EM VERSO E PROSA
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O Substituto
Naquele dia os alunos estavam mais ruídosos que o normal. Ele bem que ensaiou uma ou outra arrancada inicial no conteúdo programático da disciplina, porém nenhum serumaninho lhe voltou a atenção. Estavam acostumados a se calar no grito e o grito costumeiro não veio.
Era como o som de muitas águas a comunicação no local. Ele simplesmente sentou atrás da mesa, minúsculo e derrotado, imaginando como fazer para dar a sua aula.
Aquela turminha presunçosa já tinha um
farto histórico de por em fuga os assustados professores substitutos. Ele seria apenasmaisum!
O apenasmaisum em silêncio retirou o violão da cartola e suavemente dedilhou o hino que foi sucesso em sua geração menos de meio século atrás: "enquanto todo mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência"...
Sua paciência não era fingida e dois pares de olhos lá no fundo da sala perceberam, voltando-se em sua direção.
Os quatro olhos ganharam pernas e arrastaram suas cadeiras para pertinho do apenasmaisum.
Fossem eles conhecedores da letra, os quatro olhos teriam ganhado bocas também, por ora, contentaram-se em aguçar os ouvidos.
Nunca antes um professor abrira a boca para falar de paciência com a turma. Seu comportamento até aí só fora digno de revoltas.
O círculo foi aos poucos se alargando e o apenasmaisum trouxe seu repertório para mais perto da galera jovem. Agora eles cantavam na mesma nota. Foram gentilmente afinados e estavam prontos para o conteúdo!
No soar do sino o professor ouviu sussurros por toda a turma ruidenta:
"A aula dele é diferente. Ele tem um jeito meigo de cativar a gente.
Ele não é apenasmaisum, não.
DEFINITIVAMENTE!
Por: Jaquelini S. B. de Jesus
Decidi criar este blog para deixar registradas algumas das minhas poucas ideias formuladas em momentos de reflexões profundas...
Atualmente sou professora Estatutária em São Francisco do Guaporé - Rondônia.
Sempre fui apaixonada por literatura e sonho um dia construir um mundo onde homens e livros possam conviver lado-a-lado como grandes e inseparáveis amigos!
Publiquei recentemente meu primeiro livro de poesias: Motivos Poéticos.
Pandemia
Por fora o terror me assombra
Pavores que nem sonhava.
Janeiro, presságios de morte.
Fevereiro, desafiava.
Março, um pânico infindo.
Janelas e portas, trancava.
Abril, sorriu a esperança
A morte já não rondava.
Maio, a volta de tudo.
Susto diário e pavor,
O fenecimento escancarava.
Junho entrou estranho,
De canto de olho ressabiava.
Meu Deus, o frio em junho?
Nunca em junho nevava!
O terror de morte e o assombro.
Por trás da porta espreitava,
Pressagiando mudanças
Que nem sequer imaginava.
E o frio do frio junino
Que chegou e assustava.
A neve no firmamento
Cambiando o que pensava.
Lá fora, a água e o vento.
Nunca em junho nevava!
Elijanique Savil
Decidi criar este blog para deixar registradas algumas das minhas poucas ideias formuladas em momentos de reflexões profundas...
Atualmente sou professora Estatutária em São Francisco do Guaporé - Rondônia.
Sempre fui apaixonada por literatura e sonho um dia construir um mundo onde homens e livros possam conviver lado-a-lado como grandes e inseparáveis amigos!
Publiquei recentemente meu primeiro livro de poesias: Motivos Poéticos.
A ÚLTIMA HORA
Decidi criar este blog para deixar registradas algumas das minhas poucas ideias formuladas em momentos de reflexões profundas...
Atualmente sou professora Estatutária em São Francisco do Guaporé - Rondônia.
Sempre fui apaixonada por literatura e sonho um dia construir um mundo onde homens e livros possam conviver lado-a-lado como grandes e inseparáveis amigos!
Publiquei recentemente meu primeiro livro de poesias: Motivos Poéticos.
Não perguntei se posso, mas vou dizer mesmo assim
Ouvi que todo ponto de vista
É a vista de um ponto
Tenho visto inúmeras gentes
Ponteando a visão umbilical
Tenho ingerido tanta Corona
Nos momentos atuais
Justo eu que nunca bebo
Embriaguei-me e estou mal.
E já que está na moda
Pontear a visão do mundo
Vou colocar meu ponto
Para a apreciação geral
O ponto que ora coloco
É simples e muito prático
Pontuo que cada um decida
O que para si é normal
Você quer sair de casa
E encontrar muita gente?
Vai na fé. Deus o abençoe
Mas deixa o outro também
Decidir por si só.
Não obrigue as pessoas
A coronarem-se contigo
Ou pactuas o geral amém.
O ponto que compartilho
Não é meu ponto exclusivo
Visto que muita gente
Pontuou o mesmo fato
É o desabafo contra os dizeres
Não pegue. Não toques.
Não sintas. Não manuseie.
Quando sou um tocador nato.
Vegar me é natural
Desde que nasci brasileiro.
Não cumprimento à distância.
Não reconheço sem tocar.
Pontuaram-me ponto-a-ponto
Como devo não proceder.
Mas o toque é minha forma
Mais humana de amar.
Coronada, fico em transe
Não sei ser quem sou
Nessa contemplação passiva
Quero outros rostos comigo
Ter os colegas ao pé de mim
Eu decido se quero
O isolamento mortal
Ou a regeneração entre amigos
Decidi criar este blog para deixar registradas algumas das minhas poucas ideias formuladas em momentos de reflexões profundas...
Atualmente sou professora Estatutária em São Francisco do Guaporé - Rondônia.
Sempre fui apaixonada por literatura e sonho um dia construir um mundo onde homens e livros possam conviver lado-a-lado como grandes e inseparáveis amigos!
Publiquei recentemente meu primeiro livro de poesias: Motivos Poéticos.
Sementes Malditas
SEMENTES
MALDITAS
ELIJANIQUE SAVIL
MISERÁVEL VERME QUE
SOU;
FORJADOS DO MESMO
BARRO;
BRUTALIDADE;
O INFERNO SERIA A ÚNICA
RECOMPENSA;
EU NÃO ERA CULPADO;
SEMENTES MALDITAS;
DUAS SERPENTES CRIADAS.
APRESENTAÇÃO
Diversos narradores se
alternam para contar uma história de suplantações e fúria. Uma família (im)
perfeita da alta sociedade que vai ruindo diariamente em razão das armações
tramadas pelos “anjinhos” órfãos de mãe.
Assunto: A mãe passa
por fortes tensões durante a gestação, é diagnosticada com uma crise de
depressão pré-parto, a situação maléfica atinge os fetos que nascem
assentimentais, para piorar a crise, a mãe morre logo depois de dar a luz. Os
bebês são criados por um pai atencioso, mas incapaz de amá-los. Depois de
adultos os gêmeos submetem o pai a uma prova desesperadora que acaba por
desenvolver nele um desejo sobre humano de vingança.
O romance conta com
grau zero de romantismo por parte das três personagens principais, que são as
vozes narrativas, e uma espécie de aversão incondicional por parte da
personagem secundária que divide a trama com o pai e seus dois filhos.
PARTE I
MISERÁVEL VERME
QUE SOU
VII – O PRISIONEIRO
A manhã está cinza.
Falta o colorido intenso daqueles dias quentes de verão.
Em cinzas também tenho
hoje a alma que em breve se derramará como o cúmulo que ora vejo instaurando-se
no céu.
Não se dissipa a
tempestade e há indícios de algo mais forte reservado para o amanhã. Vejo
reinar nas sombras todo o peso de cinquenta anos atrás.
Grilhões que
impacientemente jazem a espera do momento (in) certo para calar mãos nervosas
que surdamente se fazem ouvir; para algemar bocas incautas que agem loucamente
sem se fazer sentir.
Aqui estou.
Tenho a minha volta
espessas camadas de ferro e me pergunto se um dia terei a chance de ver o
brilho do sol.
Ah liberdade! Por que
você me falta?
Teria contemplado a luz
do sol, tivesse tido tempo de viver. E o raiar incandescente da aurora
resplandecendo a cada amanhecer.
Negaram-me o encanto
desta hora. A luz do teu olhar cegou o meu.
Meu referencial de belo
é tua face e, tudo o mais, na vida, se perdeu.
Olhe só para mim: um
romântico incoercível em pleno século XXI.
Minhas lamentações
estão um tanto ultrapassadas.
Bem sei.
Ainda mais se
consideradas à luz das últimas ações a mim atribuídas.
No entanto, a
iniciativa era muito boa, tenho certeza que sim.
Céus!
Quando foi que tudo
começou a dar errado?
Tinha tanto ainda por
fazer. Tanta coisa para descobrir. Para contar. Minha imprudência foi altamente
destrutiva para nossa casa.
Eles confiavam em mim
até todo esse boato se espalhar. Contavam comigo e acho até que me amavam.
Contavam com minha
capacidade de resistir bravamente, mas falhei.
Não combati o bom
combate, só acabei a carreira e, sinceramente, não sei o que é de minha fé.
Alegam que a barbárie
insana conduziu meus atos até aqui. Porém sou uma alma boa. Ao menos costumava
ser enquanto era eu. Não sei nada mais de mim nem de quem sou agora. Só sei que
até aquele triste momento eu era movido pelo amor. Só pelo amor.
Agora que tenho tão
pouco tempo de sobrevida entendo o desespero de um idoso implorando por um
instante a mais para estar sobre a terra. Entendo a dor que via todos os dias
nos olhos de meu pai quando lamentava não ter tido tempo para realizar seus
sonhos mais íntimos e fazer melhor tudo o que tinha para fazer.
E ele fez bem o que lhe
veio às mãos. Me amou. Me educou com carinho e respeito. Me ensinou a viver e
preservar a vida do próximo, mesmo este próximo não estando ao meu lado como
percebo agora. Eu nunca poderia ter feito a maldade da qual sou acusado.
Ou poderia?
VI – O SUPLANTADOR
Você abre a porta da
casa, olha a rua deserta, a ausência de automóveis nos estacionamentos da
calçada e, outra vez se sente só. Apenas a sua velha companheira de guerra — a
solidão — permanece com você.
É natural.
Você sempre esteve
ocupado demais para se prender a detalhes burocráticos.
Coisas insignificantes,
como a conquista de amizades desinteressadas, sempre esteve para além de seus
planos. Só agora que tudo foi tirado de você é que você pensa no quanto foi
abençoado, tendo a graça e o apoio de quase todo o povo, gozava de infinita
liberdade de ação. Apesar de nunca ter dado seu apoio e lealdade de fato ao povo.
Você não precisava de
compreensão ou carinho. Sua arrogância não permitiria. Você foi sempre o
bastante para si. E não deixou que seu coração conhecesse o amor.
Que é o amor? Esta
coisa indefinível que não foi ainda conceituada claramente por ninguém.
Filósofos tentaram.
Trouxeram vários conceitos e ideias brilhantes que no final, ou foram
contestadas por outros filósofos ou não puderam ser sentidas, comprovadas na
matéria.
Cristo o conceituou e
provou na sua matéria (carne) as bases do amor, no entanto, desde que não pode
ser experimentada por outra criatura humana ao longo dos séculos, como sabê-lo?
Poetas e romancistas se
aplicaram a exemplificá-lo a partir de moldes humanos verificáveis. Porém, o papel
aceita tudo. Dizer que o amor é fogo que arde e não se vê não o define, uma vez
que ardor também não deixa marcas. É irreal!
Não vale a pena sonhar.
Nem que quisesse abrir
uma porta, você não tem mais o controle em suas mãos. Vai onde te levam, come o
que te dão. Nem das tuas ideias você é senhor, “Pedro”.
Agora é este inferno.
Chovem acusações de
todos os cantos.
Você descobre que não
tinha ninguém, de fato, ao seu lado.
Ninguém tem.
Nem a melhor das
criaturas encontrou o refrigério de ver a seu lado um rosto amigo no momento da
tortura.
Onde estavas, Pedro —
fagulho tirado da rocha — quando seu mestre precisou de alguém para ajudá-lo a
carregar a cruz?
“Não Senhor. Não sou um
deles....”. “Minha Senhora, nem conheço tal homem... Sequer cheguei a ouvir ao
seu respeito, senhores!”.
Qual é? A segurança às
vezes falha, mas é duro ver que você não pode contar nem com aqueles que são
pagos para matar e morrer com você.
Ou, por você.
V – O INOCENTE
Você
é inocente.
Jura que foi vítima de um
complô muito bem arquitetado e o delegado ri na sua cara:
Tem razão senhor. O
senhor não fez parte do esquema de corrupção, é fruto de uma imaculada
concepção e o coelho da páscoa botou um ovo enorme em meu jardim ainda há pouco!
Veja só, que interessante!
Ora dá-se!
Amigo, eu só preciso
dos nomes. Diga quem estava com o senhor e aí a gente ferra só metade da droga
de sua vida.
Só metade! Tem lógica
afirmar isso quando toda a sua vida é composta dessa metade? Dessa maldita
metade!
Quando até o útero
gerador você teve que dividir com alguém?
O que a todos parece
metade, para você pode ter sido uma vida inteira de tormentos, de angústias, de
submissões e de...
FINGIMENTOS!
Ninguém entende quando
você explica que a ideia era muito boa; que você tinha intenções de outra
natureza; que o desvio não estava em seus planos. Que o assassinato foi só a
consequência de um ato impensado. Que ele foi arquitetado pela esquerda (se bem
que, numa visão de fora, você é à esquerda) para lhe derrubar.
Tudo foi planejado por
aquele irmão maléfico que você bem poderia ter sufocado na fase embrionária.
Afinal, você já era um Sr. Feto, com todas as características de um vencedor,
enquanto ele, apenas uma massa amorfa, se revolvia, buscando equilíbrio no
líquido amniótico.
Para!
Você não teria coragem
para tanto.
O fato é que você está
vivendo o pior momento de sua vida.
Não está com “saco”
para agüentar nem suas próprias esquisitices, aí, de repente, começam a se
levantar do túmulo, fantasmas de séculos atrás.
Eles surgem cheios de
razão, exigindo reparações por erros que você tem certeza que não cometeu e, caso
tenha cometido, obteve licença para isso.
O pior é que eles se
acham em situação de exercer direitos que você não delegou a eles.
O que fazer em momentos
assim?
Você pergunta.
Em outros tempos
bastaria ligar para aquele seu amigo: “muito bem pago” e pedir...
Não.
Pedir não que você não
costuma praticar essa ação.
Ordenar.
Esse verbo soa bem mais
melodioso aos seus ouvidos. Ele exerce um encantamento indizível sobre você.
Então, bastaria ligar
para aquele seu amigo: “muito bem pago” e ordenar que ele executasse a tal
reparação.
Mais agora você não
pode fazer isso. A marcação é cerrada e todos os seus telefones estão
grampeados.
Estar em prisão
domiciliar é um martírio bem maior porque você está ao mesmo tempo no mundo e
desligado do mundo.
Às vezes você esquece
que a droga dos caras está te observando e deixa escapar algum ato
impraticável, alguma palavra não pronunciável, ou algo do gênero.
É um inferno em todas
as dimensões da palavra.
IV – O SUPLANTADOR
Há
exatamente um mês eu vivia o pior momento de minha vida.
Não suportava mais a
rejeição daquele que por muito tempo foi meu único elo com a humanidade.
Dividimos o mesmo útero
e ele insistia em acusar-me por algo que eu nunca ousei pensar.
Fico relembrando a
infância todos os dias.
Tento, nessas voltas ao
passado, entender quando as nossas vidas se afastaram tanto.
Nascemos juntos e,
durante um tempo expressivo foi como se fôssemos um único ser. Nossas ideias
eram uníssonas. Entoávamos um canto orquestrado, melodioso, perfeito. Uma aura
de alegria emanava intensamente de nós e as pessoas elogiavam a magicidade de
nossa união e a beleza de nossos atos contínuos.
Confiavam em nós.
Era como se nosso
nascimento houvesse pressagiado um novo tempo, para todos, de uma vida mais
digna, melhor e mais tranquila. O sonho de se fazer ouvido, sentido, percebido
pelo outro era então mais palpável. Quase real.
Porém, inexplicavelmente,
comecei a ser suplantado por ele.
Já não falávamos a
mesma língua desde o sacrifício tão grande exigido de nós. Apesar de negar até
a morte, percebi que no fundo ele estava curtindo a ideia da paternidade. No
fundo ele era também um filho acima de tudo. O estado do pai o abalou
sobremaneira.
Ele agora guardava uns
segredinhos assim... Assim... Ouvia minhas palavras com uma irritabilidade mal
disfarçada e saía por aí reproduzindo um discurso distorcido, dizendo que era
de minha autoria.
Entendi que não era
mais bem vindo e determinei meu banimento.
É claro que quem ouviu
nossa história soube de algo bem diverso.
Ele forçou-me a me
separar levando comigo minha terça parte das estrelas.
Eu soube sair por cima.
Dramatizando um pouco minha história, todos o viram como vilão. Da mesma forma
que ele, eu aprendi a usar a opinião pública ao meu favor.
Eu também manejava bem
as armas com as quais ele lutava. Afinal, fomos forjados do mesmo barro. O mal
que o roçava levemente irradiava dos meus poros com uma intensidade descomunal.
III
O PRISIONEIRO
Trinta e cinco dias de
angústia intensa. Você já não sabe com quem pode contar nem como se arranjar na
vida. Uma dor tão profunda se apoderou de você. O caso é tão crítico que você
consulta o espelho a todo o momento buscando descobrir quem é de fato. Este
cidadão vil e mesquinho estampado nos jornais do país inteiro não se parece
contigo. Ao menos não com a imagem que você tem, armazenada da infância e dos
primeiros anos de sua formação. Então percorre outra vez, a passos lentos, os
poucos centímetros de chão que tens para transitar.
Quem sabe nos passos
quase apagados ainda reste algo da sua essência? Não custa nada procurar um
pouco mais não é? Depois, você não tem nada de útil ou interessante para fazer
aqui mesmo... Quem deveria ocupar esse espaço está lá fora discursando
eloquentemente e arrastando multidões atrás de si.
Você deve estar louco
para saber quem lhe fala não é?
Chegou à hora de
começar do princípio.
Se bem que,
Machadianamente, esta fábula surtiria melhor efeito se narrada inteira pelo
fim. Mas, é preciso falar dos mortos para encantar alguém com um “Cubas” — ser
tão absurdamente normal que se ainda vivesse, morreria sem prender a atenção de
ninguém. Arte mesmo é registrar memórias de uma vida incrível fazendo ainda
parte dela.
Você não acha?
II – O INOCENTE
Está tudo meio confuso
para mim. As ideias completamente embaralhadas mais tudo bem. Chega de lamentar
os laços desfeitos. Vou encarar a situação de cara limpa.
Estou por minha conta
daqui para frente. Não tenho mais a quem culpar por tudo o que der errado a
partir de agora. Vai ser triste e doloroso existir sem a proximidade dele. Na
verdade, me acostumei a deixar a cargo dele o trabalho pesado. Bem como, todas
as sujeirinhas que esse negócio exige. Preferia não ter que sujar as mãos, mas
fazer o quê?
É comigo agora.
Devo admitir que já comecei
arrasando!
Ele foi meu primeiro
trabalho sozinho e saiu tudo PER-FEI-TO.
Infinitamente melhor do
que eu planejei.
Alguém dirá, no final,
que sou um ser sem alma. Não me importa. Agi por instinto de sobrevivência. Ele
teria acabado comigo caso eu tivesse deixado uma brecha qualquer.
Felizmente aprendi bem
cedo que nesse ramo não se pode ‘baixar a guarda’ em nenhum momento. Não se
está seguro nem mesmo entre irmãos.
Sinto pena dele. Tão
sábio e tão ingênuo. Será que ele pensou mesmo que a batalha estava ganha
quando me afastei? Ele devia saber que às vezes é necessário “tomar tempo.
Tomar distância” para observar melhor a disposição das peças no jogo. Para
entender as estratégias do adversário, antecipar suas jogadas e, até mesmo,
persuadir as peças de mais importância para que venham lutar a seu lado.
Sinceramente, esta foi
minha tática que mais, e melhor, surtiu efeito.
Queria contar em outros
termos esta fábula de minha existência, mas tudo o que tenho de resto, para
escrever, parte da visão do vencedor que para minha infelicidade, nesse caso,
particularmente, sou eu.
PARTE II
FORJADOS DO
MESMO BARRO
CAPÍTULO I – A MULHER
O dia está quente.
Não daquele quente
abafado que costuma estar de vez em quando nos dias de inverno, nos momentos
que antecedem uma tempestade. Hoje é diferente:
O calor é intenso e
acolhedor;
Tudo está calmo agora.
