mesmas armas.
Sonhava os mesmos pesadelos.
Enfim: ‘mais do mesmo’ barro.
O Outro era um grande projeto, mas permitiu que o sentimentalismo bobo o corrompesse.
Os quinze anos de religiosidade carola na cadeia renderam-lhe uma beatice irreconhecível aos seus.
Seus trinta anos de reclusão foram reduzidos na metade em consequência do bom comportamento que apresentou lá dentro.
Viviam agora sob o mesmo teto suportando-se.
Há quem do lixo impera, enquanto a outros seres é dado mendigar, mesmo que no trono.
Esses seres vergonhosamente mantêm-se senhores da situação.
Sou do primeiro tipo.
Foi-me negado o direito a realeza, mas do cerne de toda a nojeira desse sistema executivo claudicante, a exemplo de todos os outros sistemas, tento exercitar meu talento nato para o império.
Foi dessa filosofia que tirei a resistência necessária para mandar o Braço e todo aquele corpo de bandidos que o controla para a sétima camada do inferno.
Como pode um ser humano tão baixo, tão vil, tão quase nada querer corromper assim uma cidadã tão virtuosa como eu?
Isso é algo não concebível.
Não aceitável.
Tivesse poder sobre a lei que executo aquele vermezinho não teria saído daqui livre e impunemente como saiu.
Meu lado sensível (o bolso) sangrou vendo-me voltar as costas para o sonho de uma polpuda conta em um paraíso fiscal qualquer.
Entretanto, meu senso de justiça não se podia conter de felicidade por minha nobreza de caráter.
O enquadramento por tentativa de suborno figuraria para mim como um princípio de vingança.
Antes de emitir meu último suspiro eu teria ainda o prazer de vê-los aniquilados e fora de circulação, custasse o que custasse!
Quem sou?
Já nem sei.
Aquela corja roubou minha identidade, meu prazer de viver, meus projetos de um futuro brilhante e feliz.
Antes de eles cruzarem meu caminho eu era só uma agente super dedicada ao trabalho que sonhava fazer um nome notável dentro da corporação, se casar, ter uma dúzia de garotinhos rechonchudos e remelentos como é comum à corja subordinada ao funcionalismo público e me aposentar aos cinquenta anos.
Hoje, nada quero além de resolver toda essa situação enervante.
O trabalho na polícia me enfurece.
É frustrante perder um tempo precioso investigando esses vermes, seguindo a droga de cada pista deixada por eles para ver no tribunal um vendido qualquer apresentar uma falha praticamente inexistente no processo milimetricamente analisado e conseguir, através dessa falhazinha insignificante, a paralisação do processo e a liberdade dos cães perversos. 
Fazer o quê? A vida agora é isso.
Prometi para mim mesma que saindo num dia a condenação dos três, apresento, para o dia seguinte, minha demissão.
Não sei se terei fôlego para tanto, mas vou fazer o possível.

















CAPÍTULO II – OS FILHOS DA MÃE

Toda a comunidade de Guaratinga está em polvorosa. Finalmente chegou o dia tão esperado. A espera de meses por uma solução para o escândalo da corrupção na clínica Estêncio começaria hoje.
Jornais noticiavam com ímpeto o fato de os senadores filhos do velho Liu, Um e Outro, estavam envolvidos no esquema de desvio de verbas públicas para a clínica particular da família.
Nada que merecesse tamanho alvoroço da mídia...
Não me meti sozinho no esquema.
Todas as empreiteiras para as quais paguei propina passaram pelo sistema de rastreamento daquele Um.
Maldito!
Quando fomos eleitos ao cargo público falávamos a mesma língua novamente.
Que evento grandioso o dia de nossa posse, toda aquela multidão comemorando a vitória...
Naquele momento ninguém se lembrava mais que éramos os filhos do Liu.
Ninguém comentava que “o pai deles é aquele médico condenado por assassinar a própria nora...
Não se lembravam nem mesmo que amarguei longos quinze anos na prisão, em virtude de um assassinato, como ficou provado pelas declarações de Simone, eu não cometi. E que o desespero e uma forte crise psicológica provocada pela tensão vivida me fizeram confessar...
Foram lindos anos de conquistas grandiosas e então, aquela mula se deixa pegar num pente fino da polícia federal e me entrega como chefe do esquema.
Alguns superfaturamentos em obras públicas...
Uns poucos desvios de verbas da saúde e da educação...

Os repórteres em todo momento se reportavam à situação julgada vinte anos atrás, quando o Outro,

Garoto de vinte e um anos, foi condenado pelo assassinato brutal da esposa de seu irmão. A garota, Silene Meira, grávida de sete meses, foi encontrada estrangulada na chácara da família do esposo no dia vinte e nove de setembro de mil novecentos e oitenta e sete. O Dr. Liu Vincent, pai dos garotos foi encontrado junto à garota, uma falha no julgamento fez com que o médico fosse condenado a oitenta e cinco anos de reclusão em regime fechado. Porém, a reabertura do processo, três anos depois, trouxe novas luzes ao caso, apontando para o filho mais velho do Dr. Como o verdadeiro assassino. O jovem, que na ocasião sofria uma forte crise psicótica provocada pela tensão e não só confessou o homicídio, como tentou dividir com o irmão a culpa pelo sinistro. O garoto acabou sendo condenado a trinta anos de detenção e liberado após o cumprimento de metade da pena. O motivo alegado para a libertação foi o de que o rapaz manteve um comportamento memorável nos quinze anos em que esteve no sistema prisional. O irmão conseguiu livrar-se das acusações sofridas provando seu afastamento da cena do crime, encontrava-se em uma viagem de negócios na capital mineira e só soube do crime pelo noticiário local, estando o pai já aprisionado. O bebê que Silene esperava nunca foi encontrado. 