O cheirinho de erva
fresca traz um consolo, uma paz que só é possível sentir em um lugar como este,
estando em estado de planta. Absorvendo os nutrientes da terra boa para
transformá-los em seiva vital. Completamente absorta repousando sobre a relva.
Alcádia se sente feliz.
Além de toda a calma que consegue conservar nesse sítio, acaba de ser examinada
pelo médico e está tudo bem. Foi apenas um susto. Seus filhos vão nascer
saudáveis. Só não deu mesmo para descobrir o sexo dos bebês.
Seria muito arriscado
levar até ali toda a parafernália da ultrassonografia. O doutor disse que com
um pouco de sorte ela conseguirá segurar a gravidez até o oitavo mês. Não é uma
perspectiva muito animadora, mas dadas as circunstâncias ela já está vivendo um
milagre.
O esposo não entende
como ela e os filhos sobreviveram a tanta brutalidade.
Os caras não tiveram
‘pena’ e agiram o tempo todo como seres bárbaros, criados sem pai nem mãe.
Como explicar tanta
degeneração em entidades formadas dentro dos mais rígidos padrões de moralidade
e ordem?
Que algumas sociedades
se desintegrem, persigam seres humanos como bichos e matem em nome de Deus, não
é aceitável, mas é perfeitamente compreensível. Afinal, todos querem ser
liderados por um ser tão poderoso e desejam fazer algo para merecer essa
liderança, ainda que seja por vias tortas. No entanto, é inadmissível que um
grupo de homens mais ou menos inteligentes pratiquem absurdos para conservar a
ilusão de um poder tão efêmero como o poder político.
Onde estão hoje os
grandes ditadores do passado? A vida é tão curta. Poderes se sucedem. Pessoas
vêm e vão. Não dá para perder tempo perseguindo e odiando uns aos outros.
Ele reflete outra vez
nos motivos que os levou até ali: O povo precisava de uma representação firme e
séria para fazer frente aos ditadores. Era preciso muita coragem, pois os
homens não brincavam em serviço, estavam dispostos a tudo para continuar
dominando, a despeito da situação de quase miséria econômica e social a que
estão submetidos os dominados, enquanto os dominantes vendem a autonomia
nacional, aproveitando o capital estrangeiro para sustentar a ideologia de uma
meteórica fase desenvolvimentista.
O casal conhece bem
essa estratégia.
Os pais de ambos
vivenciaram um período mais ou menos parecido nas primeiras décadas do século
XX, na vigência do venerado “estado novo”, quando as massas eram excluídas na
divisão dos benefícios em favor da elite.
O povo viveu nesse
período a euforia de um desenvolvimento explosivo um pouco antes do golpe de
estado.
Assim como agora, um
intenso crescimento é noticiado enquanto o país sofre um golpe militar nas
surdinas. Futuramente essa história se repetirá novamente. Deus sabe em que
termos a população receberá a notícia de um novo governo ditatorial, fruto
desse ‘agora’ no passado.
A história sempre
acontece em ciclos repetitivos. Mudam os agentes, no entanto as bases de uma
ditadura são sempre as mesmas.
Eles
tinham noção de tudo isso não por terem ouvido alguém dizer, mas por vivenciar
a situação.
Estavam
acostumados a servir. Por isso não hesitaram em se oferecer à causa tão nobre.
Mal sabiam a dor e o sofrimento que trariam a sua família ainda em formação.
Nos
primeiros dias a marcação não era tão forte. Eles agiam nas sombras, libertando
e protegendo os companheiros mais perseguidos. Reuniam-se em galpões e casas
abandonadas.
CAPÍTULO
II – O ESPOSO
Alcádia
era uma militante de coragem. Encarava com bravura os riscos aos quais se
submetiam constantemente.
Os
companheiros tinham plena confiança nela. Nele também, apesar de encará-lo mais
como uma sombra. É que ele dava instruções. Arregimentava o pessoal e agia
sempre por intermédio dela. Todos sabiam do companheiro Liu, mas ninguém o
tinha visto ainda.
Ele
precisava preservar sua identidade pelo bem dos companheiros.
De
repente a repressão começou a se intensificar. O número de soldados armados nas
ruas cresceu e qualquer espécie de ajuntamento nas ruas era motivo de fortes
suspeitas. A situação saiu da normalidade e os militantes decidiram buscar
ajuda para a causa por meios mais drásticos.
O
melhor plano surgiu da criatividade do Teixeira.
Duas
outras milícias tinha pensado na possibilidade de um sequestro, mas foi ele quem
estabeleceu as bases para a execução.
Alcádia
estava por dentro de tudo, porém o trabalho era arriscado demais para ela
querer envolver o amado.
Só
depois de tudo consumado e, já na fazendinha em Minas Gerais é que ela me deu o
serviço.
Coube
a ela meter-se na embaixada, substituindo a secretária que mandou apenas um fax
onde informava o grave estado de saúde da avó e seu afastamento provisório e
necessário. Não deu maiores informações nem retornou à embaixada.
Se
eu soubesse antes que ela não fazia parte da milícia, Catarina Suam
provavelmente não teria engrossado a lista dos desaparecidos...
Enfim,
Alcádia desenhou a rota diária do embaixador para os milicianos e manteve-se
fora de cena até o momento da negociação no mercado.
Na
data combinada, Zé Flávio e Tourinho, à bordo de um fusca azul-turqueza chapa
fria, interceptaram a limusine do embaixador, ocupada apenas por ele e pelo
motorista — falha imperdoável do governo, quem se lembraria de que a milícia
tentaria algo nesse sentido em pleno domingo de páscoa? — dupla falha, aliás,
em tempos de guerra toda a vigilância é pouca...
Bem,
o fusca cruzou o largo do Ibirapuera e parou na frente da limusine. Um dos
ocupantes simulou uma revisão no pneu e o outro dirigiu-se ao motorista do
embaixador para solicitar ajuda. Quando o motorista desceu, o mocinho deu-lhe
uma coronhada de pistola na cabeça e entrou na limusine. O outro jovem
rapidamente ocupou a poltrona ao lado do embaixador e arrancaram dali, deixando
desacordado o motorista.
Mário
e Carmela ocuparam o fusca azul e seguiram em direção oposta à limusine. Eles
tinham sido responsáveis pelo sinal de chegada do embaixador. Um outro fusca,
ocupado por Rafael e por Cristovam, seguiu a limusine até o refúgio, um
sobradinho discreto da vila Mariana.
Durante
dois dias os quatro militantes estiveram ocupados em informar o embaixador da
situação política do país. No fim do segundo dia Mário chegou, trazendo mais
mantimentos e se colocou a postos para levar e trazer recados e informações. Só
na quarta-feira Carmela se apresentou para tomar conta da limpeza e das
refeições, ficando por ali até o fim das negociações. A exigência era que
quinze presos políticos fossem libertados e o jornal noticiasse o fato.
Foi
na tarde de quinta-feira que o sobrado tornou-se alvo de suspeitas. Como em
tantas outras residências do bairro e da cidade, um furgão preto da polícia
militar plantou-se na esquina do sobrado, seus seis ocupantes: um cabo do
exército; dois investigadores da polícia civil, um sargento e dois pracinhas da
polícia militar, ficaram ali até a manhã de domingo, quando os jovens
conduziram o embaixador, que passou sem ser reconhecido pela guarnição de
serviço, ele estava de óculos escuros e peruca loura. Em total segurança, ele
foi abandonado no caminho da praia de Santos.
O
seqüestrado foi bem cuidado pelos garotos e prometeu agir em favor da causa
miliciana. Quando em liberdade ele tentou cumprir a promessa, no entanto foi
obrigado a retornar à França imediatamente. Os médicos alegaram que o
embaixador sofria de um aneurisma na parte frontal esquerda do cérebro. Toda
essa riqueza de detalhes adquiri com o Dr. Estêncio, que cuidou pessoalmente do
caso do embaixador.
Pobre
alma boa... O aneurisma rebentou assim que ele desembarcou em sua pátria amada.
Com ele morreu metade das esperanças dos milicianos. Preciso admitir que
aqueles jovens tinham muita ousadia para desafiar a “própria morte”, embora
lhes faltasse o suave embalo do berço esplendido...
Tantas
vezes se entregaram de corpo e alma por causas nobres e viram seu sonho
fenecer...
Entre
eles sempre esteve minha bela e corajosa Alcádia...
Oi. Sim, sim, estou
ouvindo claramente, pode dizer. O que? O peixinho dourado entrou no aquário?
Meu Deus! Não, não. É que a base estava contando com o apoio dele para escapar
do tubarão. A gente vai dar um jeito. Não se preocupe companheiro. Fique onde
está. Vamos dar um jeito de mandar alguém até você. Claro que não. Eu mesma
irei se for preciso. Tudo bem. Não se afaste daí ok?
Problemas amor?
O Ricardinho caiu. Eles
estão chegando perto demais Liu. Isso está ficando muito perigoso!
Eu já disse a você Alcádia.
Você precisa sair de cena agora.
Ainda não meu bem. Vou
ver dois companheiros hoje à tarde. Precisamos montar uma estratégia para tirar
o Jesse de circulação, ele está marcado e morrendo de medo. Talvez eu mesma
tenha de ir removê-lo do abrigo. As coisas se complicaram muito depois do sequestro...
Os milicos estão muito revoltados agora.
Alguns pólos de reunião
foram estourados. Vários militantes da base de Alcádia acabaram presos. Liu
temia pela segurança de sua esposa, agora grávida. Pediu a ela que se afastasse
do movimento. Pelo ao menos até o parto, ela estava irredutível, não poderia
abandonar os companheiros nesse momento.
Ela prometeu que se
cuidaria, porém foi pega no mercado com dois amigos bem próximos. Era um
encontro “casual” para negociar os termos de soltura de alguns dos líderes do
movimento.
CAPÍTULO III – OS PAIS
Tinha corrido tudo bem
até ali. O sequestro do embaixador fora um sucesso em todos os sentidos. Desde
a arquitetura do plano até os minutos finais da ação, porém logo na madrugada
de segunda o Teixeira caiu. Ele foi um “Titã” e não entregou ninguém, mas de
alguma maneira as informações estavam vazando. Teixeira foi fuzilado depois de
vinte horas de interrogatório. Então pegaram Alcádia no mercado com Mário e Zé
Flávio... Nunca mais se ouviria falar dos dois. Ela teve mais sorte. Torturaram-na
bastante, coitadinha, mas ela era de rocha. Negou veementemente qualquer
envolvimento com a turma. Os companheiros não foram tão felizes na negativa.
Libertaram minha vida
depois de três dias de reclusão. Graças a Deus não tivemos maiores
complicações.
Decidimos sair de cena “até
as crianças nascerem”, ela disse.
Ela sentiu a
necessidade de se preservar pelos filhos. Soube na clínica em que se recuperava
da tortura que teria dois bebês.
Tudo está tão monótono
agora. Só a lembrança dos dias de fúria embala os momentos de solidão do esposo.
Esse sítio no qual se refugiaram lhe era estranho até então. Ele que sempre
viveu na agitação do grande centro, transitando dia e noite nas movimentadas
ruas de São Paulo, tinha que aprender a conviver com a quietude de uma
fazendinha no interior de Minas, apartando bezerros à tarde, tirando o leitinho
de manhã e sem nenhuma outra ocupação de efeito no resto do dia.
Só ele e Alcádia ali
com pouca, na verdade, quase nenhuma conexão com o mundo exterior. Só uma visita
eventual de um companheiro do movimento, o médico que se prontificara a ir de
vez em quando visitar a grávida, já que essa precisava de assistência no
momento mais crítico de seu estado.
É estranho, na verdade.
Ele sabe de onde saíram,
tem uma vaga ideia de onde se encontram nesse momento, mas ignora completamente
o deslocamento.
Chegaram ali de olhos
vendados. O mal de pertencer a uma facção é que você precisa se proteger até de
você mesmo. Seus atos, suas lembranças são seus maiores inimigos. É melhor não
saber quem é você, assim, se te pegarem você não poderá delatar seus amigos.
Não saberá dizer nada ainda que queira profundamente. E então, tudo o que terá
de fazer será suportar a tortura. Os males. A dor.
O doutor Estêncio
chegou preocupado dessa vez. Liu notou a ruga no meio da testa que indicava a
tensão do médico.
Há algo mais grave com
ela Doutor? Alguma coisa que o senhor não pudesse dizer lá dentro?
Com ela não Liu. O
problema é lá embaixo. Aquilo lá virou um campo de guerra. Cada dia cai mais um
companheiro. É um inferno. Dá uma agonia tão grande a ignorância das pessoas,
sabe? Não sei se fingem ou se não sabem nada realmente. Eu queria entender como
eles conseguem permanecer tão vazios enquanto tudo isso acontece.
Não é fingimento não
meu amigo.
Eles são mesmo muitos
cordeirinhos. Os ricos, caso possam continuar trocando de carro todo ano,
vestindo bem e comendo do bom e do melhor, não querem saber quantas vidas foram
sacrificadas para manter o padrão de vida deles; os pobres, bem, esses estão
ocupados demais tentando não morrer de fome, de bala perdida ou de uma epidemia
qualquer; e acima de tudo, todos querem ser campeões do mundo.
Ou seja, deram ao povo
um circo para baterem palmas sendo eles mesmos os palhaços. Os jovens só estão
envolvidos nesta causa porque tem tempo e espaço para nos dar atenção doutor
Estêncio.
Os outros não têm isso.
Ou não querem ter. Eu acredito.
É Liu. Você tem razão.
As pessoas estão ocupadas demais tentando manter o mundinho delas girando no
mesmo sentido. Preservar a indiferença, comemorar feriados ignorando os mortos
e feridos em consequência dessas comemorações e a celebração do horror heróico
que construiu nossa história até aqui. Pensam que isso é o mais próximo que
podem chegar da perfeição.
Às vezes, tenho vontade
de lutar com garra para abrir os olhos dessa gente.
Outras vezes, tenho
ganas de rasgar todos os véus que protegem as ‘corjas de assassinos que
governam nosso estado’ e dizer: eis aí tua verdadeira história povo. Comemorem
agora sabendo que a história de vocês é podre desde a fundação. Festejem as
leis que lhes deram escritas não nas pedras como a Moisés, mas no barro, na
lama de onde vocês saíram como vermes imundos. Na lama, produto do sangue e dos
corpos de seus semelhantes dilacerados nos campos de uma batalha diária e
secreta.
O senhor não pode dizer
isso doutor. Estaria assinando sua sentença de morte.
Sinceramente Liu, não
sei se me assusta mais a sentença de morte ou a condenação da vida!
Estou desiludido demais
com toda essa luta inglória.
Pegaram meu filho, Liu.
Oh me Deus! Quando foi
isso doutor?
Há uma semana. Acho que
eles queriam a Alcádia. Ele não sabia de nada. Nunca se envolveu na nossa causa.
O John Robert era um
menino da paz. Não queria encrencas com ninguém ou por ninguém. Eles sabiam
disso, porém tentaram usá-lo para me mandar um recado.
Eles o destruíram, Liu,
nem me entregaram o corpo. Estou em frangalhos, Liu. Eu sei que o acidente com
o opala é falso. Meu garoto dirigia bem. Aquela explosão foi provocada. Eu
tenho certeza...
Liu, mataram meu filho
porque estou tentando preservar a vida dos seus.
Eu sinto muito meu
amigo. Nem sei o que posso dizer ou fazer numa hora dessas. Eu...
Os dois choraram
copiosamente por horas seguidas. Depois o médico estendeu a mão ao amigo.
Não
estou culpando vocês de nada, Liu. Me entenda, por favor. Eu só precisava
colocar para fora a dor de um pai que viu a vida de seu filho ser ceifada aos
dezesseis. Ele tinha tanto ainda por fazer. Por viver, sei lá. Mas nós sabíamos
que seria assim não é mesmo?
São
os riscos da profissão e as consequências de nossos atos.
CAPÍTULO IV – O PARTO
Alcádia passava o tempo inteiro deitada, isso
dava a ele bastante tempo para repensar sua vida anterior. Sua via crucis. O
que mais o alegrava no passado era a recordação do seu casamento. No começo a
mulher era toda timidazinha, com relação a ele é claro. Eram colegas de
trabalho há cerca de quatro meses em uma grande montadora de automotivos do
estado e ele bem que a via de papinho com outro colega de trabalho todos os
dias. Inclusive, nas raras horas de folga ela sempre estava cantando em alguns
grupinhos musicais que se formavam por ali.
Ele sempre almoçava na
mesa ao lado da dela e ficava prestando atenção no bate-papo do grupo. Um dia,
não se lembrava qual o assunto que discutiam, mas, as palavras dela ficaram
gravadas para sempre na memória:
Sou quem sou a
exatamente vinte e dois anos. Alguma coisa mudou na forma e aparência física,
porém, minha essência é a mesma ao longo desses anos. Minha essência estava
formada aos cinco anos. Não sei bem quem eu era até ali, porém, venho sendo a
mesma pessoa desde então.
O mesmo ser confuso e
indeciso, capaz de ficar meia hora no mercado para decidir entre uma torrada
normal e uma “queimadinha” e quase duas pensando se leva um pote de requeijão
de 200g ou um de 250g (o preço tem uma variação de alguns centavos apenas).
Um ser assim, que ainda
não descobriu do que gosta exatamente, mas que sabe perfeitamente do que não
gosta.
Uma pessoa que sabe que
não levará um suco de manga, (porque apesar de adorar a fruta, detesta seu
sumo) mas é quase incapaz de decidir entre todos os outros sabores que tem a
sua disposição.
Então, resumindo, sou
aquela pessoa que não descobriu ainda do que gosta, mas tem certeza absoluta
daquilo que não gosta.
Toda essa maneira
encantadora e apaixonante de versar sobre gostos e preferências mexeu bastante
com as emoções dele. Decidiu que precisava a qualquer custo conseguir um
primeiro encontro com ela para fazer desse o único. Um eterno encontro de
almas.
No entanto, sempre quando
ele se aproximava a diabinha ficava muda. Só para ele não tinha assunto.
Tudo bem.
Ele sempre foi
paciente.
Seu encantamento não
era algo passageiro como a comunhão dela com o outro colega. Ele daria um jeito
de se aproximar. Saberia esperar, pacientemente, até que o coração e a vida
daquela mocinha bela e esquisitinha se abrissem para recebê-lo.
Aconteceu mais rápido
do que ele esperava.
A oportunidade de estar
a sós com ela veio instantaneamente.
O dia estava lindo.
Era por volta do meio
dia quando chegou um ofício intimando-os a comparecer no escritório central.
Seriam quatro horas de viagem. Só os dois e a beleza do caminho projetado pelos
homens a fim de fazer o encantamento dos amantes.
Toda aquela selva de
pedras que se aglomerava nos arredores do centro e que ele circundava
vagarosamente a fim de fazer render as horas ao lado da mulher, amada tão
veementemente. A magnitude do museu na Av. Paulista, tantos prédios
arquitetados com esmero e maestria...
Ele conduziria o
veículo da montadora e a pérola tão desejada desde o primeiro dia na empresa.
No
começo da viajem ela permaneceu calada. Limitava-se apenas a monologar alguma
resposta quando ele perguntava.
O
diabo é que até ele estava ficando inibido. Ele que sempre fora tão expressivo
com as mulheres. Ainda bem que ela se soltou um pouco mais depois de um tempo.
Logo estava falando de quase tudo. Ela lia bastante. Isso ficou evidente, pois
dominava diversos assuntos e temas.
Discorreu
por horas seguidas a respeito do banquete de Platão, defendeu com bravura os
motivos que levaram Raskolnikov ao crime, afirmando que em situação semelhante
também faria o mesmo.
A
seguir, trouxeram a discussão para um plano nacional e falaram sobre o governo
e a constituição da nacionalidade brasileira. Depois dessa viagem os dois
ficaram bem unidos.
E,
não saberiam precisar como chegaram ao altar.
Finalmente chegou à
hora do parto. Ela sofria horrores. A dor intensa parecia querer rasgá-la ao
meio. Mesmo se esvaindo inteira ela encontrava forças para esboçar um sorriso.
Finalmente iria poder
contemplar as faces de suas crianças misteriosas. Seus bebês, que durante
longos meses foram apenas sentidos, estavam prestes a figurar em uma nova e
bela realidade. Sua alegria estaria completa agora que a maldita perseguição
chegara ao fim. O sistema agora caminhava para o estabelecimento de dias
melhores para todos. Seus bebês fariam parte dessa transformação.
Como se por um segundo
tivesse a oportunidade de vislumbrar o futuro de seus rebentos, num instante em
que a dor transcendeu todas as suas possibilidades de resistir, um grito saído
das profundezas de sua alma cortou o espaço e também o coração de seu pobre
marido que o tempo todo segurava suas mãos implorando por uma chance de dividir
o sofrimento com sua amada, velha companheira de guerra!
“Ah minha querida semente!
Você teria sido uma verdadeira potência, tivesse produzido frutos com a
tendência de permanecer pra sempre unidos e usando seu poder para o bem.
Quisera poder bloquear aqui sua vinda ao mundo, tamanha é a desgraça que causará
aos humanos. Pensar que nós os amamos tanto desde o primeiro momento, que
abandonamos nossa vida, nossa causa para preservar vocês. Quanto horror meu
Deus! Quanto sofrimento”...
Como Moisés, que tendo
visto toda a beleza e extensão da terra prometida, morreu a alguns passos de
seus limites, a alma de Alcádia a abandonou a alguns segundos de contemplar a
face de seus meninos.
CAPÍTULO V – ÓRFÃOS NA
TERRA
Liu desabou com a morte
da esposa.
De repente era apenas
uma sombra do homem forte e decidido que havia sido.
O próprio doutor
Estêncio que esteve ao seu lado nos bons e maus momentos não o reconheceu
quando chegou ali para auxiliá-lo.
O médico achou por bem
levá-los de volta a civilização agora que a mulher havia partido. Só ela era
procurada. O comando o deixaria em paz com os filhos.
O homem estava tão
aniquilado que não questionou nenhuma das decisões tomadas por seu anjo da
guarda.
Ele sempre achou que
estivesse pronto para tudo na vida, mas esse golpe foi além do que poderia ter
suportado. Por quinze dias não quis ver o rosto das crianças.
A babá disse que eram
dois meninos.
“Lindos”, ela disse.
Mas ele nunca foi de concordar
com a opinião alheia. Preferia suas próprias conclusões. E ele concluíra de
antemão que se aquelas coisas foram capazes de sugar a vida de Alcádia para vir
ao mundo, eles eram muito feios.
Pediu à babá que
evitasse o choro dos pequenos sob pena de demissão. Aqueles chorinhos trariam
de volta todo o sofrimento que tentava superar.
Todos nós temos
tendência a ignorar a dor, como se dessa forma conseguíssemos nos manter
imunes. Porém, ninguém está além do bem e
do mal.
É preciso aprender a
lidar também com esses momentos em que tudo deu errado. E ele foi aos poucos se
anestesiando. Já não os culpava verbalmente por sua dor.
O médico sempre falava
com ele e pedia que reagisse. Que mostrasse um pouco ao menos de força, ele
devia isso aos bebês. Precisava ser menos egoísta. Justo ele que abdicara de
tantas coisas para ajudar companheiros estranhos, agora ignorava as
necessidades dos próprios filhos enquanto ele, o médico, estaria disposto a
fazer qualquer coisa para ter seu Robert por perto outra vez se fosse possível.
Um dia Liu passou pela
sala, os meninos dormiam na manta. Teve pena daquelas coisinhas indefesas
largadas ali. A babá fazia o possível, mas não poderia dar a eles toda a atenção
que precisavam e o amor de uma mãe. Eles nunca teriam isso.
Naquele instante ele entendeu
que perdeu muito ao morrer o amor de sua vida, no entanto era belo, tinha
posses, garra, coragem, enfim, cedo ou tarde encontraria outro amor. Enquanto
que seus filhos foram privados, pela vida, do único amor incondicional.
Caberia exclusivamente
a ele a tarefa de compensá-los por esse dano.
A partir daquele
momento seria pai e mãe, diversão, passa-tempo, herói, fantasia, educação,
moralidade, conhecimento. Tudo o que eles precisassem para viver bem.
Quando a babá voltou para
a sala, encontrou-o dormindo com os rebentos aninhados em seus braços.
Desse dia em diante os
meninos tiveram toda a atenção e todo o cuidado que ele pode oferecer.
Tiveram de tudo, menos
limites.
O pai não tinha coragem
de bater nos pobres órfãos nem quando necessitavam. A babá não tinha autonomia
suficiente para isso, apesar de sentir muita vontade. Eles foram crescendo
assim meio desumanizados.
CAPÍTULO VI – FILHOS DA
MÃE
Enquanto cresciam eram
unidos. O que Um fazia o Outro imitava e às vezes até confabulavam, inventando
meios de esconderem do pai suas traquinagens. Quando a necessidade de encontrar
um culpado era urgente, diziam apenas: “foi a Nancy, mas, por favor, pai não
manda ela embora. Ela é como se fosse uma mãe pra nós. Não fala nada com ela
também não. Ela pode se ofender e pedir pra sair e a gente não pode viver sem
ela.
Foi assim no dia em que
sem querer acabaram assassinando o gato de estimação do pai. Eles brincavam
inocentemente de cemitério no terreno atrás da casa. Enterraram diversos mortos
imaginários, choraram alguns defuntos que não tinham e, de repente, o que tinha
a picareta nas mãos virou-se com olhos estranhos e gritou: “agora vou te
matar”! O da pá se lançou em disparada gritando por socorro. Esse socorro veio
na forma do gato que dormia displicentemente no meio do caminho. O bichinho não
teve o privilégio de um último grito. Como estava mesmo morreu, achatado no
chão por pés incautos que desabalados buscavam abrigo. Auxílio.
Quando o pai perguntou
do gato Um se calou, o Outro disse que o bicho fora atropelado na Av. Transversal.
A primeira mentirinha colou. A partir daí sentiram-se aliviados e motivados a
novas aventuras nesse sentido.
A prática os estava
aperfeiçoando.
Logo ficariam
insuperáveis.
Por vezes lhe parece
ver a imagem do gato no canto da cela exigindo reparação e dizendo: “fui seu
primeiro crime. Sua grande culpa. Seu maior pecado”!
Chega!
Esse é o momento das
memórias de infância. Lembremos desse episódio quando entrarmos em tempo
oportuno.
Liu estava enganado
quanto a encontrar em breve um novo amor. Apesar de todos os atrativos externos
que portava, tinha um temperamento muito difícil.
Os anos de intensa
dedicação ao sistema anti-repressão fizeram dele uma pessoa amarga e
intolerante. A ditadura passou, porém deixou marcas muito profundas em seu
caráter já um tanto taciturno.
Muitos de seus amigos,
que nem eram tantos assim, morreram ou continuaram desaparecidos depois que a
vida voltou ao normal. Até o doutor Estêncio, seu único amigo que restara decidiu
ir embora do país. As lembranças de seu filho o estavam sufocando.
A mãe de Alcádia, sua parenta
mais próxima ainda viva, tinha partido para a Espanha pouco antes de eles se
envolverem com o movimento. Chorou lá, sozinha, a morte da filha e não entrou
mais em contato com o genro por muito tempo. No entanto outro fator o
distanciava mais das mulheres que suas crises pós-ditatoriais.
O fato é que ele buscava
tanto os traços de Alcádia em todas as companhias femininas que acabou por
permanecer só. O coração pode até tentar uma segunda chance quando sente que a
primeira não foi verdadeira. No entanto, quando se vive algo tão puro, tão
forte e tão intenso, só essa experiência é válida na vida. Nada substitui. Nada
se compara.
Liu tinha uma certeza
tão grande disso que nem demonstrando todo o amor e compreensão do mundo,
mulher nenhuma conseguiria ocupar o espaço de seu único amor.
A primeira a tentar algo
nesse sentido foi a babá dos meninos.
Ela deu muito de si
àquela família em declínio. Abandonou seu próprio lar para isso. A princípio
seu marido não entendia o fascínio que as crianças exerciam sobre ela. Eram
dois órfãos como tantos outros que existiam por aí.
Nancy não gostava
quando o marido falava dessa maneira. Soava um tanto bárbaro esse modo de se
expressar. “os pobrezinhos nem chegaram a merecer um olhar da mãe. O pai nem os
conhecia e já estavam com dez dias! Pra que trazer ao mundo se não saberia o
que fazer com eles”?
Os primeiros momentos
naquela residência lhe cortavam o coração.
Aqueles seres tão doces
ali a mercê de sua sensibilidade ou falta dela. Só tinham a ela no mundo porque
filho nenhum merece um pai que os ignora todo o tempo. Nem que seja para pegar
no pé, dar uma bronca ou mandar que moderem no doce.
Um filho precisa do
olhar dos pais para crescer saudável. Para se sentir amado, ou mesmo necessário
na vida de alguém. Sem isso, ainda que tenha todo o ouro do mundo, a existência
não faz sentido. Não vale a pena. As conquistas são inglórias e o ser se forma
defeituoso.
Nancy sabia muito bem
disso. Ela mesma fora uma criança muito pobre, não que estivesse em melhor
situação agora, mas na infância, havia dias em que faltava até a farinha que
normalmente a mãe usava para fazer o pirão de ovo que seria a única refeição
diária dela e de outros cinco irmãos. Às vezes ela entrava em parafuso quando
lembrava essa dureza.
Não entendia como os
pais sendo tão pobres tinham se animado a cumprir tão seriamente a ordem de
multiplicar e encher a terra. Para quê tanto filho se o que tinham não seria o
bastante para um só?
Enfim. Essas eram
coisinhas que ela não entenderia muito bem nunca. Mas de uma coisa ela nunca
duvidou: seus pais a amavam profundamente. E tinham o mesmo sentimento por cada
um de seus irmãos. Poderia faltar tudo, vestes, alimentos, remédios, estudos.
Mas o amor não! Isso os cinco receberam com sobra. Tanto que agora ela tinha o
suficiente para repartir com os pobres órfãos e até mesmo com seu patrão
rabugento e depressivo.
Durante vinte dias não
voltou para casa nem telefonou ao seu marido. Sempre as voltas com os
enjeitadinhos. Quando se lembrou do marido e resolveu aparecer em casa,
encontrou uma longa carta contendo lamentos, acusações e uma chorosa despedida.
Pensou que mais tarde resolveria esse problema. Tinha que voltar, os garotos
agora eram sua única ocupação.
Depois de três anos
eles foram encaminhados à creche. Como lhe sobrasse um tempinho para respirar
por conta própria foi atrás do marido outra vez. Ele estava vivendo com uma
garotinha anos mais nova. Tinham até uma filhinha. O marido não precisava mais
dela nem a queria por perto. Apenas pediu que ela lhe concedesse o divórcio.
Precisava legalizar sua nova situação. Não havia nada que ela pudesse fazer
agora a não ser assinar. Dedicara tempo demais à família alheia e a sua se
deteriorou completamente.
Com os pequenos na
creche ela não tinha mais tanto o que fazer na casa então passava horas no
velho parque próximo à residência. Aprendeu a conhecer cada plantinha daquele
lugar e as chamava pelo nome. Adorava quando as folhas coloridas caíam sobre
sua cabeça. Um vento suave soprava anunciando a chuva que se aproximava. Nesses
momentos voltava para casa e encontrava o patrão ainda em volta da longa mesa
de mármore escrevendo e revisando papeis de sua empresa que começava a se
tornar notável. Ela se sentava na rede da varanda, cuidadosamente armada de
forma a lhe permitir observá-lo sem ser vista.
Duas solidões na mansão
que pertencera ao médico e que foi ofertada ao seu patrão quando aquele
resolveu se expatriar. Uma casa tão bela, arejada, grande construída para ser
habitada por uma família numerosa. Entretanto o doutor tivera apenas um filho e
resolveu permanecer sozinho depois do falecimento da esposa, quando o menino,
Robert, contava uns sete anos mais ou menos.
Ele alegou que não
tinha mais prazer nenhum em continuar ali no lugar onde enterrou os mais belos
sonhos de sua vida tendo lutado tanto para manter vivo o sonho de outros.
Apegara-se a Liu como a um filho e o nomeou seu único herdeiro passando a este
sua herança mesmo antes de morrer.
PARTE III
BRUTALIDADE
VII – O INOCENTE
Um dia, quando pela
enésima vez pensava nessas coisas, Nancy começou a lançar outros olhares para o
patrão: “bem apessoado, jovem ainda, e podia-se dizer que era um homem rico.
Entretanto não se casara novamente. Sequer apareceu com alguma namorada em casa
nesses três anos”.
Com jeitinho ela foi se
aproximando. Dizendo coisas que ele queria e precisava ouvir. Decidiram tentar
a vida juntos. Já que eram mesmo seres largados no caminho.
Ele pensou que daria
certo porque ela, como ele, vivia em função das crianças. Na pior das hipóteses
teriam algo sobre o que conversar. No começo foi legal. Nancy era uma boa
mulher. O diabo é que apesar de toda a amabilidade, ela não tinha o sorriso de
Alcádia nem sua inteligência e resignação. Apesar disso os dois iam bem. Havia
uma tensão ou outra na convivência, mas superavam as crises na maioria das
vezes.
Com o tempo ela foi se
tornando arredia, amarga e já não parecia a mesma mulher afável que esteve ao
seu lado nos maus momentos. Ao contrário. Falava demais e sempre na hora
errada.
As pessoas nem sempre
conseguem chamar o silêncio para aconselhá-las na hora da ira. Extravasam toda
a sua fúria em palavras tolas e desnecessárias. Elas não entendem que um pedido
de desculpas não tem a propriedade de curar um coração ferido por uma palavra
maldita.
Nancy cometeu esse
pecado que para Liu não tinha perdão.
Ele que nunca brigara
com sua amada nem ouvira ou dissera para ela algo depreciativo, chegou um dia
em casa e encontrou a babá enfurecida, quebrando louças e xingando as crianças.
Ela que nunca erguera a voz para nenhum deles até ali.
Os meninos estavam em
transe, ele ficou sem reação na hora, trancou-se no quarto e ela ficou ainda mais
irritada, como se fosse possível. Foi atrás esmurrando a porta e gritando. Lá
de dentro ele quis saber o motivo da revolta.
Deixei minha vida por
vocês, passo o dia inteiro trancada nesse inferno cuidando dos seus filhos e
você entra mudo e sai calado todos os dias. Me trata como se eu fosse uma
escrava de vocês e ainda me obriga a receber cartas de suas paqueras? Berrou
ela.
Ele tentou argumentar
que vivia para os filhos e para o trabalho, foi pior tentar consertar. O
remendo novo fez o pano velho ruir de vez: Você ainda admite não ter um lugar
pra mim em sua vida? Acorda de uma vez palerma! A Alcádia morreu. Não adianta
viver como se esperasse ela voltar. Nenhuma mulher vai tolerar por muito tempo
sua indiferença. E eu já estou no meu limite ouviu? No meu limite!
Ela saiu batendo a
porta. Liu abraçou os filhos e chorou outra vez toda a dor das crianças órfãs
junto com a dor de sua própria orfandade. Pois era, ele também, órfão de amor.
Órfão de vida. Sua alma partiu no último suspiro da esposa. Agora, seis anos
depois Nanci, a mulher que quase o fez esquecer essa dor, abriu a ferida
novamente e deixou sangrando.
Ela nunca aprenderia a
virtude de ficar calada esperando que a morte do dia assassinasse a ira e a
revolta nascidas de um descontentamento qualquer. Para que o despertar de um
novo dia não trouxesse consigo amargas recordações e a necessidade de um pedido
de desculpas. Muitas pessoas passam a vida sem descobrir a grandeza dessa
paciência, por isso extravasam em gritos e quebradeiras toda a fúria de um
momento passageiro. Esquecem-se que não há meios de remendar feridas no
coração...
VI – O SUPLANTADOR
Depois que se acalmou
ela veio mostrar a carta que teria desencadeado toda a revolta:
“Querido
Liu. Há tanto tempo não nos falamos. Eu precisava desse tempo distante para
curar meu coração. Acho que agora já estou bem. Podemos retomar nossos
caminhos. Refazer nossas vidas. Preciso voltar pra perto de vocês. Conhecer os
meninos. Estou morrendo de saudades. Aguardem-me. Aparecerei em breve. Beijos, Marry”.
Ele leu a carta sem
emoção, dobrou o papel e informou friamente: “Marry é mãe de Alcádia”.
Nancy ficou sem graça.
Mostrou arrependimento e pediu desculpas. Ele disse que seu coração não se
reconstituiria com um pedido de desculpas. Que estava sensibilizado demais para
esquecer tudo o que ouviu. E que seria melhor ela ir embora agora. Eles nunca
voltariam a ser um casal. Nem a sua confiança para tomar conta de seus filhos
ela tinha mais. Seu destempero havia sido gravíssimo. Deletando os seis anos de
dedicação total, Liu se recordava apenas da gritaria das últimas horas.
Ela se foi.
E sempre foi assim.
Todas as namoradas
posteriores o acusaram de indiferença e ele mandou que elas o deixassem com sua
solidão.
Acabou desistindo de
procurar uma nova esposa.
Alcádia era
insubstituível.
Os meninos tiveram
mesmo só a referência paterna, sendo Liu a única criatura humana com quem
puderam manter algum vínculo emocional.
Os
dois eram seres desprezíveis, embora Um (o da pá) tenha sido mais dócil que o Outro
(o da picareta) este sempre foi mais dissimulado. Talvez o momento agora seja
oportuno para rememorar aquele episódio do assassinato do gato que acabou
marcando a entrada dos dois para o mundo negro e sujo da criminalidade e da
corrupção.
Pois bem, o gêmeo que
tinha nas mãos a pá, realizando o processo de enterramento dos mortos
imaginários, às vezes tinha uns ataques de bom senso e se via lamentando o fato
de ser tão vil.
O Outro, que perseguiu
o irmão com a picareta levando aquele a matar acidentalmente o bichano não se
atormentava tanto com o resultado dos delitos. Era naturalmente perverso e, na
adolescência saía com todas as namoradinhas do irmão que em alguns momentos era
elogiado pela escolha de um programa que não havia realizado, em outros,
censurado, ignorado até, por uma garota que se despedira apaixonadíssima apenas
três dias antes. Esse Um explicava-se com o ditado tão popular: “o que querem
as mulheres? São todas loucas, afinal”!
Ele só entendeu esses
ataques quando uma namorada com a qual havia terminado seis meses antes
apareceu grávida, jurando que era dele o bebê e obrigando-o a assumir. O estado
era recente: dois ou três meses.
Descortinou no ato a
sordidez da trama do Outro, mas, como negar o fato sabendo que esse bebê provavelmente
teria DNA igual ao seu? E o filho da puta ainda negava de pés juntos qualquer
envolvimento com a regateirinha. O jeito
foi assumir a barriga. Tratá-la com todo o carinho do mundo e chorar rios de
lágrimas no velório da descarada que o traiu com seu próprio irmão.
Desse crime ninguém
poderia acusá-lo, já que em tantas outras vezes, viu-se induzido pelo Outro a
matar, arriscando-se e expondo-se nesse ato.
Desde o primeiro
momento, acostumou-se a ser cúmplice do irmão em suas traquinagens. Ao menos
desde que se podia lembrar. Carregava a culpa por coisas bobas e
insignificantes. E também por acontecimentos sérios.
Tudo bem.
Para mantê-los unidos,
faria tudo o que estivesse ao seu alcance. Suportaria tudo. O irmão saberia
recompensá-lo depois, caso precisasse algum dia.
Irmandade para ele era
isso até o Outro vir com aquele papo absurdo de que não engravidara uma garota
usando seu nome (ou mais que o seu nome no caso). Dessa vez brigaram feio.
Jurou pela alma da mãe que vingaria essa traição, pois nunca tinha saído com
qualquer “peguete” do Outro.
V – O INOCENTE
Um deles estava
mentindo. O velho tinha certeza disso quando via os dois se denegrindo, se
acusando. Chegando as “vias de fato” em alguns momentos pelo filho que nenhum
queria assumir. Mas, o diabo é que a inocência expressa nos olhos de ambos ao
jurar negativamente era tão divinal que ele não poderia dizer qual era o
sacana.
Pai, eu não sei como
isso foi acontecer!
Como assim? Meu filho,
você nunca ficou com ela?
Claro que sim, ‘né’.
Mas a gente tinha terminado a um tempão.
Quanto tempo, mais ou
menos?
Uns seis meses. Eu acho.
E como ela pode jurar
que o pai é você?
Então, tenho certeza
que o pai é o Outro. Mas ele nega o tempo inteiro. Por isso temos brigado tanto.
Ele teria coragem de
fazer isso com você?
Sim. E o pior é que
essa não seria a primeira vez! É a traição mais grave, é claro, porque agora
tem uma criança em jogo, porém, não é a primeira vez que ele sai com uma
namorada minha. Ele só foi apanhado em falta porque eu me esqueci de comentar
que já tinha terminado com ela. A Silene não aceita isso. Ela acredita
realmente que era eu o tempo todo!