Essa reportagem aparecia agora em todos os noticiários, vinculada ao possível envolvimento da família no esquema de corrupção e super faturamento de equipamentos oferecidos a clínica que o Dr. Liu havia herdado do Dr. Estêncio, seu médico particular, amigo e mentor, em 1969, quando da morte do único herdeiro legítimo do médico provocada “pela queda e explosão do veículo que conduzia no largo de Santos” o jovem estava sob investigação do governo militar.
Depois da morte do filho, o médico não via razão em manter seu patrimônio e sua residência no país. Então, passou a posse de seus bens nacionais para seu grande amigo Liu, desempregado, viúvo e com dois filhos para sustentar.
Até hoje me surpreende tamanha benevolência em um cidadão que se esforçou duramente ao longo da vida para conquistar seus bens, suas posses e abrir mão de tudo assim, de repente, em benefício de outro cidadão que nem ao menos partilhava de seu sangue.
Não, e o mais incrível ainda é que o primeiro cidadão mudou-se para uma cidadezinha qualquer no interior do interior da Europa e nunca mais foi visto por ninguém. Eu faria qualquer coisa para descobrir onde se enfiou, ou melhor, onde enfiaram o pobre do médico. Quem sabe uma cova para indigente ali mesmo no sertão mineiro?






CAPÍTULO III – ÓRFÃOS NA TERRA

Hoje tenho consciência de quem sou e quando desfilo minha estrutura 90X60X90 pela avenida, é realmente para chamar a atenção. Mas nem sempre foi assim. Por muito tempo estive dominada por traumas seríssimos de forma que fazia de tudo para parecer mais pouca coisa do que era.
Ele costumava me pedir para manter o sangue frio em qualquer situação. Eu sempre tive muito medo.
Agora sei que sou perfeitamente capaz de fazer isso. Minha vida me foi dada por despojo. Tudo o que viesse daquele momento em diante seria lucro.
Hoje eu sei.
Depois que tomei consciência desse fato passei a andar por aí de cabeça erguida. Há vezes que até desejo um olhar mais profundo em minha direção.
Na verdade eu queria mesmo era uma chance de pisar, como um dia fui pisada. Massacrar do mesmo modo que me massacraram. Vai ser barra, mas valerá à pena. Ver a dor nos olhos de quem quase me aniquilou? Não tem ouro no mundo que pague o valor dessa conquista! Não tem preço!
Tinha acordado meio estranha.
Tenho a sensação de que não pertenço a esta era.
Mais uma vez me vejo sozinha.
Visto luto porque morreu em mim qualquer coisa de esperança de alegria ou amor.
Penso...
Penso.
E penso!
Quanto mais penso mais me convenço do vazio de minha existência.
Às vezes parece que o mundo tem problemas comigo. Sinto-me como um aborto desprezível.
Outras vezes sou eu quem tem problemas com o mundo.
Quero colocá-lo à parte em um universo criado por minha imaginação e existir sozinha, alheia a tudo e a todos.
Gostaria de ser minha própria mudança ou, de realizar em mim mesma a mudança que costumo idealizar nos outros.
Estou cansada da repetição.
O eterno retorno das coisas, dos movimentos, me apavora.
Penso em transgredir, romper com tudo, mas me lembro que isso também já foi feito e então, eu seria apenas o retorno da repetição que temo.
Vou tomar um açaí com sorvete. Mais açaí que sorvete como eu sempre peço, por favor, sim?
Como eu dizia, a repetição me consome. Me apavora. Affs! Como tudo isso me cansa! E sou tão repetitiva mesmo assim. Por exemplo, tenho de estar no outro trabalho daqui a pouco.
Estive lá ontem.
Amanhã estarei lá outra vez, e de novo, de novo...
É isso todo dia!
O dia todo é isso!
A eterna repetição dos atos.
Dos pensamentos.
Das palavras.
Tenho a impressão de que ontem pensei, ou disse a mesma coisa.
E, se não eu, outro alguém o fez.
Amanhã outro, ou eu mesma, repetirei essas palavras.
Tudo isso é horrivelmente cansativo e monótono.
Chato mesmo até! 
Essa divisão em três funções é fogo!
Hoje não vou poder jantar de novo!
É curioso como o dia está cinzento. Daquele cinzento que o velho Liu escreveu em seu diário de prisão.
Eu não tinha registrado isso, não é?
Pois é. O diário dele me foi entregue como prova de sua inculpabilidade.
Ele acha que não há nenhum depoimento mais verdadeiro que uma correspondência íntima.
Concordo.
Mas, até mesmo a inocência de um diário pode ser alterada caso o indivíduo o escreva pensando que esse objeto pode ser observado em juízo.
E eu tenho quase certeza de que aquela raposa velha fez

CA-
RAM-
BA!