Houve um momento que o
pai chegou a cogitar na hipótese de os meninos estarem sendo vítimas de uma
armação infame. Ele acreditou nisso até a esposa (não) amada de seu garotinho
ser morta em um fim de semana na casa de campo.
Tudo estava bem na
sexta-feira. No sábado, ela decidiu repousar no sítio por dois dias e dirigiu,
sozinha, os vinte quilômetros que levavam ao sonhado paraíso. Como não houvesse
retornado na terça-feira, o sogro foi procurá-la. A pobre jazia no sofá da
sala. Fora vítima de estrangulamento.
A casa não havia sido
arrombada.
Todas as portas permaneciam
trancadas e a chave de Silene ainda estava na bolsa dela. Nenhum dos rapazes
estava na cidade. Como o velho houvesse sido a última pessoa a ter contato com
a falecida, foi levado para apodrecer na cadeia, pois, a promotoria conseguiu
enquadrá-lo em quatro artigos criminais hediondos.
IV – O PRISIONEIRO
Ele entrou na sala de
audiência com olhos de fera.
Ninguém tinha o direito
de acusá-lo por um atentado contra sua menina.
Justo ele que fez de
tudo para ajudá-la.
As mesas estavam
dispostas em diagonal de modo que ele podia observar de frente a platéia que se
aglomerava em seu julgamento.
Estava armado o circo e
ele era a atração principal. Só que, a despeito de um espetáculo comum, as
pessoas não o aplaudiam.
Xingavam-no.
Os gêmeos mantinham uma
distância considerável da cúria e evitavam olhar-lhe nos olhos.
Onde foi que errei com
essas serpentes?
Ninguém mais que eu
sabe essa resposta!
Cada vez que passei-lhes
a mão nas cabeças, evitando fustigá-los com a vara, lancei-os um pouco mais nos
braços do caos.
Mimei-os demais,
enquanto os amava de menos. De muito, muito menos!
É sempre assim.
O mimo encobre uma
carga excessiva de desamor, e eu
?
Desculpe, Doutor. Não
ouvi o que o Senhor disse.
?
Ah, sim. É só o que
tenho feito, Doutor. Jamais me neguei a dizer a verdade. Sou realmente inocente
e, é exatamente isso que direi ao excelentíssimo Senhor Juiz. Eu jamais mataria
a Silene.
Que palhaçada este
julgamento.
Como é que o ilustre
Doutor Liu acaba em uma situação como esta. Como poderei convencê-los de minha
inocência neste crime?
?
Juro.
?
Sou Liu.
Sim. Vou relatar os
fatos da maneira como aconteceram. Na Sexta-feira que antecedeu o homicídio,
minha nora, a senhora Silene, decidiu ir passar o fim de semana na chácara. Nós
estávamos almoçando quando o telefone tocou. Ela falou rapidamente e voltou à mesa
apenas para me avisar que subiria à serra queimada imediatamente. Perguntei
quem tinha ligado, ela desconversou. Tentei argumentar que não era bom ela
viajar sozinha naquele estado em que se encontrava.
?
Claro. O estado de
gravidez, com efeito.
?
Pois bem, disse que
tiraria plantão no fim de semana, mas que iria com ela na segunda-feira, caso
ela esperasse. Não funcionou.
?
O meu argumento. Ele
não funcionou Senhor promotor. Prosseguindo. Aconteceu que tive um contratempo
depois e acabei não comparecendo ao meu plantão.
?
Questões de ordem
doméstica, Senhor promotor. Não vem ao caso agora.
?
Me desculpe. Então, na
terça-feira, como ela não telefonasse, me preocupei e subi à Serra Queimada
para ver como ela estava. Chegando lá, entrei na casa e a encontrei
estrangulada, com um corte na barriga por onde haviam tirado o bebê. Me
desesperei e, como sou médico, me julguei capaz de reanimá-la, por isso toquei
no corpo. Quando constatei que ela já estava sem vida, chamei a polícia de
plantão. O que eu mais queria era que a polícia tivesse me apontado o culpado
pelo homicídio. No entanto, fui tomado como o principal suspeito e conduzido
algemado à delegacia. Excelentíssimo Senhor Juiz, Senhores juRADOS, EU NÃO
ASSASSINEI SILENE! EU NÃO TERIA MOTIVAÇÃO, NEM CORAGEM PARA COMETER TAMANHA
BRUTALIDADE! EU AMAVA MINHA NORA E SONHAVA COM O NASCIMENTO DO BEBÊ!
?
Me desculpe, meritíssimo.
Vou me conter. Eu só não atinei que
estava gritando, eu só queria. ... Eu jamais a teria matado... Eu nunca faria
algo assim... É uma...
O julgamento se
estendeu por vários dias.
A família de Silene
ansiava por justiça.
Testemunhas ouvidas...
Sentenças discutidas
pela plateia...
Pela mídia...
Pelo júri...
Enfim, o veredicto
final:
Condenaram-no a 27 anos
de reclusão em regime fechado.
III – O SUPLANTADOR
Os meninos ficaram
injuriados com o resultado do julgamento.
Que motivos o velho
poderia ter para assassinar a nora e o neto? Só uma mente extremamente poluída
poderia pensar algo assim, tão ilógico, irracional, sem nexo. Tão desumano
enfim.
Agora que se
acostumavam à ideia de ter um bebê correndo pela casa uma tragédia desse
tamanho desestrutura toda a família?
Também, o que o velho
tinha que ir procurar no sítio?
Tudo tinha sido tão bem
planejado.
Os dois tinham o álibi
perfeito: uma viagem de negócios.
Ela ali sozinha.
Encantadoramente morta.
Metade de seus
problemas resolvidos!
O velho só tinha que
ter esperado mais um dia.
O caseiro passaria por
lá na quarta-feira e ficaria tudo certo. Como negaria o homicídio se além dos
membros da família só ele tinha as chaves do maldito chalé?
Estavam divinamente instalados na pousada
imperial. Um deles aguardava o chamado para o anúncio da sonhada tragédia.
O Outro ligou a TV para
se distrair — era um tédio inominável ficar trancado naquele maldito quarto,
mas correr o risco de ser reconhecido por alguém na cidade não estava em seus
planos — no meio do filme chato exibido durante a tarde (a tevê da pousada
infelizmente só exibia aquela programação vazia) ele viu a cara do pai
estampada no noticiário de emergência.
A história do homicídio
já se alastrara como fogo em palha seca de modo que era tarde demais para
qualquer tentativa de acionar uma válvula de escape em benefício do velho. O
jeito era deixar as coisas acontecerem segundo a vontade do destino.
E eles souberam se
aniquilar para que o destino fizesse seu trabalho com uma precisão de grande
mestre.
Estiveram no velório e
no julgamento, é claro!
Choraram rios de
lágrimas em consequência da tragédia e depois não foram mais vistos em
sociedade por meses seguidos.
Só o Braço Direito é
que aparecia de vez em quando para sanar alguma necessidade básica como a
provisão de víveres para os gêmeos, dar instruções aos funcionários do
escritório e coisinhas do gênero.
Não falava com ninguém
sobre os meninos e trancava-se outra vez.
Nenhum ser vivo teve
permissão para entrar na casa, o santuário particular das pobres criaturas até
que uma nova tragédia veio abalá-los.
Em um momento
inoportuno Um deles começou a pensar na situação do pobre pai. Não que sentisse
algum remorso por ele, mas queria entender por que aquela vadia foi se tornar
tão cara ao sogro.
O que ela tinha de
especial em si? Como saber agora que não havia mais solução? Ele perdeu horas
de seu dia precioso lembrando os belos olhos azuis naquela encantadora face
ruiva.
Aquele corpinho
indiscutivelmente na moda. Magérrima e super bem cuidada. Estava com tudo em
cima, mesmo em adiantado estado de gravidez.
Era realmente muito
linda a diaba. Mas, precisava ser tão interesseira?
Não fosse seu caráter
vil e seu desejo de ascender ainda mais socialmente, galgando os degraus de um
casamento vantajoso, poderiam ainda estar se encontrando as escondidas como
costumavam fazer.
Ele avisara que não
haviam sido talhados para o casamento. Ela, no entanto, tinha dessas
imbecilidades.
Apesar de predicar aos
quatro ventos sua total aversão a toda forma de romantismo.
Quem pode entender as
mulheres?
Quem pode explicá-las?
É tarde demais agora.
É sempre muito tarde
quando se decide repensar os erros do passado.
Teria que conviver com
essa culpa mesmo não sendo seu remorso tão grande ao ponto de levá-lo a
confessar que ele mesmo...
Não!
Nem mesmo a um indigno
papel contaria que...
Não contaria mesmo a
ninguém e pronto! Todas as vezes que falou com o alguém sobre seus medos, sobre
suas culpas sentiu-se injuriado.
Incompreendido.
Não diria nada agora,
nem mesmo ao...
II – O INOCENTE
A chuva caia mansa lá
fora. A tempestade se abrandara e gotas suaves se sucediam na queda como um
abraço de mãe.
Era exatamente assim
que mimetizava um abraço de mãe.
Nunca teve um.
Assim como nunca tomou
um banho de chuva.
Uma vidraça sempre o
separava dela da mesma forma que uma espessa cortina de vida o distanciava de
sua mãe.
Pensando bem, ele se
tocou, nesse ponto da reflexão, de que a criminalidade estava presente em seu
gene formador.
O gato não havia sido
sua primeira vítima. Matara antes sua própria mãe. Nem que quisesse se
regenerar não lhe seria permitido.
Trazia o inferno na
alma e muita dor aos que o cercavam.
Como “Tristan”, seria a
pedra na qual todos os que o amavam se estilhaçariam.
Com a diferença de que
ele, pelo ao menos, não amava ninguém.
Não acreditava em
nenhuma relação externa de amor. Julgava morta qualquer expressão de romance.
O tempo agora não era
mais para manifestações de romantismos e sentimentalismos reais ou escritos.
A expressão total e
inconfundível do nada vigorava agora.
De forma que não
estaria disposto a se sacrificar por ninguém.
Nem mesmo para fazer
história morando no imaginário das pessoas.
Jamais.
Mudaria o curso de sua
vida para encostar seu caminho ao caminho de alguém?
Nunca.
Dividira o útero
materno, é verdade!
Porém, não dividiria
mais nada nessa vida!
As águas caiam
torrencialmente lá fora.
Ninguém, nessa vil e
podre existência lhe arrancaria a doce certeza de sua inocência...
Desde que conseguia se
lembrar, os delitos que cometera foram induzidos por Outro.
Agira sempre em função
do Outro.
Nunca de si ou por si.
Sua consciência não
poderia se permitir um abalo, mínimo que fosse.
Sim.
Certamente, era
inocente.
Era inocente?
PARTE IV
O INFERNO SERIA
A ÚNICA RECOMPENSA
CAPÍTULO I – OS FILHOS
DA MÃE
Ele ansiava pela
tempestade. Desde muito cedo se acostumou a correr na chuva. Tinha a ilusão de
que aquelas gotas Divinas correndo por seu corpo tivessem a propriedade de
expiá-lo de suas culpas mais sombrias.
Desejava que a
impetuosidade do raio pudesse transportá-lo para os braços aconchegantes da mãe
que não teve.
Por vezes culpava-a de
tê-lo abandonado indefesamente aos leões.
Acreditava que a droga
da sua vida teria sido diferente.
Se a tivesse consigo...
Hoje não correria na
chuva porque quando o fazia, imaginava as lágrimas da mãe se derramando em seu
favor. Rogando piedade para o filho perdido.
Hoje, sobretudo hoje,
não ansiava por nenhuma forma de piedade.
Mais do que nunca,
tinha certeza de que não a merecia.
Por sua última ação, o
inferno seria a única recompensa esperada.
O inferno.
Somente o inferno.
Faria sua escalada a
passos largos a partir de agora.
Costumava perder um
tempo precioso tentando entender o medo que o irmão tinha da chuva.
Ele era de uma coragem
admirável para encarar os reveses da vida fossem da natureza que fossem.
Inclusive os mais escabrosos. No entanto, tremia de medo de raios e se abalava
profundamente com receio dos trovões. Nunca ouviu de um dia em que o aquele
tivesse andado na chuva.
Virou-se para
contemplá-lo um instante e viu Um minúsculo indício de ter diante de si uma
criatura humana.
Talvez o único indício
em toda a sua miserável existência: presente, passada e futura.
Havia lágrimas em seus
olhos ferinos.
O Outro comentou que
não estava disposto a ceder e sacrificar sua juventude e liberdade em favor do
velho. Por isso, não conseguiria vê-lo atrás das grades. Nesse momento ficou
acertado que o velho não receberia a visita de nenhum dos dois.
Também estou mal por
ele. Você sabe que o velho era tudo para mim, mas não tem outro jeito cara. A
gente teve um trabalhão para cuidar de tudo. Não dá para jogar tanto
investimento fora, não é? Você, mais que todo mundo sabe que não tínhamos
escolha, era ele ou nós. Qual é mano? A gente é ou não é uma equipe? Sempre
unidos! Lembra? Quando tudo tiver passado ainda teremos nossa parceria! Cara, você
precisa superar essa fase, veja como deu tudo certo pra nós até aqui. Ninguém
desconfiou ou acusou na data. Tudo certo! Relaxa aí, vai...
Eu sei cara. Mas, pô, é
o nosso velho. Eu não esperava ter que chegar a esse nível de frieza.
Beleza ‘rato’, vai ter
crise de consciência agora? No meio da tempestade? Passa amanhã cedo, caramba!
Talvez até lá a irritação esteja maior e eu lembre algumas coisinhas que a
gente fez, só para refrescar sua ‘consciência podre’. Você não vai querer
rememorar tudo... Vai?.
Você é desumano ‘pô’!
Se soubesse que daria nessa merda toda, não teria entrado no jogo!
É? Mas agora que entrou,
não vem rezar tirando onda de freirinha não. Se liga ‘rato’! Tem mais volta
não! Já entrou no fosso, agora é só manter a boca fechada para não engolir a merda!
Ok?
Nesse instante um raio
invade a sala e o acovardado, completamente pálido se retira para o quarto.
Nos três primeiros dias
após a retenção do velho a convivência entre os dois ficou bem difícil. Um
acusando o Outro de tê-lo envolvido em sua rede. Depois, cada um por sua vez
deixou de dar importância ao fato. O velho foi esquecido de vez no passado e os
gêmeos voltaram as suas práticas cada vez mais desumanas.
Não fazia mesmo sentido
uma crise súbita de consciência em seres completamente inconscientes.
Mergulharam então na criminalidade, sua vivência comum.
Sacrificar duas ou três
almas em benefício de seu império era um ato quase que diário. A quem mandara
ao inferno toda a base e estrutura familiar, o resto do mundo não tinha a menor
importância.
Para eles não tinha
realmente.
Usavam as pessoas como a
ferramentas para descartá-las no final como a roupas velhas.
Quando surgia alguma
recriminação, o ofendido saia-se com:
Lave essas mãos imundas
para tocar minha pele, ‘santo’. Somos forjados do mesmo barro!
O fato é que eram mesmo
constituídos da mesma lama podre.
A mesma água fétida
circulava no corpo de ambos em forma de sangue. A mesma massa desprezível
formava na caixa encefálica da dupla algo que seria injusto denominar cérebro.
Ambos reprováveis e
vis. Nada tinham em si do ‘bom gene’ do pai que os gerou? Nada da bondosa e
amável mãe que os carregou no ventre!
Não tivesse morrido no
parto, Alcádia teria se matado de desgosto ao ter contato com as bestas que
produziu.
Sua criação estava
miseravelmente perdida.
CAPÍTULO II – A MULHER
O golpe sofrido não
poderia ter sido pior para Liu. Se soubesse a tragédia que o aguardava ali
teria ficado em casa, trancado em seu quarto com a cabeça coberta. Se bem que
precisaria de um álibi para provar que não se afastou da cidade a semana
inteira. Recapitulando... Teria saído para almoçar e jantar com uns três amigos
diferentes todos os dias.
Agora não tinha nada a
fazer.
Não conseguia pensar em
um Barrabás autêntico para a ocasião. Poderia ser até Um dos meninos...
Talvez!
Qual deles?
Quando estava sendo
conduzido à detenção se lembrou do último discurso de Alcádia e lamentou: “Você
só se enganou em uma coisa meu bem: unidos ou separados eles seriam maléficos.
Eu sempre tive uma leve desconfiança. Mas, meu coração de pai queria se
enganar. Ele não podia se negar o benefício da dúvida. Fiz de tudo por eles e
olhe só aonde eu vim parar? Se você ao menos tivesse me contado o mal que viu
naquele dia, eu teria tentado evitar.
No fundo, eu sempre me
senti culpado por você tê-los rejeitado no leito de morte. Fiquei mal no
primeiro momento e não quis olhar para eles. Porém, quando me dei conta do que
estava fazendo, retrocedi trezentos e sessenta graus para compensá-los por tudo
o que deixariam de ter em sua ausência.
Enfim, tentando ser um bom pai não os
repreendi quando foi necessário, não me impus em tempo oportuno, nem mostrei os
limites que precisavam e, com isso, acabei nos desgraçando a todos.
*********************************************************************
É típico dos sacerdotes,
passar de largo.
O cidadão estava ali à
beira do caminho.
Não. Não estava ferido.
Pelo ao menos não visivelmente. No entanto, tinha os traços psicológicos de
alguém machucado interiormente. Pisoteado pelos inimigos da alma (vícios e
marcas de subjugo) aquela criatura gemia como quem está à beira de um poço
depois de escalar quilômetros para chegar até ali.
Ele só queria que qualquer
humano lhe estendesse a mão e o levita passou...
Passou. No entanto,
estava ocupado demais. Era o dia reservado para providenciar o sustento de sua
casa. Definitivamente, ele não tinha tempo para ouvir o que aquele moço tinha
para dizer sobre auxílios e recuperações. Precisava voltar antes das onze
porque a família o aguardava em volta da mesa com as orações já realizadas.
Faltava mesmo só a refeição que cabia a ele levar ao lar.
E então, veio o
sacerdote.
Ele caminhava altivo,
com ares de indivíduo agitado por fortes preocupações: tinha a prestação de seu
carro importado que, no momento lhe parecia alta demais;
A sede passava por uns
probleminhas financeiros;
Tinha a pintura de sua
rica habitação. Afinal, já ia fazer um ano que ele a reformara pela última vez
e agora não conseguia chegar a uma decisão quanto à cor a ser usada nessa nova
pintura;
E ainda tinha o
afastamento de alguns de seus fieis. Não que esses fossem assim tão importantes
e necessários para sua instituição. Porém, a contribuição financeira deles
costumava ser polpuda.
Enfim, seu andar e
aparência eram tão imponentes que o pobre cidadão da beira da estrada sequer
teve coragem para se aproximar e direcionar seu pedido.
Infelizmente aquele
pobre diabo se encontrava a uma considerável distância de Samaria ou mesmo de
Jerusalém. De modo que nenhum samaritano chegaria a cruzar seu sofrido caminho
naquele dia.
Para sua desgraça, Um
dos gêmeos o encontrou ali “ferido”, “largado” e, traço atípico em sua
personalidade, decidiu estender sua malévola mão errante.
Levou-o para sua
própria estalagem, gastou o que foi preciso para deixá-lo são. E quando a dor já
era finita, disse como quem não gostaria de dizer:
“Reza a lenda que
quando a vida do guerreiro é salva por Um indivíduo, o infeliz fica obrigado a
servi-lo até ter a oportunidade de lhe retribuir o favor. Como não acredito que
eu vá precisar de tua intervenção para salvar-me a vida, tomo tua alma por
despojo e ficas a meu encargo. Consideras uma ação justa”?
Quem seria louco de
discordar para ir mais cedo abraçar o capeta?
O infeliz não foi.
Assim, passou a ser a “mãozinha”,
a força necessária em todas as ações geminianas.
O Braço Direito com o
qual os dois contariam na vida. Ou, para encurtar conversa: apenas o Braço!
A primeira ação que o
incumbiram de articular tinha a ver com Silene.
Ela era uma garota
comum.
Bem educadinha até. Não
pertencia a classe alta, mas era de uma fineza admirável. Logo que contou da
gravidez provocou um desarranjo no mundinho de Liu.
Os meninos, que até ali
estavam sempre unidos, começaram a se enfrentar constantemente. Por isso a
menina não foi bem aceita pelo velho no início. Seu gesto cheirava a armação.
Quando ela foi expulsa
de casa pelo pai super conservador que não aceitou o estado da filha, Liu a
acolheu em seu lar.
Mesmo não acreditando
em sua história, ele não poderia suportar a ideia de que a possível mãe de seu
neto, ou neta, ficaria na rua sem ter para onde ir. Com o tempo ele viu que ela
era uma boa moça: gentil, amável e prestativa.