Não acredito que ele teve a coragem de me entregar o diário sem fazer uma última conferência nessas páginas!
Com que então o Cel. Sckiamo não está morto? E aquele imbecil me entrega a confissão de próprio punho...
Cancela o açaí, moça!
Vou correr para o departamento agora. Preciso ler novamente o processo.
Estudar algumas particularidades da lei. Preciso estar munida de todas as armas necessárias para conseguir abater aquela besta.
E quero começar digitalizando todas as páginas desse maldito diário. O mundo precisa conhecer a história de uma víbora.




















CAPÍTULO IV – O PARTO

                                                                                                                Outubro de 1987
Para todos os efeitos,
Assina Liu.
Estou escrevendo essas linhas amargas deste espaço que, me parece, será o Meu lar de agora em diante pelos próximos oitenta e cinco anos.
Saiu ontem a maldita sentença. Prisão à Fera assassina!
Imbecis. Eles não sabem o que fazem.
Não tive sequer o direito de chorar a morte de minha menina e ainda estou aqui enjaulado.
Até hoje não consegui entender direito o que aconteceu.
Minha alma está partida e o ser humano em mim deseja vingança para nós dois...
No entanto, o que posso fazer atrás das grades, além de chorar?
Creio que nem pela morte de Alcádia eu fui capaz de sofrer tanto.
Não posso mais escrever.
Essa noite estou em frangalhos.
Se conseguisse roubar a arma de um daqueles agentes, hoje mesmo eu partiria ao encontro de minha menina.
Aqui, é como se eu estivesse de mãos atadas.
Ao invés de apagar a luz da cela, esses infelizes bem que poderiam apagar a luz dos meus olhos...




Não é que o infeliz sofreu mesmo com a morte da norinha...
Que haveria de tão especial entre os dois para ele chorar mais por ela que pela própria esposa?
Claro!
Só pode ser isto!
A decepção por Alcádia ter lhe dado garotos ao invés de uma menininha o fez se tornar tão amargo...
Silene veio realizar o grande desejo que a raposa velha tinha de ter uma filha.
Essa profunda adoração pela nora pode ter desencadeado a aversão dos gêmeos pela namoradinha deles...
Você também hein Silene...
Tinha que ter se envolvido com tamanha corja...
Eu até que tinha um pouquinho de respeito por você, mas conhecendo mais a tua história, acho que você era tão ruim quanto qualquer um deles...
Bem, chega de divagações.
Sigamos com este divertido trabalho:








                                                                                                               Dezembro de 1987
Um dia mais no inferno,
Liu.
Enfim, vejo raiar o dia na mais longa noite de minha vida miserável.
Se eu, ao menos tivesse conseguido dormir para não ver se arrastarem as horas. No entanto, foi bom estar acordado. Assim pude refletir bastante. Pensar em coisas com as quais não tinha atinado.
Até essa fatídica noite, não tinha me dado conta da ausência dos meninos ao meu lado em todo o andamento do processo...
Nesta noite eu pensei...
É penoso reproduzir meu pensamento, mas eles, no início não ficaram felizes com a notícia do filho...
Aí, eu pensei: será que não foi Um deles?
Pronto.
Essas coisas são como parto.
Enquanto você gera uma idéia, ela se, se ajeita, incha. Incomoda as vezes, mas é só sua.
Daí, quando você dá a luz ‘e o verbo se faz carne’, a palavra toma corpo. Desenvolve células. Acopla-se a outras palavras e, de repente, outras pessoas vêem a idéia que antes era só sua.
Cada um dá um nome. Diz como criar melhor...
É um saco!
Por isso, no início achei penoso reproduzir meu pensamento...
Agora qualquer pessoa que ler isso vai saber que houve um momento em que ousei atribuir a meus filhos a culpa por um assassinato...


Céus! Como o velho soava humano nessas páginas. O que não é capaz de produzir em um homem alguns dias de confinamento. Tivesse essa pena sido cumprida, talvez o leão não passasse hoje de um ratinho.
Esse velho diário vai ser altamente explosivo quando apresentado ao tribunal.
Não, não Teixeira. Só estou preparando uns documentos.
É claro que você pode usar o scaner.
Tudo bem sim. Posso fazer isso depois. Tenho mesmo de fazer um outro trabalho agora.
A vida real me aguarda parceiro.
Preciso deixar a diversão para outro momento.