O velho achou um
paraíso todo aquele mimo feminino outra vez. Há tanto tempo ele e os filhos não
dividiam o ar daquela casa com uma mulher. Tudo por ali tinha características
que faziam saltar aos olhos a essência da dominação masculina. E de repente, um
perfume doce e envolvente passou a se exalar em todos os imensos cômodos da
mansão. A passagem de Silene por ali foi rápida, mas tão marcante que o velho
pensou mesmo que não poderia mais viver ali com a ausência dela. Ela foi por um
tempo a filha que ele gostaria de ter tido.
Um dos gêmeos decidiu
assumir o filho e mudou com ela. Estavam sempre juntos e era um nojo ver os
dois de beijinhos, abraços e tudo o mais. Por isso não mereceu a desconfiança
do pai quando do assassinato. Porém os dias iam passando e como nem mesmo ele
apareceu na cadeia, o velho passou a desconfiar dele também. Apesar de todas as
lágrimas derramadas pela mulher e filho. Nesse momento aquele rio lhe parecia
falso demais. O Outro ignorava completamente a mulherzinha do irmão.
O carcereiro bateu nas
barras de ferro obrigando-o a fugir de seu devaneio. Forçado a abrir os olhos
Liu ouviu que o cara trazia uma visita. Finalmente, depois de sessenta dias
naquele inferno alguém se dignou a visitá-lo.
Ele atravessou o
corredor mal iluminado rezando para que ao menos Um dos gêmeos estivesse atrás
da espessa porta de ferro.
Apesar de tudo, queria muito
rever seus garotos.
“Preciso olhar nos
olhos deles para entender que espécie de mal os domina. Eles não podem ser
assim tão cruéis se os criei com tanto mimo. Nunca fui religioso, porém tive o
cuidado de educá-los segundo os preceitos Bíblicos. Observei sempre a ordenança
de ensinar o caminho em que deveriam andar, mesmo não crendo muito no que
fazia. Quase entendo bem o ditado: ‘palavras comovem, mas o exemplo arrasta’.
Falei muito com eles. No entanto, nunca dei exemplos. Bons ou ruins. Nada. Fui
omisso nessa parte. Acho que foi esse meu grande mal”.
Ele queria realmente
olhar nos olhos dos filhos para abandonar a horrível desconfiança com a qual
dormira e acordara nesses dois meses.
No entanto, Não era
nenhum dos garotos.
Era o pobre diabo,
acolhido por eles, que vinha manifestar seus pêsames pela condição do velho.
Ele estava triste e meio transfigurado ao dizer que não acreditava que o velho
pudesse ter assassinado a nora.
“Vocês se davam bem
demais para isso. Eu via verdadeira adoração nos olhos daquela garota pelo
senhor. E, me desculpe, mas nos olhos do senhor também morava a mesma adoração.
Era como se ela fosse à filha.”
O velho ficou
extremamente agradecido.
Ninguém demonstrara
tamanha consideração por ele desde que caiu na armadilha. Quando o homem se foi
ele ficou pensando que esse sujeito bem poderia ser um suspeito a mais para sua
lista mental.
Afinal, se Um gêmeo
estrangulou a nora, ele precisou do apoio de seu Braço Direito. E se o Outro
foi o assassino ele pode ter pedido uma mãozinha ao irmão... Que
invariavelmente, teria lhe oferecido o Braço.
CAPÍTULO III – ÓRFÃOS
NA TERRA
Neste tempo de
confinamento aprendi coisas essenciais que não tive tempo para observar a vida
inteira. Aprendi a estar sentado estudando o nascer do som que começa
calmamente no sopro de uma brisa mansa e vai se intensificando e crescendo,
crescendo... Até tornar-se insuportável aos ouvidos de um condenado que deseja
o silêncio eterno!
Agora ouço o ciciar das
brancas nuvens que se tocam levemente no ar e o gorgorejar estridente do vento
tempestuoso lá fora, nas noites de grossas chuvas.
Escuto até o roçar
triste da lua a terra, contando uma história milenar da composição suprema dos
seres, constituídos a imagem e semelhança do Altíssimo, seres complexos com um
corpo! Um espírito. E, uma alma?
Sei lá...
Observei que até as
folhas falam profundo quando caem lentamente do galho. Aprendi com elas que
nada é eterno. Nada permanece milenarmente preso a sua base. Toda potência pode
ruir em um momento não esperado.
Esse aprendizado me
consola.
Um dia serei tronco e
verei minhas folhas podres sendo derrubadas pelo vento tempestuoso de minhas
ações vingativas.
Há uma cerejeira atrás do pátio onde costumo
apanhar sol diariamente e quando o vento roça suas folhas ela me conta
histórias belíssimas de superação, de restituição da liberdade, de vingança,
de...
Até as
plantas falam comigo minha filha, mas você se cala e arrasa meu mundo.
Toda a beleza
constituída, toda a melodia que orquestra a vida não faz sentido em teu
silêncio.
Você me fez
viver realmente, durante o curto tempo que tive a honra de tê-la por perto
senti como se Alcádia tivesse voltado pra me devolver a vida doce que me roubou
há dezoito anos.
Mas é
loucura.
Tudo é
loucura.
São raros
meus momentos de lucidez.
Mas, sempre
que retorno ao juízo perfeito algo me lembra que tive duas grandes mulheres em
minha vida e que na morte de vocês minha graça foi para sempre perdida.
Se pudesse
ao menos provar que eu nunca faria nenhum mal a você, filhinha. Você, não
aqueles desalmados, seres infernais, tinha que ter sido gerada por Alcádia,
minha menina!
Acho que
nenhuma espécie de dor poderá me tocar depois de tê-la encontrado ali, estrangulada
daquela forma.
Metade de
mim havia morrido com Alcádia, a outra foi enterrada com você Silene.
Se algum
dia eu conseguisse provar minha inocência eu voltaria logo para cá porque
ceifaria a vida que dei aos gêmeos.
Não teria
remorsos!
Não desta
vez.
A agonia do
momento nem lhe permitia pensar que os pobres diabos eram carne da sua carne. O
combustível que o movia agora era apenas o forte desejo de vingança.
Os garotos
ignoravam que ele já tinha estado no inferno e se era muito bom sendo o mocinho,
como vilão seria ainda melhor.
A visita do
Braço deu a ele um ânimo novo para agir no intuito de vingar sua querida nora.
Arquitetou então seu plano diabólico, pedindo a esse que o executasse.
De repente,
começaram a se espalhar pequenas intrigas em nome de Um gêmeo e do Outro. Coisinhas
que em situação normal passariam despercebidas, no entanto, no clima de guerra
instaurado no seio da família serviram para abalar profundamente as sólidas
estruturas da sociedade dos meninos.
Liu sabia
que se a confiança ruísse um jogaria ao vento as negociatas
desprezíveis do outro, desencadeando a tempestade que Um deles sempre temeu.
Quem sabe numa dessas o
crime que o levou à prisão voltaria à tona, revelando o verdadeiro culpado?
Ele não teria a nora de
volta, é claro! Porém, uma vez estando em liberdade, poderia refazer sua vida
sem a influência maléfica dos filhos.
Foi aí que tudo começou
a desandar para os meninos.
Os errinhos de ambos
passaram a ser encarados como armas letais e instrumentos cortantes.
Um já não falava mais a
mesma língua que o Outro e temendo a iminência de um grande desastre provocado
pela revolta e arrogância do irmão, foi se afastando das armações e dos
negócios daquele.
O Outro, sentindo-se
traído, sugeriu o rompimento da parceria. No que foi prontamente atendido. Entretanto,
coisas desagradáveis ao seu respeito foram aparecendo tão logo à sociedade se viu
desfeita.
Histórias inverossímeis
e absurdas foram publicadas nos jornais.
Sem que se pudesse
saber de que forma, a narrativa da traição vazou.
O Outro foi acusado de
suplantar o irmão no amor e nos negócios.
CAPÍTULO IV – O ESPOSO
Ele não entendeu no
início como a notícia de seu envolvimento na morte de Silene virou o hit do
momento. Todas as redes explorando o fato sob diferentes ângulos.
Ele mesmo não a teria
vivido com tanta emoção.
É claro que a princípio
negou veementemente. Mas, logo surgiram provas que ele não sabia de onde vinha.
É claro que se soubesse teria mandado o Braço destruí-las há muito tempo.
Se bem que toda essa
tragédia poderia ser armação dele para se vingar dos maus tratos sofridos.
Ele também seria
deletado da história tão logo surgisse uma oportunidade.
Quando aquele rato foi encontrado na sarjeta,
imundo e drogado e decidi patrocinar o seu resgate, pensei que ele me seria
fiel até a morte.
Se bem que...
Ele pode estar me
traindo para acobertar aquele Um... Afinal, foi dele, em última instância, a
mão a acolhê-lo.
Mas não...
Não pode ser...
Aquele patife pensa que
eu não soube de suas piedosas visitinhas ao velho?
O que ele teria de útil
a fazer naquele antro?
Que droga de pacto o
velho tem que as criaturas só permanecem incondicionalmente ao meu lado até
conhecê-lo?
Com a vadia foi à mesma
coisa. Ela sempre soube que era eu pô! A gente era igualzinho na aparência, mas
minha personalidade era mais forte. Todas as nossas namoradas diziam isso...
Por que ela não se
apaixonou por mim com a mesma intensidade com que se encantou com o velho
quando o conheceu? Ou mesmo com o amor que ela fingiu sentir pelo “maridinho”
quando ele decidiu assumir de vez o feto?
Tudo teria sido tão
fácil.
E eu queria tanto o
filho daquela idiota. Mesmo afirmando o contrário.
Ela tinha que saber que
eu só estava fazendo um charminho antes de assumir.
Tinha que ter sido meu
o moleque. Ela de fato, tinha que ter parado de andar com ele como prometeu.
Ele era fraco demais
para tomar qualquer atitude drástica. Mesmo em benefício próprio.
Espera aí, eu não armei,
a merda do assassinato como os jornais estão dizendo.
Eu jamais a mataria não
fosse à influência daquele Um, me atormentando diariamente e exigindo a
reparação por meu inocente atentado contra nossa parceria ‘violando seu leito’!
Há. Há. Há!
Tinha um plano sim, é
verdade, porém eu implorei pra que fosse executado só depois do parto.
Ele tava comigo pô,
então ele também matou.
O que me faz perceber
que ele não era tão fraco assim...
Por que é então, que só
eu fui acusado?
Só eu fui incriminado
pelas malditas provas?
Se ele pensa que vai
sair por cima está muito enganado. Estivemos juntos em cada armação sórdida nos
últimos anos.
Sobretudo, nos últimos
três!
Estou na corda bamba,
mas vou trazê-lo para dançar comigo.
Eu juro!
Vai ser um “puta” balé
em trio, pois o Braço não vai ficar ileso!
Se é que somos realmente
forjados do mesmo barro, então vamos chafurdar na mesma lama podre e deixar que
o velho tenha seu quinhão de liberdade.
Vou abrir de uma vez a
minha boca e contar tudo agora.
CAPÍTULO V – OS PAIS
Como prometera a si
mesmo o Outro falou tudo. Até porque sua negativa só deixava o terreno livre
para aquele Um crescer livremente lançando ramos em todas as direções e botando
raízes onde lhe dava na teia.
O Outro convocou uma
coletiva de imprensa e começou respondendo a pergunta que todos queriam saber:
Não, eu não estava com
meu pai no assassinato da garota. Ou melhor, ele não estava comigo. Nem ele,
nem eu matou ela.
O velho é inocente.
Ele até gostava da
bandida.
Ela foi mais filha dele
em alguns meses do que nós dois em toda a vida.
É verdade que ele
sempre esteve por perto e fez quase tudo por nós, porém não foi capaz de nos
amar. Porque quem ama educa e corrige, ele nunca nos corrigiu.
Talvez nem tenha
reparado em nossos atos ao longo da vida.
Acho que no fundo ele
não nos perdoou de fato por termos matado a mamãe.
Mas isto é uma coletiva
para esclarecimentos não uma sessão terapêutica.
Pois bem, falemos então
do que realmente interessa a vocês.
Eu tive ajuda sim para
arquitetar o assassinato de Silene e essa ajuda veio de meu irmão. Planejamos
matá-la logo depois do nascimento do bebê, no entanto, alguém se antecipou a
nós.
Precisamos viajar
juntos naquele fim de semana. Estávamos juntos quando vimos a notícia do
assassinato.
Embora tenhamos
planejado matá-la, não chegamos a executar o plano, como eu disse.
Não.
Ao contrário do que
vocês podem imaginar, o velho não estava em nossos planos.
É claro que não!
Ele entrou de gaiato
nessa.
O alvo previsto era
outro, mas já que ele tinha sido pego pra Cristo nós não íamos tirá-lo da cruz
não é?
Ele mesmo sempre dizia
que quem tem o rabo de palha não deve se aproximar do fogo...
Porque corre o risco de
sair queimado, ora bolas!
Ou nem sair, como é o
meu caso.
Há, há, há.
Vocês querem saber a
respeito das outras acusações?
O que posso dizer sobre
isso?
Talvez eu seja inocente
em boa parte delas. Culpado de outras tantas.
Sei lá.
Não basta uma confissão
minha para desgraçar, inteira, a vida de nós dois?
CAPÍTULO VI
Não bastava.
E ele acabou percebendo
que não era bem assim.
Um alegou que o Outro o
acusou por medo de pagar sozinho por seus crimes.
Com relação às provas
comprometedoras e às fotografias suas apresentadas na coletiva, disse:
Somos gêmeos idênticos.
Pode muito bem ser ele retratado nessas fotos na tentativa de produzir provas
contra mim não pode?
Eu concordo.
Claro!
Foram estarrecedoras as
revelações feitas por ele.
Fiquei chocado!
Ele estava ali o tempo
todo, sabe? Foi capaz de chorar no velório e no enterro de minha esposa.
Lamentou comigo o desaparecimento da criança.
Dói até hoje não ter
estado com ela naquele momento para protegê-la. Imaginar a dor que ela sentiu
naquele parto forçado...
E depois nosso pai foi
condenado e ele sabia o tempo todo que o velho era inocente.
O velho era inocente.
Ele me fez acreditar na
culpabilidade do nosso velho!
Nosso próprio pai,
merda!
O homem que
praticamente deixou de viver para dedicar-se inteiramente a nós.
Eu jamais imaginei que
ele tivesse tanta mágoa e que pudesse ser assim tão frio.
O amor que ele sentiu
por minha esposa só podia ser uma doença... Uma espécie de patologia
degenerativa...
E essa tentativa de me
envolver em suas armações sórdidas?
Foi um golpe
extremamente baixo.
Éramos sim muito unidos,
mas eu nunca soube nada dos negócios nos quais ele se envolvia.
Não é verdade que eu
possa ter entrado nessa de assassinar minha esposa por ciúmes, vingança ou
despeito, seja lá o que ele tenha inventado. Eu nunca a culpei por ter andado
com ele. Minha amada foi tão vítima quanto eu.
Eu nunca soube que ele
tenha saído com qualquer namorada minha além dela, como foi colocado na
coletiva.
Não!
Claro que não colocaria
minha mão no fogo por nenhuma delas, é só que eu me garanto como homem.
Não, não.
O que posso fazer é
disponibilizar uma lista com os nomes delas para que vocês falem pessoalmente
com elas a fim de saber se foram ou não infiéis quando namoravam comigo como
ele afirmou.
Não parece óbvio demais
que alguém tenha documentado todos os meus possíveis passos na execução de
tarefas tão arriscadas?
Se fosse realmente o
assassino frio e calculista que lhes foi apresentado, eu teria tido o cuidado
de preservar minha identidade, vocês não acham?
É tão evidente que ele
deixou tudo muito bem planejado para tentar me incriminar em alguma eventualidade.
E esse truque de
plantar provas...
É tão antigo meu Deus!
Entendo perfeitamente a
decisão da justiça de me manter sob custódia.
Isso é importante até para minha própria
segurança. Imagine só. Eu não sei com que tipo de serviços ele conta aqui fora.
Pode ser que tenha
colocado alguém a minha espreita, sei lá.
Acredito que estarei em
segurança enquanto tiver alguém do poder executivo de olho em mim.
Ele não tentaria nada
nessas circunstâncias.
Se estou com saudades
do velho?
Morrendo!
Vou hoje mesmo
apanhá-lo no presídio.
Quero levá-lo pra casa
para recuperarmos o tempo perdido de pai e filho.
Sim.
Realmente não o visitei
nos últimos três anos.
É que eu estava sob
forte ameaça, sabe?
Meu irmão me convenceu
de que corríamos um grave risco indo vê-lo.
Não sei bem.
Não faz sentido agora
que ele confessou ser o verdadeiro assassino.
Mas ele dizia que o lugar podia ser barra
pesada e que o velho talvez estivesse envolvido com pessoas muito perigosas.
Que era melhor a gente
não se envolver nessa sujeirada toda.
E até que o velho
poderia mesmo ter assassinado minha mulher. E, nesse caso, eu alimentava uma
certa mágoa em relação ao velho. Apesar de nunca ter acreditado muito nessa
possibilidade.
Acho que estou passando
recibo de idiota. E é exatamente assim que me sinto agora. Um idiota que não
percebeu o tipo de pessoa que tinha a seu lado e que costumava chamar de irmão.
Me desculpem todos
vocês, mas não consigo dizer mais nada agora...
Estou arrasado!
Foi duro demais este
último golpe.
Eu confiava nele...
Era como se fôssemos
uma extensão Um do Outro e ele destruiu minha confiança...
Disse em prantos as
últimas palavras e todos ficaram comovidos com o derramamento de lágrimas.
Ninguém se lembrou que Um e o Outro derramaram lágrimas parecidas no enterro
de sua ‘querida esposa’.
PARTE V
EU NÃO ERA O
CULPADO
VII – O PRISIONEIRO
Só Liu sacou a farsa e
comentou:
Tão iguaizinhos.
Mesma cara de pau.
Mesmo nível de
falsidade.
Duas sementes malditas!
Como chegamos a isso Alcádia?
Que erro nós cometemos
para pagar um preço assim tão alto?
Ele pensa que vai
convencer a todo mundo com esse teatrinho de irmão traído e enganado! Mas pra
cima de mim não! Demorei a abrir os olhos, mas hoje sei exatamente com que tipo
de fera estou lidando.
Sei perfeitamente que
todas as maçãs neste cesto estão podres e que o Braço só está me ajudando
porque não recebia mais contribuições financeiras de nenhum dos garotos.
Vou fingir que entrei
no jogo para saber até onde vai à falta de humanismo de minha prole...
Depois, enquanto finjo
vou recolhendo provas mais contundentes para pegar os dois definitivamente.
Afinal, se levei três
anos para fazer o Outro cair! Posso perfeitamente esperar mais três anos para
desbancar aquele Um.
Se tivesse que gastar
todo o resto de minha vida nesta empreitada eu gastaria. Já que trouxe seres
tão cruéis ao mundo, cabe a mim o dever de livrar o mundo desses seres!
Devo isso a minha
amada!
Como ele pode negar a
traição de cara limpa se ele mesmo me falou de seus temores...
Liu estava revoltado.
Faria de tudo para vingar-se da armação em que caiu. Sua mágoa era tão grande
que virou o rosto ao cruzar com o Outro no corredor da prisão quando voltavam
do banho de sol semanal.
Já se falava em sua ordem
de soltura agora que havia um réu confesso do assassinato, mas havia uma
tramitação legal de papéis que não o deixaria sair antes do fim do dia.
Mesmo virando a cara
percebeu uma mudança considerável no semblante do filho!
Arrependimento?
Não.
Remorso talvez,
denunciado na cara de sofrimento por ter sido apanhado em falta!
De fato, havia algo de
muito sério passando na cabeça do rapaz naquele momento...
Ele desconfiava que não
seria bem sucedido em sua investida contra o irmão e tentava arquitetar um
plano mais contundente para envolvê-lo na rede de corrupções.
VI – O SUPLANTADOR
Agora não me resta mais
nada. O Outro pensava.
Tanto tempo e
investimento jogados fora.
Apliquei todas as
minhas forças na busca pelo crime perfeito e vejam só no que deu... Maldito o
homem que deposita no homem sua confiança.
Essa máxima é
perfeitamente verdadeira quando aplicada a homens. E eu, dominado pela idiotia,
fui confiar todos os meus segredos inconfessáveis a dois ratos.
Sabendo que pisava em
terreno escorregadio, não me preveni o suficiente e aqui estou. Curtindo o
calor desagradável das barras...
Aquele Um conseguiu,
não só, se livrar das acusações, mas também, jogar uma pedra de mármore em
minha fria e pesada existência no cárcere.
Porém, ainda não fui
aniquilado.
Vou dar um jeito de
arrastá-lo até minha cova!
É só uma questão de
planejamento.
Tudo feito com tanto
esmero e com a complacência daquela serpente que jurou inocência...
Nada teria sido
descoberto se ele não tivesse metido o dedo podre em minha defesa...
Agora até o assassinato
que ele arquitetou pesa em meus ombros e toda aquela multidão fica lá fora
gritando por justiça...
Se condoendo pelos anos
que o pai esteve aqui injustamente...
Não me arrependo por
tê-lo deixado pagar...
Ele bem que mereceu por
nunca ter me amado como deveria...
Só me entristece saber
que aquele Um agora desfruta sozinho do império e do prestígio que conquistamos
juntos...
Dizer que Silene traía
de caso pensado não era o bastante. Ele precisava de uma prova escrita, ou
mesmo o testemunho de uma amiga em comum para a qual a mulher houvesse
confessado seu envolvimento com os irmãos.
Então se lembrou de
Simone, a confidente da vadia!
Se conseguisse fazê-la
falar...
Mas de dentro da prisão
não conseguiria fazer contato!
A menos que sua
advogada conseguisse...
Ele tinha ao menos que
tentar!
Em sua primeira visita,
Simone estava bem apreensiva.
A imagem dele estava
queimada demais para inspirar alguma confiança. Porém, depois de um pouco de
mel e algumas promessas de grana alta, a garota acabou concordando em conceder
algumas declarações... e a sacana tinha cartas assinadas por Silene!
Aquele Um estava com a
liberdade por um fio...
V – O INOCENTE
Os pensamentos na
cabeça do velho eram bem de outra ordem...
Mal podia esperar para
contemplar novamente o brilho do sol.
Tanto tempo atrás das
grades já estava mexendo com minhas estruturas.
Por vezes sentia que a
razão estava me abandonando. Nunca pensei tanto em Alcádia quanto nesses
últimos meses.
A degeneração total dos
nossos rebentos me fez lamentar até os bons momentos em que nos amamos.
Se ao menos tivesse
sonhado que uma relação tão doce e pura fosse produzir esses frutos podres eu
jamais teria tocado nela.
Há momentos em que a
culpo pela situação (i) moral dos rapazes, mas então recobro a consciência...
Ela não estava mais
aqui quando eles acordaram para a vida. Se há um culpado, esse sou eu.
Única e exclusivamente
eu!
A Nancy fez o que pode.
Enquanto pode, não é? Quase se aniquilou completamente para dar uma existência
a eles.
Hoje vejo o mal que
fizeram também a ela.
Só criei monstros, meu
Deus!
Como corrigir esse
erro?
Até que ponto eu sou
culpado por isso?
Devo ir agora... O
carcereiro finalmente chegou com minha ordem de soltura.
Agora vou poder
acompanhar de perto “a queda de Um anjo”.
Há, há, há!
Ele se acha muito
esperto em ter deixado o Outro cair sozinho. Coitado!
Não sabe da minha vida
a metade! Se soubesse que consegui passar ileso pelos vinte anos de ditadura,
jogando nos dois times sem me comprometer verdadeiramente com nenhum deles...
Quem poderia imaginar
que o companheiro Liu, tão apaixonado pela incrível Alcádia, líder do movimento
de resistência à repressão, era o mesmo Cel. Sckiamo, ferrenho perseguidor dos
militantes e o militar super conceituado que liderou a investida aos mais
importantes aparelhos dos companheiros?
Alcádia, você
definitivamente não teve responsabilidade na degeneração dos gêmeos!
O gene do mal, o barro
podre estava em meu fio de costela. Você era um anjo minha amada!
O tempo que estive em
reclusão me fez perceber o quanto fui injusto com você e com a causa da nossa
vida.
Mas eu tinha que fazer
algo pelo país entende?
Eu precisava escrever
um capítulo interessante em nossa história. Era um sonho estar entre os
vencedores.
Você há de entender,
minha querida, que naquele momento os ditadores é que estavam vencendo.
Eles tinham as melhores
propostas de governo. Estavam conduzindo o país a um avanço econômico nunca
antes contemplado e, se de fato perseguiram alguém, o fizeram em nome da moral,
da ordem e dos bons costumes! Convenhamos que nenhuma pessoa de boa índole foi
retirada do seio de sua família. Os perseguidos eram, em sua maioria,
arruaceiros e anarquistas! Não eram?
Alcádia, querida, apesar
de lhe ter declarado amor eterno, história é história não é, meu anjo? E, cá
pra nós, sempre fui apaixonado por ela.
É isso aí!
Vocês devem estar
revoltados porque eu, assim como meus rebentos, traí pessoas e ideais que amava
mais que tudo nessa vida. Como eles, fui o principal responsável pela morte da
única mulher que amei de fato!
Sinceramente, eu
poderia ter feito mais pela mãe dos meus filhos...
Se não a tivesse
induzido a se envolver no movimento anti-repressão, talvez ela pudesse ter se
tratado em uma das ótimas clínicas da capital. Mas não era viável, naquele
momento.
Não há um só dia em que
eu “tantas vezes reles”, não me arrependa pelo mal que causei a Alcádia.
Depois, não me perdôo
pela falta de coragem em me denunciar para ela.
E ela ali o tempo todo,
como uma ovelhinha... Pensando que o marido estava sacrificando sua liberdade
por ela enquanto eu agia apenas em interesse próprio.
Que desperdício de
vida!
Quando me retirei para
aquele sítio estava comemorando a condecoração pela maior ação de minha vida
militar! E usei a desculpa de que ela precisava proteger os bebês...
Quanta vilania!
Naquela semana todos os
protegidos de Alcádia caíram. Acho que até hoje os sobreviventes não sabem como
chegamos até eles se só a líder sabia a localização do aparelho.
Eles mesmos foram
conduzidos às cegas.
É... Foi com aquela
delação que garanti minha polpuda aposentadoria. Daí, com a morte de minha doce
esposa, foi só assumir de vez a identidade de Liu — o viúvo boa praça — e
seguir em frente.
De todo o mal que fiz,
a coisa que mais me dói é o sofrimento que infringimos ao Dr. Estêncio matando
seu querido filho...
O pobre nem imaginava
que o garoto também estava envolvido no esquema.
Foi um choque terrível!
Mas tivemos que sacrificá-lo! Ele sabia demais.
Sabia de mim!
O “nosso Johny” não era
um cara tão legal assim...
Tudo bem, ele jurou que
não ia dar o serviço, só que eu não poderia correr tamanho risco. O apoio do
Dr. era vital para mim. Eu tinha que continuar contando com ele. Não que eu
precisasse demais da herança dele, mas como explicaria meu súbito
enriquecimento?
Ele nem era tão rico,
no entanto, a administração da clínica me permitiu lavar boa parte do bônus que
o estado pagou ao Cel. Sckiamo. Afinal, o pobre homem solitário elegeu a minha
clínica como sua única beneficitária.
É.
Eu admito. Meus filhos
saíram a mim.
Apesar de eu ter
tentado fazer deles homens de bem. Falhei em minha missão, mas comprovei que a
casca realmente não cai muito longe da árvore.
Dizem, acertadamente,
que quem sai aos seus não degenera não é? No fundo eu tinha esperanças de que o
sangue da mãe falasse mais alto. Já que ela sempre havia sido tão forte.
Bem, sempre é mais
fácil uma maçã podre estragar todas as frutas do cesto do que acontecer de uma
fruta boa melhorar as estragadas não é?
Chega de clichês por
hoje.
Depois de tantas noites
dormindo no mármore frio da prisão, só quero mesmo é colocar minha cabeça no
travesseiro macio e descansar em paz!
V – O SUPLANTADOR
Acordei muito mal hoje.
De repente comecei a
ter uns ataques de santidade.
Memórias da infância me
assaltam e me perturbam. Penso que não deveria ter sido tão mal. Porque a fúria
se sempre tive tudo o que precisava? A
falta de uma mãe não deveria ser motivo para degeneração.
Poderia não ter
mergulhado tão profundamente na criminalidade.
Se tivesse aceitado os
conselhos de meu pai minha vida seria bem melhor agora...
Perdi muito.
Eu sei.
Mas o Outro perdeu bem
mais. Afinal, ainda estou livre e bem. Onde ele está agora, você sabe?
Já foi.
Para minha felicidade
essas crises de consciência são passageiras. Como também eram passageiras as
tempestades que eu costumava temer. Acho que me libertei também desse trauma...
Hoje já consigo
caminhar livremente na chuva. Sou amigo da tempestade...
Estou feliz novamente.
Tenho tudo o que quero. O mundo agora é meu.
Só preciso me ajoelhar
aos pés do velho, fingir uma emoção não sentida. Um arrependimento que não
tenho de fato por não tê-lo visitado na cadeia e, fica tudo certo!
O delegado me autorizou
a buscá-lo às seis horas, então tenho quinze minutos para encontrá-lo lá e
fazer meu número do pródigo...
Não é que deu certo?
O velho caiu direitinho
no teatro. Nem foi preciso derramar minhas preciosas e escassas lágrimas em
vão.
Como as coisas mudam
rápido. Há menos de meio século ele se gabava de sua força. De seu não
comprometimento romântico com o amor. Exceto por mamãe, é claro!
Dona Alcádia sempre foi
um caso a parte. A mácula romântica em sua constituição modernosa.
A vanglória dele se
baseava na qualidade de perseguir o novo. Estabelecer e disseminar ideais
sagrados de descontinuidade e reparação de erros do passado.
Ele que como um D.
Quixote, batalhava as causas inglórias em busca do resgate de valores
essenciais deixados de fora pelos historiadores de épocas remotas: “meu
objetivo precípuo é promover o novo de novo”, dizia ele.
Ele que lutou tanto
pelo novo repete o velho deixando-se vencer pelos ideais românticos do bom
filho corrompido que se arrepende no final e agora planta ‘rosas’ em sinal de
regeneração...
Pura fraude. Devo
lembrar.
Tenho quase certeza de
que ele sempre agiu exatamente como aqueles que costumava criticar...
Talvez tenha deixado de
fora valores muito mais importantes...
Pode ser que esse meu
discurso já tenha sido proferido por alguém em outros tempos. O sábio tinha
razão plena. Não há nada novo debaixo do sol.
Todas as técnicas já
foram experimentadas e, falharam de alguma forma.
Todos os erros de hoje
foram cometidos por alguém no passado.
E essa minha tentativa
de inovar maquiando minha verdadeira história, floreando-a com nuances de
discursos arrependidos (falsamente) já foi testada por alguém em algum lugar ou
época anterior.
Não posso provar que
tenha havido alguém tão vil como eu, entretanto, tenho quase certeza que minha
atitude renovadora não é extremamente original.
Sou a cópia rasurada de
diversas gerações de copistas.
A soma de todos os
erros e de todos os acertos da Antiguidade até este século.
Estamos eternamente
condenados a voltar ao passado e repetir as mesmas ações, os mesmos equívocos.
Enfim.
Lancei-me ao pescoço do
velho alegando que meu coração é “frágil” e não teria suportado vê-lo no
confinamento.
Ele só precisava ouvir
isso como pedido válido de desculpas. E eu, bem. Eu não poderia dizer nada,
além disso. A cara de pau e total falta de sentimentalismo de minha geração não
chegaria ao ponto de me permitir confessar maiores mentiras. Paro por aqui.
IV – O INOCENTE
Tão sublime o momento
do reencontro. O filho arrependido abraçando o pai por anos renegado...
E nós ali. Como
habitantes inoportunos da idílica cena familiar.
Muitos abraços. Muita
felicidade. Tudo festa no mundo sombrio...
Cara.
Não acredito que aquele
Um, cobra como é. Caiu em minha encenação. Talvez não seja tão fácil duvidar da
lealdade de um pai... Ele só pode ter sido pego pelos laços de família...
Mas só Deus sabe quanto
me custou aquele abraço!
Saber que passei todos
aqueles anos na detenção por um crime que ele cometeu. Eles, no caso.
Tudo bem agora. Tive
meu dia de caça e comi o pão que o diabo sentou em cima na cadeia, mas hoje sou
caçador. E, sinceramente, nem o diabo ia querer comer o pão que estou amassando
para aquele Um!
Vou acabar com a vida
dele como ele acabou com a vida da minha garotinha. As mulheres da minha vida
já eram. Mas eles nem imaginam o que os aguarda ainda...
No fundo, não me comovi
com o que tiveram coragem de fazer com a mãe, mas o bebê foi sacanagem. Nem no
auge de minha insensibilidade cogitei maltratar uma criança ainda no ventre.
O que estou dizendo? Se
eu mesmo consenti no aprisionamento de Alcádia sabendo do estado interessante
em que ela se encontrava...
No entanto não sou
assim tão mau. Eu quis o bem deles no final. Apesar de não ter sido tão
convincente. Talvez eu só tenha sido humano demais quando eles precisavam de
uma intervenção divina!
Hoje eu só quero que
eles se desintegrem. Que se desmaterializem na cadeia!
E todo aquele discurso
de que se sente mal com o carma de ser o inocente filho de um ex-detento e
irmão de um bandido? A quem ele pensa que engana?
O pior é eu ter de
consolá-lo como se o inseto da história fosse eu...
Como se todo o peso de
ter sido traído, ferido e pisado não estivesse sobre os meus pobres ombros.
Como se já não fosse
duro o suficiente todo o drama que vivi!
III – O SUPLANTADOR
Acho que ainda não
falei disso com você, pai.
Mas, vez em quando uma
dor me invade. Sinto-me mal quando saio nas ruas e vejo as pessoas me
apontando, sabe?
Os olhares que me
lançam são assustadores.
Primeiro foi por sua
causa. Todo aquele drama que nos envolvemos.
Daí, quando o seu
problema está se resolvendo, vem o Outro inventando armações e tentando me
enfiar em seu pacote de estupidez.
Sempre fui meio
incompreendido, no entanto as críticas agora estão intensas demais. Não tá
dando pra aguentar. Tem dias que penso em abandonar tudo, ir viver em outro
lugar...
(dá vontade de mandá-lo
de vez para um lugar digno dele, porém, meu momento paizão não me permite...)
Não é bem por aí meu
filho. Fugir, mudar não vai resolver nada (Se você se retira agora como fica
minha vingança?). Você já é figurinha marcada, cara, onde for os problemas irão
junto.
Eu já pensei nisso
também. É que dói muito, entende? Apesar de não parecer, eu sou extremamente
sensível. A rejeição com que sou olhado fere minha alma.
(como se esse
patifezinho tivesse uma alma...).
Tô cansado de ser
criticado. Principalmente porque, apesar do Outro, tenho meu próprio valor...
Eu fiz coisas incríveis e ninguém se lembra. Só do mal que ele atribuiu a mim.
(Que ele atribuiu não,
que você praticou mala!).
Não se preocupe com
isso não meu filho. Por melhor que você consiga ser, não vai agradar de fato a
ninguém mesmo. E depois, pessoas são iguais em qualquer lugar do mundo:
Os poderosos só querem
descobrir a fonte do domínio massivo sempiterno;
Os fracos vivem em
busca de um forte para reinar sobre eles dominando, subjugando. Na verdade,
procuram alguém para recolher e administrar o pouco que ganham porque são
incapazes de lidar com o quase nada que têm. Trabalham até a exaustão,
sobrevivem da força do próprio punho, mas querem alguém com folga e ociosidade
suficientes para roubarem-lhe quase tudo, presenteando-os com o pão parco,
frugal e o circo, aquele espaço de diversões baratas e vazias, única cultura
capaz de ser absorvida por suas mentes abarrotadas do nada;
Os intelectuais
desprezam qualquer ideia que não tenha partido deles. Qualquer coisa que tenha
vindo do outro é pequena demais, inconcebível demais, sórdida demais. Só lhes
serve aquilo que inventam, transformam ou recriam a partir das ideias que
outros tiveram e que eles anteriormente rejeitaram;
Os medíocres não
entendem nada que está acima daquilo a que estão acostumados e por isso,
retrocedem diante do novo, enquanto ainda é novidade. Aceitam apenas as coisas
com conceitos já solidificados. Depois que vira moda é que se alcança o ideário
dos medíocres;
E os simples, bem,
esses não se preocupam com nada além da vida dos outros, se você virou notícia,
então será o prato cheio para as discussões deles. Não importa o que tenha
feito de certo ou de errado, eles querem mesmo é opinar sobre o que todos
falam, e mesmo que não saibam nada de concreto, são todos doutores no assunto...
Enfim, cuide de si. E o resto, que se dane garoto!
II – O PRISIONEIRO
Agora estou quase a
ponto de trazê-lo para sambar aqui comigo.
Tem sido difíceis os
dias aqui dentro, no entanto, Simone está a ponto de cumprir nosso combinado.
Depois da visitinha
íntima da semana passada, ela jurou que no próximo encontro traria as cartas
para anexar ao processo.
Aquele Um não perde por
esperar...
Enquanto apodreço aqui
dentro com toda a minha sabedoria, ele, o eterno covarde da história posa de
bom filho e irmão traído diante do pai e da sociedade.
Quem ele acha que
engana com todo aquele discurso de negociante democrata e bom moço?
A hora dele vem aí!
Se existe realmente uma
justiça nesse país, eu não vou mofar aqui sozinho!
Não mesmo!
Espero que nada aconteça a ela nesse período porque aí estará tudo perdido...
Espero que nada aconteça a ela nesse período porque aí estará tudo perdido...
PARTE VI
SERPENTES CRIADAS
CAPÍTULO I – A MULHER
Tentei, de todas as
formas, me convencer de que havia algo digno de salvação naquela família
execrável, porém foi inútil minha busca.
Nenhum deles era capaz
de admitir a culpa pelo terrível crime. Estavam todos tão bem escudados em
álibis intransponíveis que todos os caminhos levavam-me para longe de todos
eles.
Apesar de minha forte
intuição Poirotiana levar-me sempre de volta a maldita mansão, nem mesmo a
possível ligação dos fatos recentes com a tragédia na qual estiveram envolvidos
em tempos remotos constituía um meio eficaz de condenação.
A porra de minhas
investigações sempre esbarrava na muralha burocrática que o dinheiro deles
chegava com sobra para erigir.
Vi-me em sérios apuros
quando o Braço deles chegou até mim em um beco escuro.
Não literalmente, é
claro.
Acontece que eu
enfrentava uma avalanche de dificuldades financeiras quando, sem mais nem
menos, aquele brutamontes desengonçado apareceu.
“O homem bateu em minha
porta e eu abri”.
Pensei, a princípio,
que ele queria um donativo ou algo do gênero, mas não. Vinha a mando do velho
Liu. Furioso com minhas investidas contra as bases sólidas de sua família.
Qual é? Não é segredo
para ninguém que ele mesmo moveu os pauzinhos para cercear a liberdade do
Outro!
Teria talvez conseguido
algo maior, CASO houvesse leis sérias tramitando no congresso.
Qual o quê?!
Chutou na trave mesmo
tendo na intenção o conseguir um gol memorável. Todos os seus planos e armações
surtiram efeito até irem de encontro à inteligência astuta com caráter de
elemento advindo do submundo de Um.
Tinha que reconhecer
que aquele serzinho era imensamente parecido com ele.
Respirava as mesmas
ameaças que ele.
Lutava com as mesmas
armas.
Sonhava os mesmos
pesadelos.
Enfim: ‘mais do mesmo’
barro.
O Outro era um grande
projeto, mas permitiu que o sentimentalismo bobo o corrompesse.
Os quinze anos de
religiosidade carola na cadeia renderam-lhe uma beatice irreconhecível aos
seus.
Seus trinta anos de
reclusão foram reduzidos na metade em consequência do bom comportamento que
apresentou lá dentro.
Viviam agora sob o
mesmo teto suportando-se.
Há quem do lixo impera,
enquanto a outros seres é dado mendigar, mesmo que no trono.
Esses seres
vergonhosamente mantêm-se senhores da situação.
Sou do primeiro tipo.
Foi-me negado o direito
a realeza, mas do cerne de toda a nojeira desse sistema executivo claudicante,
a exemplo de todos os outros sistemas, tento exercitar meu talento nato para o
império.
Foi dessa filosofia que
tirei a resistência necessária para mandar o Braço e todo aquele corpo de
bandidos que o controla para a sétima camada do inferno.
Como pode um ser humano
tão baixo, tão vil, tão quase nada querer corromper assim uma cidadã tão
virtuosa como eu?
Isso é algo não
concebível.
Não aceitável.
Tivesse poder sobre a
lei que executo aquele vermezinho não teria saído daqui livre e impunemente
como saiu.