CAPÍTULO V – O ESPOSO

Como eu poderia convencer um júri da culpabilidade do canalha?
Se estivesse a mais tempo na profissão não teria dúvidas do que fazer. Mas, em minha situação vai ser difícil.
Uma chegante apenas.
Ele sempre me disse que eu chegaria longe...
Muito longe, se lutasse com as armas certas, é claro!
Tenho dúvidas quanto a este fato.
Quanto à minha capacidade não.
Sei que posso fazer o que quiser. Minha dúvida é quanto à possibilidade de encontrar as armas certas com as quais lutar.
Há momentos em que não sei ao certo para que é que fui trazida ao mundo. As vezes o vazio é tão intenso, tão globalizante que me sinto um não ser produzido em massa escalar.
Em massa porque costumo ver nas faces que me cruzam o caminho o mesmo va-
Sim moça. Na tigela pequena, por favor. Como sempre, sim. Não tem problema não. Meus estudos podem esperar.
-zio de expressão que contemplo no espelho quando olho para mim. Este, aliás, é outro enigma que me consome constantemente. A perfeição com que são trabalhados os espelhos me comove ainda mais por lembrar o Narciso Wildiano.
A duplicidade da contemplação unívoca ali me encanta sobremaneira. Acho que se não tivesse sido impelida para este ramo, eu teria estudado as belas letras. Não fosse minha pré-destinação à área investigativa, a literatura far-se-ia meu consu-
Ok. Muito obrigada, sim? Pode deixar aqui a groselha. Obrigada!
-mismo.

Oi.
(?)
Não, não. Minha ocupação do momento pode esperar.
(?)
Onde você está agora?
(?)
Sim, sim.
(?)
Sei onde fica.
(?)
A ligação está horrível, você pode repetir, por favor?
(?)
Tudo bem.
(?)
Entendi sim.
(?)
Estarei aí em vinte minutos, no máximo!
Acho que não devo tomar seu açaí hoje, moça. Valeu, viu? Pode ficar com o troco. Estou tão atarefada ultimamente.
Você viu como fui impedida de saborear esta maravilha por duas vezes hoje?





Seu Liu?
(?)
Pois é, não deu certo de novo. Pela segunda vez ela teve de sair às pressas.
(?) 
Sabe o que é? Estive refletindo... a garota é muito simpática. Vem sempre por aqui e fica de papo comigo. Um ser humano raro que observo a anos. Eu não posso fazer isso.
(?)
É, rata ou o que o senhor quiser, estou sim abandonando o navio.
(?)
Então, é melhor o senhor encontrar um outro meio.
(?)
Estou pulando fora.












CAPÍTULO VI – OS PAIS



VENHO

Venho de um tempo sem tempo,
Não sou exatamente o que quis ser.
Voltei a eras amenas para ver
A aniquilação total do pensamento.

Apossei-me de discursos eternos,
Ininteligíveis traços risquei.
Se é amante de Eros, não sei.
Mas a perfeição reside em meus feitos internos

Amo inquietamente o novo.
O belo constitui minha obra prima.
Posso abandonar a essência do povo,
Mas quero sempre viva minha rima.

Amo essas linhas.
Penso que elas me definem tão bem. Sinto-me representada neste poema. Se conhecesse o poeta, eu poderia jurar que fui inspiração para esse canto.
E o velhinho que não chega? Tenho tanto a fazer. Realmente não posso ficar tanto tempo assim lendo poesia. O que ele terá descoberto assim tão de repente?
Sim menino. Estou esperando um amigo sim. E você, quem é?
?
Não pode dizer... Tem graça? Como se coloca a disposição para interagir com outra pessoa e não pode se identificar garoto?
?
Tudo bem. Obrigada por me entregar o envelope.
Vamos ver o que foi que ele andou aprontando:
















                                                                                                               Agosto de 2016,
Confidencial.

Não posso dar maiores detalhes, mas você está correndo perigo. Sua vida corre contra o tempo. Entre na corporação pela porta dos fundos, querida. Não freqüente os bares e restaurantes que costuma freqüentar e, por favor, evite as saídas noturnas. Interceptamos a moça da sorveteria e ela nos confessou ter envenenado hoje por duas vezes o seuaí duas vezes. Não conseguimos arrancar das mãos dela o nome do mandante, mais é certo que algUém dos teus investigados está muito empenhado em manter sua boca calada. Ia te avisar pessoalmente, porém, achei que seria a mais prudente me manter à distância. Afinal, se me encontram também, fico impossiBilitado de ajudar você. Não volte para casa. Não me procure, nem faça contato com ninguém da corporação quando estiver de serviço, ok? Ps.: acima de tudo, confie somente em Deus, vigie todos os outros. Descanse em paz, parceira, enquanto não sabe quem é por você, ache um Lugar seguro.  Minha menina, não tenha medo. Estaremos sempre juntos.
Seu velhinho.









Vejamos como eu poderia fazer a decodificação desse bilhete:
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Há algumas maiúsculas em lugares impróprios, mas não tem lógica...
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Claro! Devo separar as letrinhas em itálico!
São elas:
E n c o n t r e i o s o s a s s a s s i n o s d e s u a m ã e o m a n d a n t e é U m d o s t e u s c a s o s m a i s o B r a ç o
Agora é só formar palavras inteligíveis com elas:
“Encontrei os assassinos de sua mãe o mandante é Um dos teus casos mais o Braço”.
É isso!

Vejamos agora:

E a mensagem secreta dele está decodificada!
Encontrei os assassinos de sua mãe.
O mandante é Um, dos teus casos, mais o Braço.