Meu lado sensível (o
bolso) sangrou vendo-me voltar as costas para o sonho de uma polpuda conta em
um paraíso fiscal qualquer.
Entretanto, meu senso
de justiça não se podia conter de felicidade por minha nobreza de caráter.
O enquadramento por
tentativa de suborno figuraria para mim como um princípio de vingança.
Antes de emitir meu
último suspiro eu teria ainda o prazer de vê-los aniquilados e fora de
circulação, custasse o que custasse!
Quem sou?
Já nem sei.
Aquela corja roubou
minha identidade, meu prazer de viver, meus projetos de um futuro brilhante e
feliz.
Antes de eles cruzarem
meu caminho eu era só uma agente super dedicada ao trabalho que sonhava fazer
um nome notável dentro da corporação, se casar, ter uma dúzia de garotinhos
rechonchudos e remelentos como é comum à corja subordinada ao funcionalismo
público e me aposentar aos cinquenta anos.
Hoje, nada quero além
de resolver toda essa situação enervante.
O trabalho na polícia
me enfurece.
É frustrante perder um
tempo precioso investigando esses vermes, seguindo a droga de cada pista
deixada por eles para ver no tribunal um vendido qualquer apresentar uma falha
praticamente inexistente no processo milimetricamente analisado e conseguir,
através dessa falhazinha insignificante, a paralisação do processo e a
liberdade dos cães perversos.
Fazer o quê? A vida
agora é isso.
Prometi para mim mesma
que saindo num dia a condenação dos três, apresento, para o dia seguinte, minha
demissão.
Não sei se terei fôlego
para tanto, mas vou fazer o possível.
CAPÍTULO II – OS FILHOS DA MÃE
Toda a comunidade de Guaratinga
está em polvorosa. Finalmente chegou o dia tão esperado. A espera de meses por
uma solução para o escândalo da corrupção na clínica Estêncio começaria hoje.
Jornais noticiavam com
ímpeto o fato de os senadores filhos do velho Liu, Um e Outro, estavam
envolvidos no esquema de desvio de verbas públicas para a clínica particular da
família.
Nada que merecesse
tamanho alvoroço da mídia...
Não me meti sozinho no
esquema.
Todas as empreiteiras
para as quais paguei propina passaram pelo sistema de rastreamento daquele Um.
Maldito!
Quando fomos eleitos ao
cargo público falávamos a mesma língua novamente.
Que evento grandioso o
dia de nossa posse, toda aquela multidão comemorando a vitória...
Naquele momento ninguém
se lembrava mais que éramos os filhos do Liu.
Ninguém comentava que
“o pai deles é aquele médico condenado por assassinar a própria nora...
Não se lembravam nem
mesmo que amarguei longos quinze anos na prisão, em virtude de um assassinato,
como ficou provado pelas declarações de Simone, eu não cometi. E que o
desespero e uma forte crise psicológica provocada pela tensão vivida me fizeram
confessar...
Foram lindos anos de conquistas
grandiosas e então, aquela mula se deixa pegar num pente fino da polícia
federal e me entrega como chefe do esquema.
Alguns
superfaturamentos em obras públicas...
Uns poucos desvios de
verbas da saúde e da educação...
Os repórteres em todo
momento se reportavam à situação julgada vinte anos atrás, quando o Outro,
Garoto
de vinte e um anos, foi condenado pelo assassinato brutal da esposa de seu
irmão. A garota, Silene Meira, grávida de sete meses, foi encontrada
estrangulada na chácara da família do esposo no dia vinte e nove de setembro de
mil novecentos e oitenta e sete. O Dr. Liu Vincent, pai dos garotos foi
encontrado junto à garota, uma falha no julgamento fez com que o médico fosse
condenado a oitenta e cinco anos de reclusão em regime fechado. Porém, a
reabertura do processo, três anos depois, trouxe novas luzes ao caso, apontando
para o filho mais velho do Dr. Como o verdadeiro assassino. O jovem, que na
ocasião sofria uma forte crise psicótica provocada pela tensão e não só
confessou o homicídio, como tentou dividir com o irmão a culpa pelo sinistro. O
garoto acabou sendo condenado a trinta anos de detenção e liberado após o
cumprimento de metade da pena. O motivo alegado para a libertação foi o de que
o rapaz manteve um comportamento memorável nos quinze anos em que esteve no
sistema prisional. O irmão conseguiu livrar-se das acusações sofridas provando
seu afastamento da cena do crime, encontrava-se em uma viagem de negócios na
capital mineira e só soube do crime pelo noticiário local, estando o pai já
aprisionado. O bebê que Silene esperava nunca foi encontrado.
Essa reportagem
aparecia agora em todos os noticiários, vinculada ao possível envolvimento da
família no esquema de corrupção e super faturamento de equipamentos oferecidos
a clínica que o Dr. Liu havia herdado do Dr. Estêncio, seu médico particular,
amigo e mentor, em 1969, quando da morte do único herdeiro legítimo do médico provocada
“pela queda e explosão do veículo que conduzia no largo de Santos” o jovem
estava sob investigação do governo militar.
Depois da morte do
filho, o médico não via razão em manter seu patrimônio e sua residência no
país. Então, passou a posse de seus bens nacionais para seu grande amigo Liu,
desempregado, viúvo e com dois filhos para sustentar.
Até hoje me surpreende
tamanha benevolência em um cidadão que se esforçou duramente ao longo da vida
para conquistar seus bens, suas posses e abrir mão de tudo assim, de repente,
em benefício de outro cidadão que nem ao menos partilhava de seu sangue.
Não, e o mais incrível
ainda é que o primeiro cidadão mudou-se para uma cidadezinha qualquer no
interior do interior da Europa e nunca mais foi visto por ninguém. Eu faria
qualquer coisa para descobrir onde se enfiou, ou melhor, onde enfiaram o pobre
do médico. Quem sabe uma cova para indigente ali mesmo no sertão mineiro?
CAPÍTULO III – ÓRFÃOS
NA TERRA
Hoje tenho consciência
de quem sou e quando desfilo minha estrutura 90X60X90 pela avenida, é realmente
para chamar a atenção. Mas nem sempre foi assim. Por muito tempo estive
dominada por traumas seríssimos de forma que fazia de tudo para parecer mais
pouca coisa do que era.
Ele costumava me pedir
para manter o sangue frio em qualquer situação. Eu sempre tive muito medo.
Agora sei que sou
perfeitamente capaz de fazer isso. Minha vida me foi dada por despojo. Tudo o
que viesse daquele momento em diante seria lucro.
Hoje eu sei.
Depois que tomei
consciência desse fato passei a andar por aí de cabeça erguida. Há vezes que
até desejo um olhar mais profundo em minha direção.
Na verdade eu queria
mesmo era uma chance de pisar, como um dia fui pisada. Massacrar do mesmo modo
que me massacraram. Vai ser barra, mas valerá à pena. Ver a dor nos olhos de
quem quase me aniquilou? Não tem ouro no mundo que pague o valor dessa
conquista! Não tem preço!
Tinha acordado meio
estranha.
Tenho a sensação de que
não pertenço a esta era.
Mais uma vez me vejo
sozinha.
Visto luto porque
morreu em mim qualquer coisa de esperança de alegria ou amor.
Penso...
Penso.
E penso!
Quanto mais penso mais
me convenço do vazio de minha existência.
Às vezes parece que o
mundo tem problemas comigo. Sinto-me como um aborto desprezível.
Outras vezes sou eu
quem tem problemas com o mundo.
Quero colocá-lo à parte
em um universo criado por minha imaginação e existir sozinha, alheia a tudo e a
todos.
Gostaria de ser minha
própria mudança ou, de realizar em mim mesma a mudança que costumo idealizar
nos outros.
Estou cansada da
repetição.
O eterno retorno das
coisas, dos movimentos, me apavora.
Penso em transgredir,
romper com tudo, mas me lembro que isso também já foi feito e então, eu seria
apenas o retorno da repetição que temo.
Vou tomar um açaí com
sorvete. Mais açaí que sorvete como eu sempre peço, por favor, sim?
Como eu dizia, a repetição
me consome. Me apavora. Affs! Como tudo isso me cansa! E sou tão repetitiva
mesmo assim. Por exemplo, tenho de estar no outro trabalho daqui a pouco.
Estive lá ontem.
Amanhã estarei lá outra
vez, e de novo, de novo...
É isso todo dia!
O dia todo é isso!
A eterna repetição dos
atos.
Dos pensamentos.
Das palavras.
Tenho a impressão de
que ontem pensei, ou disse a mesma coisa.
E, se não eu, outro
alguém o fez.
Amanhã outro, ou eu
mesma, repetirei essas palavras.
Tudo isso é
horrivelmente cansativo e monótono.
Chato mesmo até!
Essa divisão em três
funções é fogo!
Hoje não vou poder
jantar de novo!
É curioso como o dia
está cinzento. Daquele cinzento que o velho Liu escreveu em seu diário de
prisão.
Eu não tinha registrado
isso, não é?
Pois é. O diário dele
me foi entregue como prova de sua inculpabilidade.
Ele acha que não há
nenhum depoimento mais verdadeiro que uma correspondência íntima.
Concordo.
Mas, até mesmo a
inocência de um diário pode ser alterada caso o indivíduo o escreva pensando
que esse objeto pode ser observado em juízo.
E eu tenho quase
certeza de que aquela raposa velha fez
CA-
RAM-
BA!
Não acredito que ele
teve a coragem de me entregar o diário sem fazer uma última conferência nessas
páginas!
Com que então o Cel. Sckiamo
não está morto? E aquele imbecil me entrega a confissão de próprio punho...
Cancela o açaí, moça!
Vou correr para o
departamento agora. Preciso ler novamente o processo.
Estudar algumas
particularidades da lei. Preciso estar munida de todas as armas necessárias
para conseguir abater aquela besta.
E quero começar
digitalizando todas as páginas desse maldito diário. O mundo precisa conhecer a
história de uma víbora.
CAPÍTULO IV – O PARTO
Outubro
de 1987
Para todos os efeitos,
Assina Liu.
Estou escrevendo essas
linhas amargas deste espaço que, me parece, será o Meu lar de agora em diante
pelos próximos oitenta e cinco anos.
Saiu ontem a maldita
sentença. Prisão à Fera assassina!
Imbecis. Eles não sabem
o que fazem.
Não tive sequer o
direito de chorar a morte de minha menina e ainda estou aqui enjaulado.
Até hoje não consegui
entender direito o que aconteceu.
Minha alma está partida
e o ser humano em mim deseja vingança para nós dois...
No entanto, o que posso
fazer atrás das grades, além de chorar?
Creio que nem pela
morte de Alcádia eu fui capaz de sofrer tanto.
Não posso mais
escrever.
Essa noite estou em
frangalhos.
Se conseguisse roubar a
arma de um daqueles agentes, hoje mesmo eu partiria ao encontro de minha
menina.
Aqui, é como se eu
estivesse de mãos atadas.
Ao invés de apagar a
luz da cela, esses infelizes bem que poderiam apagar a luz dos meus olhos...
Não é que o infeliz
sofreu mesmo com a morte da norinha...
Que haveria de tão
especial entre os dois para ele chorar mais por ela que pela própria esposa?
Claro!
Só pode ser isto!
A decepção por Alcádia
ter lhe dado garotos ao invés de uma menininha o fez se tornar tão amargo...
Silene veio realizar o
grande desejo que a raposa velha tinha de ter uma filha.
Essa profunda adoração
pela nora pode ter desencadeado a aversão dos gêmeos pela namoradinha deles...
Você também hein
Silene...
Tinha que ter se
envolvido com tamanha corja...
Eu até que tinha um
pouquinho de respeito por você, mas conhecendo mais a tua história, acho que
você era tão ruim quanto qualquer um deles...
Bem, chega de
divagações.
Sigamos com este
divertido trabalho:
Dezembro
de 1987
Um dia mais no inferno,
Liu.
Enfim, vejo raiar o dia
na mais longa noite de minha vida miserável.
Se eu, ao menos tivesse
conseguido dormir para não ver se arrastarem as horas. No entanto, foi bom
estar acordado. Assim pude refletir bastante. Pensar em coisas com as quais não
tinha atinado.
Até essa fatídica
noite, não tinha me dado conta da ausência dos meninos ao meu lado em todo o
andamento do processo...
Nesta noite eu
pensei...
É penoso reproduzir meu
pensamento, mas eles, no início não ficaram felizes com a notícia do filho...
Aí, eu pensei: será que
não foi Um deles?
Pronto.
Essas coisas são como
parto.
Enquanto você gera uma
idéia, ela se, se ajeita, incha. Incomoda as vezes, mas é só sua.
Daí, quando você dá a
luz ‘e o verbo se faz carne’, a palavra toma corpo. Desenvolve células.
Acopla-se a outras palavras e, de repente, outras pessoas vêem a idéia que
antes era só sua.
Cada um dá um nome. Diz
como criar melhor...
É um saco!
Por isso, no início
achei penoso reproduzir meu pensamento...
Agora qualquer pessoa
que ler isso vai saber que houve um momento em que ousei atribuir a meus filhos
a culpa por um assassinato...
Céus! Como o velho
soava humano nessas páginas. O que não é capaz de produzir em um homem alguns
dias de confinamento. Tivesse essa pena sido cumprida, talvez o leão não
passasse hoje de um ratinho.
Esse velho diário vai
ser altamente explosivo quando apresentado ao tribunal.
Não, não Teixeira. Só
estou preparando uns documentos.
É claro que você pode
usar o scaner.
Tudo bem sim. Posso
fazer isso depois. Tenho mesmo de fazer um outro trabalho agora.
A vida real me aguarda
parceiro.
Preciso deixar a
diversão para outro momento.
CAPÍTULO V – O ESPOSO
Como eu poderia
convencer um júri da culpabilidade do canalha?
Se estivesse a mais
tempo na profissão não teria dúvidas do que fazer. Mas, em minha situação vai
ser difícil.
Uma chegante apenas.
Ele sempre me disse que
eu chegaria longe...
Muito longe, se lutasse
com as armas certas, é claro!
Tenho dúvidas quanto a
este fato.
Quanto à minha
capacidade não.
Sei que posso fazer o
que quiser. Minha dúvida é quanto à possibilidade de encontrar as armas certas
com as quais lutar.
Há momentos em que não
sei ao certo para que é que fui trazida ao mundo. As vezes o vazio é tão
intenso, tão globalizante que me sinto um não ser produzido em massa escalar.
Em massa porque costumo
ver nas faces que me cruzam o caminho o mesmo va-
Sim moça. Na tigela
pequena, por favor. Como sempre, sim. Não tem problema não. Meus estudos podem
esperar.
-zio de expressão que
contemplo no espelho quando olho para mim. Este, aliás, é outro enigma que me
consome constantemente. A perfeição com que são trabalhados os espelhos me
comove ainda mais por lembrar o Narciso Wildiano.
A duplicidade da
contemplação unívoca ali me encanta sobremaneira. Acho que se não tivesse sido
impelida para este ramo, eu teria estudado as belas letras. Não fosse minha
pré-destinação à área investigativa, a literatura far-se-ia meu consu-
Ok. Muito obrigada,
sim? Pode deixar aqui a groselha. Obrigada!
-mismo.
Oi.
(?)
Não, não. Minha
ocupação do momento pode esperar.
(?)
Onde você está agora?
(?)
Sim, sim.
(?)
Sei onde fica.
(?)
A ligação está
horrível, você pode repetir, por favor?
(?)
Tudo bem.
(?)
Entendi sim.
(?)
Estarei aí em vinte
minutos, no máximo!
Acho
que não devo tomar seu açaí hoje, moça. Valeu, viu? Pode ficar com o troco.
Estou tão atarefada ultimamente.
Você
viu como fui impedida de saborear esta maravilha por duas vezes hoje?
Seu
Liu?
(?)
Pois
é, não deu certo de novo. Pela segunda vez ela teve de sair às pressas.
(?)
Sabe
o que é? Estive refletindo... a garota é muito simpática. Vem sempre por aqui e
fica de papo comigo. Um ser humano raro que observo a anos. Eu não posso fazer
isso.
(?)
É,
rata ou o que o senhor quiser, estou sim abandonando o navio.
(?)
Então,
é melhor o senhor encontrar um outro meio.
(?)
Estou
pulando fora.
CAPÍTULO VI – OS PAIS
VENHO
Venho de um
tempo sem tempo,
Não sou
exatamente o que quis ser.
Voltei a eras
amenas para ver
A aniquilação
total do pensamento.
Apossei-me de
discursos eternos,
Ininteligíveis
traços risquei.
Se é amante de
Eros, não sei.
Mas a perfeição
reside em meus feitos internos
Amo
inquietamente o novo.
O belo constitui
minha obra prima.
Posso abandonar
a essência do povo,
Mas quero sempre
viva minha rima.
Amo essas linhas.
Penso que elas me
definem tão bem. Sinto-me representada neste poema. Se conhecesse o poeta, eu
poderia jurar que fui inspiração para esse canto.
E o velhinho que não
chega? Tenho tanto a fazer. Realmente não posso ficar tanto tempo assim lendo
poesia. O que ele terá descoberto assim tão de repente?
Sim menino. Estou
esperando um amigo sim. E você, quem é?
?
Não pode dizer... Tem
graça? Como se coloca a disposição para interagir com outra pessoa e não pode
se identificar garoto?
?
Tudo bem. Obrigada por
me entregar o envelope.
Vamos ver o que foi que
ele andou aprontando:
Agosto de 2016,
Confidencial.
Não posso dar maiores
detalhes, mas você está correndo
perigo. Sua vida corre contra o
tempo. Entre na corporação pela porta
dos fundos, querida. Não freqüente os bares e restaurantes que costuma
freqüentar e, por favor, evite as saídas
noturnas. Interceptamos a moça da
sorveteria e ela nos confessou ter
envenenado hoje por duas vezes o seu açaí
duas vezes. Não conseguimos arrancar
das mãos dela o nome do mandante,
mais é certo que algUém
dos teus investigados está muito empenhado em manter sua boca calada. Ia te avisar pessoalmente, porém, achei que seria a mais prudente me manter à distância. Afinal, se me encontram também, fico impossiBilitado de
ajudar você. Não volte para casa. Não me procure, nem faça
contato com ninguém da corporação quando estiver de serviço, ok? Ps.: acima de tudo, confie somente em
Deus, vigie todos os outros. Descanse em paz, parceira, enquanto não sabe quem
é por você, ache um Lugar seguro. Minha
menina, não tenha medo. Estaremos sempre juntos.
Seu velhinho.
Vejamos como eu poderia
fazer a decodificação desse bilhete:
???????????????????????????????????????????????
Há algumas maiúsculas
em lugares impróprios, mas não tem lógica...
??????????????????????????????????????????????
Claro! Devo separar as
letrinhas em itálico!
São elas:
E n c o n t r e i o s o
s a s s a s s i n o s d e s u a m ã e o m a n d a n t e é U m d o s t e u s c a
s o s m a i s o B r a ç o
Agora é só formar
palavras inteligíveis com elas:
“Encontrei os
assassinos de sua mãe o mandante é Um dos teus casos mais o Braço”.
É isso!
Vejamos agora:
E a mensagem secreta
dele está decodificada!
Encontrei os assassinos
de sua mãe.
O mandante é Um, dos
teus casos, mais o Braço.
Mas é claro que entendi
Teixeira. Sua missiva foi altamente esclarecedora. Agora me diga uma coisa que
eu ainda não sabia.
Meu pai! Será que a
raposa velha descobriu que sei de tudo isso e está me oferecendo risco agora?
Há há há.
Você só não me avisou
Teixeira, que ele também fez parte de tudo e que a condenação dele não havia
sido injusta.
Injustiça foi
libertá-lo antes de cumprir a pena.
Bem, já que meu amigo
me alertou do risco que estou correndo, vou recolher-me a CORP, pela porta dos
fundos, é claro, e passar a noite envolta em minha digitalização.
Apesar dos pesares meu
amigo, serei eternamente grata por você me impedir de tomar o açaí envenenado.
Você agiu como um verdadeiro herói.
Quando amanheceu o
coração já quase não batia. A agonia da aventura noturna tinha-a torturado
tanto que ela estava à beira de uma apoplexia. Então decidiu que era hora de
abandonar aquele trabalho angustiante e respirar ar puro.
Pensou ligar para ele e
pedir socorro, mas agora que ele estava do outro lado seria muito arriscado
tentar qualquer tipo de aproximação.
Estava em suas mãos
agora ir em frente e esmagar as serpentes.
Com um pouco de bom
senso e muita, muita sorte, ela concluiria sua missão.