Mas é claro que entendi Teixeira. Sua missiva foi altamente esclarecedora. Agora me diga uma coisa que eu ainda não sabia.
Meu pai! Será que a raposa velha descobriu que sei de tudo isso e está me oferecendo risco agora?
Há há há.
Você só não me avisou Teixeira, que ele também fez parte de tudo e que a condenação dele não havia sido injusta.
Injustiça foi libertá-lo antes de cumprir a pena.
Bem, já que meu amigo me alertou do risco que estou correndo, vou recolher-me a CORP, pela porta dos fundos, é claro, e passar a noite envolta em minha digitalização.
Apesar dos pesares meu amigo, serei eternamente grata por você me impedir de tomar o açaí envenenado. Você agiu como um verdadeiro herói.
Quando amanheceu o coração já quase não batia. A agonia da aventura noturna tinha-a torturado tanto que ela estava à beira de uma apoplexia. Então decidiu que era hora de abandonar aquele trabalho angustiante e respirar ar puro.
Pensou ligar para ele e pedir socorro, mas agora que ele estava do outro lado seria muito arriscado tentar qualquer tipo de aproximação.
Estava em suas mãos agora ir em frente e esmagar as serpentes.
Com um pouco de bom senso e muita, muita sorte, ela concluiria sua missão.














PARTE VII

SEMENTES MALDITAS





















VII – O INOCENTE

Por diversas vezes tive asco de tudo o que estava diante dos meus olhos e quis rasgar o maldito diário. Mas, o desejo sufocante de saber mais sobre aquela podridão imensa me impelia à página seguinte.
Aproveitei a dispensa que o Teixeira me deu e por semanas não retornei ao meu posto.
Aluguei um quartinho numa pensão barata e me isolei do mundo. Vários dias passei envolta em um blusão antigo (herança dele, é claro!), com uma garrafa de água o tempo todo ao meu alcance e o maldito diário nas mãos.
A aridez daquelas páginas lembrava um deserto escaldante. À semelhança era tamanha que minha garganta ressecava e eu sentia, amiúde, a necessidade de tornar a molhar os lábios.
Acho que a febre tinha triturado meu organismo, já que os nervos estavam profundamente abalados.
Porém, de tudo o que li nas páginas infernais, o que me deu mais asco foi o seguinte fragmento:











                                                                                                               Dezembro de 1987
Um pouco mais sobre mim,
Liu.

Eu sabia que o bebê não podia ser de nenhum deles.
Cuidei pessoalmente para que porventura não viessem a providenciar herdeiros à rodo para a fortuna que construí com tanto esforço e sofrimento alheio.
Porém, paguei caro pelo silêncio de Silene.
Eu tinha que fazê-lo.
A solidez de minha ‘ilustre casa’ estava ameaçando ruir.
Se fosse uma ninfetinha qualquer, vá lá!
Mas a diaba era filha do ministro.
Uma intervenção monetária era quase que obrigatória.
Tentei convencer a diabinha a abortar nas primeiras semanas. No entanto, a carolice dela não permitiu.
“Seja como for, Liu, um filho é sempre um presente! Vou ter esse filho nem que seja a última coisa que farei em minha vida!”
Se soubesse como estava certa no momento dessa fala, minha menina...







Quanta sordidez!
Que criatura infame!
Queria poder liquidá-lo com minhas próprias mãos...
Em momentos assim sinto que a febre intensifica-se tão profundamente que...
Enfim, depois de tudo que li até aqui, não dava para esperar nada melhor daquela alma suja, vil e imunda.
Quase entrei em pânico quando descobri toda a dolorosa verdade!
Desabei por algumas horas!
Quis correr ao encontro dele para contar que também sou semente da serpente asquerosa, no entanto, minha atual situação não me permite. Não posso me dar o luxo de procura-lo.
Não agora.
Não com essa tempestade desabando sobre mim!











                                                                                                                  Março de 1990
A título de esclarecimento,
Liu.

Não senhores.
Não participei da armação dos gêmeos.
Não ajudei a arquitetar plano algum.
Eu não poderia conceber algo tão sórdido contra minha menina.
Nesse momento tive uma vontade imensa de declarar que eu sabia de tudo...
Que o Braço havia me dado todo o serviço...
Porém, minha situação ainda não era das melhores.
O velho Liu não poderia correr o risco de voltar àquele inferno.
Não depois de construir uma defesa tão forte ao longo de três anos.
Três miseráveis anos de reclusão!











                                                                                                                        Abril de 1989
Nota ao bebê,
Liu.

Não pode ter sido vão o meu esforço.
Preciso encontrar o diabo daquele caseiro com minha menina.
Acho que só ela poderia me resgatar deste pântano horrível.
Minha florzinha já conta agora com mais de dois anos...
Que nome terá recebido?
Será que algum dia conhecerá a história de sua família?
Como farei para legar a ela todo o império que construí, se nem ao menos sei o seu nome, minha doce menina?













VI – O SUPLANTADOR

Velho maldito! Destrói a mãe e fica desesperado pelo bebê que quase não teve o direito de ver o brilho do sol?
Tanta gente trabalhando todos esses anos para colocar as mãos naquela raposa e de repente ele se joga assim em minhas mãos por vontade própria?
Isso é o que se chama sorte!
Apesar de tudo, essa maldita sempre esteve ao meu lado!
O que o carrasco diria se eu revelasse a ele que o bebê sobreviveu e batalhou duramente para ir diante do júri argumentar em causa própria?
Você está vingada mãe.
Fomos todos forjados do mesmo barro! Tenho nas veias a mesma obstinação que rege a corja do mal, por isso não desisti de aniquilá-los e depositar as cinzas imundas de seus algozes em seu leito de repouso eterno.
Nunca te vi Silene, mas jurei oferecer a você o descanso que meus pais te negaram...
Não queria admitir, mas infelizmente, a lama corre também em minhas veias. Casual e incondicionalmente, somos forjados do mesmo barro.
Há semelhanças difusas que nos aproximam e diferenças pontuais que nos afastam bem mais do que eu gostaria de perceber.
Queria poder fugir de tudo isso.
Mas...
Oh!
Sinto-me miseravelmente presa a toda essa podridão.
O desejo de vingança degenera meus ossos como se eu houvesse sido acometida por uma forte crise de osteoporose.
V – O PRISIONEIRO

Abri a janela depois de um mês (30 dias e 30 noites) de reclusão total.
A paisagem escassa e o nível elevado de cimento denunciava que eu ainda habitava o centro de BH, porém, não era mais a minha antiga cidade: eram outras águas e eu, outra mulher.
Sinto-me mais morta depois desse contato intenso com a origem brutal de minha vida.
 É claro que eu sempre soube do meu parentesco com Um e Outro, no entanto, como nada era provado, eu me reservava o direito de fantasiar uma genealogia mais próxima do Éden ansiado. Gostava de imaginar minha mãe traindo os gêmeos com uma terceira pessoa, apenas para me legar o direito a uma linhagem mais nobre. Porém, nem nos piores pesadelos visualizei essa cena trágica em minha gênesis.
Pelo ao menos não como descendente da serpente...
Houve sim um terceiro amante, mas tinha que ser aquela maldita árvore torta?
Agora é certeza que nada mais me resta.
Até o consolo da dúvida me foi negado.
Sou isso que não quero ser.
Uma porra de uma bastardinha por quem a mãe se deu...
Que merda!
Toda essa coisa genética me revira o estômago e me tira o apetite, a visão e afeta meus sentimentos.
Já era uma tortura me posicionar como neta.
O que fazer para aceitar a figuração no papel de filha do perverso?
Pobre lixo que sou. Quem me libertará do corpo dessa morte?
Ao contrário do pequenino, ninguém há que me possa fazer escapar.
Estou horrivelmente perdida!
Tenho olhado tão pouco pra fora de mim.
Mergulhei de cabeça em meu interior...
Não entendo o que houve, mas sinto-me assim:
Faltam sonhos e sobram ilusões e pavor.
Ah, meu velhinho! Como eu queria voltar antes do triste fim e ter de volta o amor que em você encontrei.
Recolher no caminho os pedaços de mim e guardar bem seguro o valor que alcancei.
Porém, no final descubro que não importa o que eu faça, sempre vou estar sozinha.
Nenhuma esperança de futuro me abraça.
Já aprendi a conviver com a dor que em meu peito se encerra, mas queria outros costumes.
Sei lá.
Talvez, deixar o castigo nefasto para quem de fato erra.
Aí, ouço essa voz constantemente em minha cabeça repetindo e repetindo e repetindo:
Não.
Não se encante mais, pequena.
Não sorria porque nada aqui vale um sorriso.
Nenhum momento hoje vale o prazer de um encantamento.
Outras pessoas não sorrirão de volta pra você. Não te darão nada em troca nem entenderão seu sorriso encantado.
Vai boba, viva sempre maquinalmente.
Não demonstre nenhuma emoção diante de nada.
Seja só mais um bicho humano nessa selva, abandonado entre milhões de semelhantes.
Você já começou a morrer no momento em que nasceu, então, viva como se a morte não lhe aguardasse mais.
E quando morrer de vez, leve consigo o orgulho de nunca ter se encantado diante de nada.
Leve o prazer de não ter dado a ninguém o gostinho, o prazer de contemplar seu encantamento!
Agora é isso todo dia.
Ao menos o rancor já não me corrói.
Já desisti de tentar entender os motivos daquela mente doentia.
Tudo é natural para mim, como sempre foi para ele. Só fico grilada ainda com o amor absurdo que ele diz sentir por mim.
É insano, desleal e até desumano, considerando tudo o que ele fez de ruim. Não faz mal. Falta bem pouco para jogá-lo de volta no inferno. Aí eu poderei concentrar toda a minha energia nas sementes malditas.
Se bem que eles já estão se destruindo mutuamente, desde que foi descoberto o esquema de corrupção e lavagem de dinheiro, chefiado pelo Outro enquanto líder do Estado Nacional.