PARTE VII
SEMENTES MALDITAS
VII – O INOCENTE
Por diversas vezes tive
asco de tudo o que estava diante dos meus olhos e quis rasgar o maldito diário.
Mas, o desejo sufocante de saber mais sobre aquela podridão imensa me impelia à
página seguinte.
Aproveitei a dispensa
que o Teixeira me deu e por semanas não retornei ao meu posto.
Aluguei um quartinho
numa pensão barata e me isolei do mundo. Vários dias passei envolta em um
blusão antigo (herança dele, é claro!), com uma garrafa de água o tempo todo ao
meu alcance e o maldito diário nas mãos.
A aridez daquelas
páginas lembrava um deserto escaldante. À semelhança era tamanha que minha
garganta ressecava e eu sentia, amiúde, a necessidade de tornar a molhar os
lábios.
Acho que a febre tinha
triturado meu organismo, já que os nervos estavam profundamente abalados.
Porém, de tudo o que li
nas páginas infernais, o que me deu mais asco foi o seguinte fragmento:
Dezembro
de 1987
Um pouco mais sobre
mim,
Liu.
Eu sabia que o bebê não
podia ser de nenhum deles.
Cuidei pessoalmente
para que porventura não viessem a providenciar herdeiros à rodo para a fortuna
que construí com tanto esforço e sofrimento alheio.
Porém, paguei caro pelo
silêncio de Silene.
Eu tinha que fazê-lo.
A solidez de minha
‘ilustre casa’ estava ameaçando ruir.
Se fosse uma ninfetinha
qualquer, vá lá!
Mas a diaba era filha
do ministro.
Uma intervenção
monetária era quase que obrigatória.
Tentei convencer a
diabinha a abortar nas primeiras semanas. No entanto, a carolice dela não
permitiu.
“Seja como for, Liu, um
filho é sempre um presente! Vou ter esse filho nem que seja a última coisa que
farei em minha vida!”
Se soubesse como estava
certa no momento dessa fala, minha menina...
Quanta sordidez!
Que criatura infame!
Queria poder liquidá-lo com minhas
próprias mãos...
Em momentos assim sinto que a febre
intensifica-se tão profundamente que...
Enfim, depois de tudo que li até aqui,
não dava para esperar nada melhor daquela alma suja, vil e imunda.
Quase entrei em pânico quando descobri
toda a dolorosa verdade!
Desabei por algumas horas!
Quis correr ao encontro dele para contar
que também sou semente da serpente asquerosa, no entanto, minha atual situação
não me permite. Não posso me dar o luxo de procura-lo.
Não agora.
Não com essa tempestade desabando sobre
mim!
Março
de 1990
A título de esclarecimento,
Liu.
Não senhores.
Não participei da armação dos gêmeos.
Não ajudei a arquitetar plano algum.
Eu não poderia conceber algo tão sórdido
contra minha menina.
Nesse momento tive uma vontade imensa de
declarar que eu sabia de tudo...
Que o Braço havia me dado todo o
serviço...
Porém, minha situação ainda não era das
melhores.
O velho Liu não poderia correr o risco
de voltar àquele inferno.
Não depois de construir uma defesa tão
forte ao longo de três anos.
Três miseráveis anos de reclusão!
Abril de 1989
Nota
ao bebê,
Liu.
Não pode ter sido vão o meu esforço.
Preciso encontrar o diabo daquele
caseiro com minha menina.
Acho que só ela poderia me resgatar
deste pântano horrível.
Minha florzinha já conta agora com mais
de dois anos...
Que nome terá recebido?
Será que algum dia conhecerá a história
de sua família?
Como farei para legar a ela todo o
império que construí, se nem ao menos sei o seu nome, minha doce menina?
VI – O SUPLANTADOR
Velho maldito! Destrói
a mãe e fica desesperado pelo bebê que quase não teve o direito de ver o brilho
do sol?
Tanta gente trabalhando
todos esses anos para colocar as mãos naquela raposa e de repente ele se joga
assim em minhas mãos por vontade própria?
Isso é o que se chama
sorte!
Apesar de tudo, essa
maldita sempre esteve ao meu lado!
O que o carrasco diria
se eu revelasse a ele que o bebê sobreviveu e batalhou duramente para ir diante
do júri argumentar em causa própria?
Você está vingada mãe.
Fomos todos forjados do
mesmo barro! Tenho nas veias a mesma obstinação que rege a corja do mal, por
isso não desisti de aniquilá-los e depositar as cinzas imundas de seus algozes
em seu leito de repouso eterno.
Nunca te vi Silene, mas
jurei oferecer a você o descanso que meus pais te negaram...
Não queria admitir, mas
infelizmente, a lama corre também em minhas veias. Casual e incondicionalmente,
somos forjados do mesmo barro.
Há semelhanças difusas
que nos aproximam e diferenças pontuais que nos afastam bem mais do que eu
gostaria de perceber.
Queria poder fugir de
tudo isso.
Mas...
Oh!
Sinto-me miseravelmente
presa a toda essa podridão.
O desejo de vingança
degenera meus ossos como se eu houvesse sido acometida por uma forte crise de
osteoporose.
V – O PRISIONEIRO
Abri a janela depois de
um mês (30 dias e 30 noites) de reclusão total.
A paisagem escassa e o
nível elevado de cimento denunciava que eu ainda habitava o centro de BH,
porém, não era mais a minha antiga cidade: eram outras águas e eu, outra
mulher.
Sinto-me mais morta
depois desse contato intenso com a origem brutal de minha vida.
É claro que eu sempre soube do meu parentesco
com Um e Outro, no entanto, como nada era provado, eu me reservava o direito de
fantasiar uma genealogia mais próxima do Éden ansiado. Gostava de imaginar
minha mãe traindo os gêmeos com uma terceira pessoa, apenas para me legar o
direito a uma linhagem mais nobre. Porém, nem nos piores pesadelos visualizei
essa cena trágica em minha gênesis.
Pelo ao menos não como
descendente da serpente...
Houve sim um terceiro
amante, mas tinha que ser aquela maldita árvore torta?
Agora é certeza que
nada mais me resta.
Até o consolo da dúvida
me foi negado.
Sou isso que não quero
ser.
Uma porra de uma
bastardinha por quem a mãe se deu...
Que merda!
Toda essa coisa
genética me revira o estômago e me tira o apetite, a visão e afeta meus
sentimentos.
Já era uma tortura me
posicionar como neta.
O que fazer para
aceitar a figuração no papel de filha do perverso?
Pobre lixo que sou.
Quem me libertará do corpo dessa morte?
Ao contrário do
pequenino, ninguém há que me possa fazer escapar.
Estou horrivelmente
perdida!
Tenho olhado tão pouco
pra fora de mim.
Mergulhei de cabeça em
meu interior...
Não entendo o que houve,
mas sinto-me assim:
Faltam sonhos e sobram
ilusões e pavor.
Ah, meu velhinho! Como
eu queria voltar antes do triste fim e ter de volta o amor que em você
encontrei.
Recolher no caminho os
pedaços de mim e guardar bem seguro o valor que alcancei.
Porém, no final descubro
que não importa o que eu faça, sempre vou estar sozinha.
Nenhuma esperança de
futuro me abraça.
Já aprendi a conviver com
a dor que em meu peito se encerra, mas queria outros costumes.
Sei lá.
Talvez, deixar o
castigo nefasto para quem de fato erra.
Aí, ouço essa voz constantemente
em minha cabeça repetindo e repetindo e repetindo:
Não.
Não se encante mais,
pequena.
Não sorria porque nada
aqui vale um sorriso.
Nenhum momento hoje
vale o prazer de um encantamento.
Outras pessoas não
sorrirão de volta pra você. Não te darão nada em troca nem entenderão seu
sorriso encantado.
Vai boba, viva sempre
maquinalmente.
Não demonstre nenhuma
emoção diante de nada.
Seja só mais um bicho
humano nessa selva, abandonado entre milhões de semelhantes.
Você já começou a
morrer no momento em que nasceu, então, viva como se a morte não lhe aguardasse
mais.
E quando morrer de vez,
leve consigo o orgulho de nunca ter se encantado diante de nada.
Leve o prazer de não
ter dado a ninguém o gostinho, o prazer de contemplar seu encantamento!
Agora é isso todo dia.
Ao menos o rancor já
não me corrói.
Já desisti de tentar
entender os motivos daquela mente doentia.
Tudo é natural para
mim, como sempre foi para ele. Só fico grilada ainda com o amor absurdo que ele
diz sentir por mim.
É insano, desleal e até
desumano, considerando tudo o que ele fez de ruim. Não faz mal. Falta bem pouco
para jogá-lo de volta no inferno. Aí eu poderei concentrar toda a minha energia
nas sementes malditas.
Se bem que eles já
estão se destruindo mutuamente, desde que foi descoberto o esquema de corrupção
e lavagem de dinheiro, chefiado pelo Outro enquanto líder do Estado Nacional.
IV – O SUPLANTADOR
Ele não se conformava
de ter sido achincalhado, desacreditado e humilhado nacionalmente e ver Um
irmão seu e sócio no banditismo por cima da situação.
A justiça bem que
tentou pedir sua prisão preventiva, porém ele encontrou abrigo no seio da “vaca
profana” que providenciou uma “saída de emergência” para o cúmplice tão, tão
querido...
A bomba estourou em um
domingo, quando ele descansava confortavelmente à beira de sua bela e enorme
piscina. Sabe Deus quantas vezes ela foi usada como cofre para os milhões
desviados e lavados, essa prática já era o que se podia chamar de algo comum no
Estado em que as coisas caminhavam, ou não caminhavam, se atropelavam apenas...
Pois bem, ele descansava
confortavelmente à beira de sua magnífica piscina-cofre quando os agentes
tocaram a campainha.
Os senhores podem
entrar. Fiquem a vontade. Estou pronto a responder todas as suas perguntas.
E bem para si mesmo
entre parênteses:
(Seus merdas, quem
vocês pensam que são para entrar assim na casa do Outro? Um bando de
vendidos... completamente acovardados se achando no direito de botar pressão em
cima de um ser humano tão justo, correto e honesto como eu? Esperem só para ver
o que farei com vocês seus filhos da puta)!
Não se incomodem em
pedir desculpas, é claro que vou acompanhar vocês ao interrogatório sem mostrar
resistência... eu não seria capaz de um ato (público) de violência. (Não
poderia manchar minha imagem agora que estou pensando em voltar ao pleito).
Vamos senhores. Não vamos se atrasar tanto mais.
Tudo bem que demoraram
a chegar até ele, e não teriam chegado nunca não fosse a denúncia daquele Um,
mas chegaram. Mais de oito anos depois, com boa parte de seus companheiros na
lona, ele virou alvo de investigações...
Naquele tempo Um e Outro
eram unidos, bem mais que irmãos gêmeos costumam ser.
Foram órfãos do mesmo
pai presente, então, entendiam as dores Um do Outro.
Fizeram alianças de
sangue e laços indestrutíveis, atados com nós de marinheiro, para protegerem-se
até a morte e tudo ia bem até ambos apaixonarem-se pela mesma “dona de divinas
tetas”, desde então os códigos passaram a ser secretos. Altamente secretos, ao
menos para Um deles.
Que loucura vê-lo
entrar e sair o tempo inteiro sem dizer nada como se agora fossem inimigos.
Justo eles que seduziram a “Vaca” em equipe.
Quando arquitetou
sozinho o homicídio, tantos anos atrás, ele não pensava apenas em si mesmo.
Queria antes, livrar também
ao irmão do castigo de ter que conviver com a semente maldita que ele sabia ser
obra do velho.
Tinha que ser porque o
irmão já havia desistido da disputa quando descobriu que era passado para trás
pela vadiazinha e ele, bem, ele era apenas uma árvore seca.
Não poderia gerar nada
de bom ou ruim. Felizmente o céu havia legado ao mundo essa graça...
Ele e o irmão estavam
limpos, contudo, o Outro imbecil ainda amava a adorável dama, mesmo ele tendo
assumido para si a paternidade da criança e não compactuaria com o crime se
conhecesse seus projetos malignos.
Nesta trama ele contou
apenas com a ajuda do seu Braço. Amigo fiel de Um e Outro que passou a integrar
a trupe logo em seguida.
Foi fácil convencer o irmão
a passar uma temporada na tão bela Minas Gerais. O regresso a capital mineira
era um sonho antigo que partilhavam. O Braço ficou encarregado de executar todo
o trabalho sujo.
O caseiro seria
responsabilizado depois.
Algo deu errado no
cronograma e o safado conseguiu fugir antes de a polícia encontrá-lo na cena do
crime.
Tudo teria sido
perfeito e nada levaria a eles.
Mas o velho estava mais
envolvido com a vaca do que ele pensou e veio tentar socorrê-la antes do último
suspiro.
Ele nunca foi movido
por grandes curiosidades, porém tinha comichões de saber como tudo aconteceu.
No relatório do serviço,
o Braço contou que levou a mulher até a chácara. Manteve-a em cárcere privado
até a manhã de terça-feira, estrangulou-a no sofá por volta das nove horas e
partiu. O caseiro chegaria às dez horas da manhã na terça-feira, tomaria
conhecimento do assassinato e chamaria a polícia que o enquadraria como
suspeito.
Ele não teria álibi,
nem dinheiro para bancar um bom advogado...
Durante toda a
terça-feira ele esteve colado ao noticiário na pousada para ver o caseiro ser
levado e nada. Só ao anoitecer é que ele viu o rosto do velho estampado no
jornal como suspeito do assassinato de Silene.
III – O INOCENTE
Não é tristeza. É dor.
Angústia. Ou qualquer coisa parecida. Algo desse gênero.
Não estou me sentindo
mal. Só não estou me sentindo. É isso.
Talvez seja saudade de
alguém que não fui. Nostalgia de um tempo que nem vi nem vivi...
Me sonhava bela, dentro
e fora da forma, e então, me vejo sem face.
Ainda estou me
perguntando quem sou agora que quase tudo já foi dito?
Não faz sentido!
É.
Eu sei.
Mas o que é que se faz?
Nada vale a pena quando
descubro que minh’alma é tão pequena...
Tenho a impressão de
que se não resolvermos agora este impasse, isto será eternamente meu pretérito
imperfeito.
Minha grande ação
inconclusa.
Destronar as serpentes
criadas foi sempre o grande objetivo de minha vida e agora descubro que sou
herdeira das mesmas desgraças dessas serpentes...
Que fazer ao final?
Será que um transplante
completo de coração e de sangue me ajudaria a arrancar os resquícios da lama de
meu organismo?
Mas não.
Ele sempre disse que eu
seria diferente. Que apesar da gênese, minha formação moral tinha sido outra e
tal...
Agora estou mais
perdida que estava quando comecei a organizar os fragmentos dessas memórias.
Sabia que seria
complicado, no entanto, esta tarefa está se tornando inviável.
São caquinhos tão
minuciosos...
Tão dispares...
Tão sem sentido que por
vezes até cogito deixar este caso sem solução e desaparecer da mesma maneira
que apareci...
Sem ser nomeada.
Infelizmente este
legado me foi vetado desde o início.
É claro que saber tudo
sobre minha origem sempre foi meu projeto de vida, entretanto, o que me move
agora é o desejo de entender o esquema de corrupção que paira como pano de
fundo em todas as ações dos irmãos perversos.
Meus irmãos.
Que nojo!
II – O SUPLANTADOR
Suas vidas bem poderiam
ser representadas com a seguinte analogia.
Inicialmente o senhor
absoluto figurava em cena.
Todo o poder foi lhe dado e ele imperava
absoluto mandando e desmandando.
Schiamo era seu nome.
Liu, seu codinome.
Mas no fundo, no fundo.
Tudo era fachada.
A arena era sua
verdadeira praia.
Subjugou semelhantes.
Mandou e desmandou por anos a fio.
O “bem” da família era
seu brasão e seu lema.
E em nome do progresso desencadeou sustentação.
Desenhou uma nova bandeira e se fez livre, arrastando um mar de sangue e lama por onde andou.
Fez-se por força louvável e demonstrou esforço memorável, porém ruiu em momento inesperado.
Partiu para retaliar-se.
provou precisar banhar-se em sangue para se garantir no poder e o fez. Acontece que estava já inteiramente desacreditado e ruiu uma vez mais, a despeito de toda a glória do passado.
Desenhou uma nova bandeira e se fez livre, arrastando um mar de sangue e lama por onde andou.
Fez-se por força louvável e demonstrou esforço memorável, porém ruiu em momento inesperado.
Partiu para retaliar-se.
provou precisar banhar-se em sangue para se garantir no poder e o fez. Acontece que estava já inteiramente desacreditado e ruiu uma vez mais, a despeito de toda a glória do passado.
Entretanto, como coroa
de sua criação, Um filho lhe foi dado.
Saído de suas
entranhas, mas com um desejo infindo de suplantação. Este Um não despontou
sozinho, trouxe Outro semelhante agarrado ao seu calcanhar.
Duas serpentes criadas!
Maldito desejo bravio de crescimento os dominava.
Produziram torturas.
Produziram dores tamanhas.
Produziram monstruosidades debaixo do sol.
E o fizeram com o aval dos seus adoráveis simpatizantes.
Um legado tão cruel que faria seu genitor parecer socialmente devotado ao bem, mesmo tendo sido ele a verdadeira face do mal...
Maldito desejo bravio de crescimento os dominava.
Produziram torturas.
Produziram dores tamanhas.
Produziram monstruosidades debaixo do sol.
E o fizeram com o aval dos seus adoráveis simpatizantes.
Um legado tão cruel que faria seu genitor parecer socialmente devotado ao bem, mesmo tendo sido ele a verdadeira face do mal...
Uniram-se à velha
ganância do pai e foram fazendo ruir impérios por onde passavam.
Espezinharam os bons
costumes, corromperam a moral e ignoraram completamente o amor com que a madre
os gerou.
Estiveram unidos
enquanto seu mal permaneceu oculto, enquanto a pátria inadvertidamente sorveu o
leite ralo que lhes lançavam a contra-gotas, e então, quando toda a maldade e
ignomínia começou a ser desvendada, Um traiu o Outro, jurou que não fazia parte
do esquema e assumiu sozinho o poder enquanto seu irmão de fé, de força e de
criminalidade era lançado sem amparo no abismo.
Um duplo perjúrio. Uma
dupla traição.
Estava escrito nos
anais.
Apesar de terem feito
coligação, aproveitando a ascensão momentânea do Outro, ele no geral era fraco.
Não tinha o mesmo talento para o engano. Lhe faltava tutano para garantir-se na negação da maldade que lhe era própria.
Por isso só o Outro
caiu.
EPÍLOGO
Sexta-feira, 30
de Dezembro de 2016
23 horas e 59
minutos
Acho que deu para
juntar mais ou menos os caquinhos de minha história.
Estou anexando neste
momento as últimas provas para fechar o inquérito.
A serpente criada, o
velho doutor Liu conseguiu mais uma vez escapar do julgamento. Todos sabem
agora que o ferrenho Cel. Schiamo, ditador dos diabos, escondeu-se por toda uma
vida atrás da identidade falsa de médico competente.
Porém de que serve
agora toda essa informação, se o filho da puta finalmente encontrou refúgio
eterno nos braços da morte?
Meus irmãos foram
julgados.
Um e Outro tiveram
mesmo sentenças diferentes.
Um alegou inocência.
Disse ter tido sua imagem usada. Jurou que sempre esteve a serviço do povo e
outras babaquices mais que acabaram comovendo a opinião pública. Foi condenado
a uns poucos anos de prisão domiciliar e, para infelicidade minha, e da minoria
de instruídos neste país, já trabalha em sua campanha para o próximo pleito de
vida pública.
O Outro, como já fosse
fraco por natureza, e por já ter estado na prisão, foi mandado de volta para lá
por tempo indeterminado. Ele também jura inocência. Diz que aquele Um sempre o
influenciou para o mal, mas que ele, depois de amargar tantos anos de cadeia,
jamais reincidiria no erro. Além do que, também está estudando um meio de
melhorar sua imagem para o próximo pleito de vida pública.
Quanto a mim. Bem, eu
prometi entregar meu pedido de demissão no dia seguinte à condenação dos três.
Como o velho jamais será condenado, me arrastarei pela vida afora prestando
serviço a super segurança pública...
Decidi criar este blog para deixar registradas algumas das minhas poucas ideias formuladas em momentos de reflexões profundas...
Atualmente sou professora Estatutária em São Francisco do Guaporé - Rondônia.
Sempre fui apaixonada por literatura e sonho um dia construir um mundo onde homens e livros possam conviver lado-a-lado como grandes e inseparáveis amigos!
Publiquei recentemente meu primeiro livro de poesias: Motivos Poéticos.
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