IV – O SUPLANTADOR

Ele não se conformava de ter sido achincalhado, desacreditado e humilhado nacionalmente e ver Um irmão seu e sócio no banditismo por cima da situação.
A justiça bem que tentou pedir sua prisão preventiva, porém ele encontrou abrigo no seio da “vaca profana” que providenciou uma “saída de emergência” para o cúmplice tão, tão querido...
A bomba estourou em um domingo, quando ele descansava confortavelmente à beira de sua bela e enorme piscina. Sabe Deus quantas vezes ela foi usada como cofre para os milhões desviados e lavados, essa prática já era o que se podia chamar de algo comum no Estado em que as coisas caminhavam, ou não caminhavam, se atropelavam apenas...
Pois bem, ele descansava confortavelmente à beira de sua magnífica piscina-cofre quando os agentes tocaram a campainha.
Os senhores podem entrar. Fiquem a vontade. Estou pronto a responder todas as suas perguntas.
E bem para si mesmo entre parênteses:
(Seus merdas, quem vocês pensam que são para entrar assim na casa do Outro? Um bando de vendidos... completamente acovardados se achando no direito de botar pressão em cima de um ser humano tão justo, correto e honesto como eu? Esperem só para ver o que farei com vocês seus filhos da puta)!
Não se incomodem em pedir desculpas, é claro que vou acompanhar vocês ao interrogatório sem mostrar resistência... eu não seria capaz de um ato (público) de violência. (Não poderia manchar minha imagem agora que estou pensando em voltar ao pleito). Vamos senhores. Não vamos se atrasar tanto mais.
Tudo bem que demoraram a chegar até ele, e não teriam chegado nunca não fosse a denúncia daquele Um, mas chegaram. Mais de oito anos depois, com boa parte de seus companheiros na lona, ele virou alvo de investigações...
Naquele tempo Um e Outro eram unidos, bem mais que irmãos gêmeos costumam ser.
Foram órfãos do mesmo pai presente, então, entendiam as dores Um do Outro.
Fizeram alianças de sangue e laços indestrutíveis, atados com nós de marinheiro, para protegerem-se até a morte e tudo ia bem até ambos apaixonarem-se pela mesma “dona de divinas tetas”, desde então os códigos passaram a ser secretos. Altamente secretos, ao menos para Um deles.
Que loucura vê-lo entrar e sair o tempo inteiro sem dizer nada como se agora fossem inimigos. Justo eles que seduziram a “Vaca” em equipe.
Quando arquitetou sozinho o homicídio, tantos anos atrás, ele não pensava apenas em si mesmo.
Queria antes, livrar também ao irmão do castigo de ter que conviver com a semente maldita que ele sabia ser obra do velho.
Tinha que ser porque o irmão já havia desistido da disputa quando descobriu que era passado para trás pela vadiazinha e ele, bem, ele era apenas uma árvore seca.
Não poderia gerar nada de bom ou ruim. Felizmente o céu havia legado ao mundo essa graça...
Ele e o irmão estavam limpos, contudo, o Outro imbecil ainda amava a adorável dama, mesmo ele tendo assumido para si a paternidade da criança e não compactuaria com o crime se conhecesse seus projetos malignos.
Nesta trama ele contou apenas com a ajuda do seu Braço. Amigo fiel de Um e Outro que passou a integrar a trupe logo em seguida.
Foi fácil convencer o irmão a passar uma temporada na tão bela Minas Gerais. O regresso a capital mineira era um sonho antigo que partilhavam. O Braço ficou encarregado de executar todo o trabalho sujo.
O caseiro seria responsabilizado depois.
Algo deu errado no cronograma e o safado conseguiu fugir antes de a polícia encontrá-lo na cena do crime.
Tudo teria sido perfeito e nada levaria a eles.
Mas o velho estava mais envolvido com a vaca do que ele pensou e veio tentar socorrê-la antes do último suspiro.
Ele nunca foi movido por grandes curiosidades, porém tinha comichões de saber como tudo aconteceu.
No relatório do serviço, o Braço contou que levou a mulher até a chácara. Manteve-a em cárcere privado até a manhã de terça-feira, estrangulou-a no sofá por volta das nove horas e partiu. O caseiro chegaria às dez horas da manhã na terça-feira, tomaria conhecimento do assassinato e chamaria a polícia que o enquadraria como suspeito.
Ele não teria álibi, nem dinheiro para bancar um bom advogado...
Durante toda a terça-feira ele esteve colado ao noticiário na pousada para ver o caseiro ser levado e nada. Só ao anoitecer é que ele viu o rosto do velho estampado no jornal como suspeito do assassinato de Silene.






III – O INOCENTE  

Não é tristeza. É dor. Angústia. Ou qualquer coisa parecida. Algo desse gênero.
Não estou me sentindo mal. Só não estou me sentindo. É isso.
Talvez seja saudade de alguém que não fui. Nostalgia de um tempo que nem vi nem vivi...
Me sonhava bela, dentro e fora da forma, e então, me vejo sem face.
Ainda estou me perguntando quem sou agora que quase tudo já foi dito?
Não faz sentido!
É.
Eu sei.
Mas o que é que se faz?
Nada vale a pena quando descubro que minh’alma é tão pequena...
Tenho a impressão de que se não resolvermos agora este impasse, isto será eternamente meu pretérito imperfeito.
Minha grande ação inconclusa.
Destronar as serpentes criadas foi sempre o grande objetivo de minha vida e agora descubro que sou herdeira das mesmas desgraças dessas serpentes...
Que fazer ao final?
Será que um transplante completo de coração e de sangue me ajudaria a arrancar os resquícios da lama de meu organismo?
Mas não.
Ele sempre disse que eu seria diferente. Que apesar da gênese, minha formação moral tinha sido outra e tal...
Agora estou mais perdida que estava quando comecei a organizar os fragmentos dessas memórias.
Sabia que seria complicado, no entanto, esta tarefa está se tornando inviável.
São caquinhos tão minuciosos...
Tão dispares...
Tão sem sentido que por vezes até cogito deixar este caso sem solução e desaparecer da mesma maneira que apareci...
Sem ser nomeada.
Infelizmente este legado me foi vetado desde o início.
É claro que saber tudo sobre minha origem sempre foi meu projeto de vida, entretanto, o que me move agora é o desejo de entender o esquema de corrupção que paira como pano de fundo em todas as ações dos irmãos perversos.
Meus irmãos.
Que nojo!











II – O SUPLANTADOR

Suas vidas bem poderiam ser representadas com a seguinte analogia.
Inicialmente o senhor absoluto figurava em cena.
 Todo o poder foi lhe dado e ele imperava absoluto mandando e desmandando.
Schiamo era seu nome.
Liu, seu codinome.
Mas no fundo, no fundo. Tudo era fachada.
A arena era sua verdadeira praia.
Subjugou semelhantes. Mandou e desmandou por anos a fio.
O “bem” da família era seu brasão e seu lema.
E em nome do progresso desencadeou sustentação. 
Desenhou uma nova bandeira e se fez livre, arrastando um mar de sangue e lama por onde andou. 
Fez-se por força louvável e demonstrou esforço memorável, porém ruiu em momento inesperado. 
Partiu para retaliar-se. 
provou precisar banhar-se em sangue para se garantir no poder e o fez. Acontece que estava já inteiramente desacreditado e ruiu uma vez mais, a despeito de toda a glória do passado.
Entretanto, como coroa de sua criação, Um filho lhe foi dado.
Saído de suas entranhas, mas com um desejo infindo de suplantação. Este Um não despontou sozinho, trouxe Outro semelhante agarrado ao seu calcanhar.
Duas serpentes criadas!
Maldito desejo bravio de crescimento os dominava. 
Produziram torturas. 
Produziram dores tamanhas. 
Produziram monstruosidades debaixo do sol. 
E o fizeram com o aval dos seus adoráveis simpatizantes. 
Um legado tão cruel que faria seu genitor parecer socialmente devotado ao bem, mesmo tendo sido ele a verdadeira face do mal...
Uniram-se à velha ganância do pai e foram fazendo ruir impérios por onde passavam.
Espezinharam os bons costumes, corromperam a moral e ignoraram completamente o amor com que a madre os gerou.
Estiveram unidos enquanto seu mal permaneceu oculto, enquanto a pátria inadvertidamente sorveu o leite ralo que lhes lançavam a contra-gotas, e então, quando toda a maldade e ignomínia começou a ser desvendada, Um traiu o Outro, jurou que não fazia parte do esquema e assumiu sozinho o poder enquanto seu irmão de fé, de força e de criminalidade era lançado sem amparo no abismo.
Um duplo perjúrio. Uma dupla traição.
Estava escrito nos anais.
Apesar de terem feito coligação, aproveitando a ascensão momentânea do Outro, ele no geral era fraco. Não tinha o mesmo talento para o engano. Lhe faltava tutano para garantir-se na negação da maldade que lhe era própria.
Por isso só o Outro caiu.


















EPÍLOGO

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016
23 horas e 59 minutos

Acho que deu para juntar mais ou menos os caquinhos de minha história.
Estou anexando neste momento as últimas provas para fechar o inquérito.
A serpente criada, o velho doutor Liu conseguiu mais uma vez escapar do julgamento. Todos sabem agora que o ferrenho Cel. Schiamo, ditador dos diabos, escondeu-se por toda uma vida atrás da identidade falsa de médico competente.
Porém de que serve agora toda essa informação, se o filho da puta finalmente encontrou refúgio eterno nos braços da morte?
Meus irmãos foram julgados.
Um e Outro tiveram mesmo sentenças diferentes.
Um alegou inocência. Disse ter tido sua imagem usada. Jurou que sempre esteve a serviço do povo e outras babaquices mais que acabaram comovendo a opinião pública. Foi condenado a uns poucos anos de prisão domiciliar e, para infelicidade minha, e da minoria de instruídos neste país, já trabalha em sua campanha para o próximo pleito de vida pública.
O Outro, como já fosse fraco por natureza, e por já ter estado na prisão, foi mandado de volta para lá por tempo indeterminado. Ele também jura inocência. Diz que aquele Um sempre o influenciou para o mal, mas que ele, depois de amargar tantos anos de cadeia, jamais reincidiria no erro. Além do que, também está estudando um meio de melhorar sua imagem para o próximo pleito de vida pública.
Quanto a mim. Bem, eu prometi entregar meu pedido de demissão no dia seguinte à condenação dos três. Como o velho jamais será condenado, me arrastarei pela vida afora prestando serviço a super segurança pública...

O Substituto

Naquele dia os alunos estavam mais ruídosos que o normal. Ele bem que ensaiou uma ou outra arrancada inicial no conteúdo programático da d...