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FILHO DA...


Elijanique Savil


      ... A mãe aguardava na porta com olhos de ontem. Descalcei as sandálias, mirei em seus braços e desabei: Ah minha mãe, quanto custa ganhar a vida aí fora!
      Que foi que eu te disse? Disparou ela entre fungadas e lágrimas, “tamém” penei um bocado! Seu filho da mãe! Você conhece a minha história. Eu sei bem como a vida é dura Tião, disse mais para si mesma.
      Nome mesmo era Sebastian.
     Quando tava de mau humor eu logo gritava: pra quê me botar um nome inglesado se você só fala caipira mesmo? Ela ria e me desarmava nesse riso.
      Como continuar a criticar o palavreado caipira de minha velha?       Se ela não se preocupou em crescer, foi minha culpa. Está claro que eu não pedi, depois, quem comeu primeiro a sobremesa foi ela.    Mas, ela bem podia ter me deixado na porta de um barão qualquer. E a sacana não fez isso! Preferiu passar a vida comendo migalhas da sobremesa de outros para que um dia eu tivesse a chance de chegar ao prato principal!
     E foi mesmo pensando nisso, que resisti bravamente os anos que tive que ficar na Lisboa. Toda vez que chorava e armava o pé para chutar o balde, eu via mamãe orgulhosa contando para as amigas que “o filho se formava dotôr”! “que o Tião não era igual ao Zezim, que foi correr mundo para saber do pai. O Tião ainda ia botar pra frente o nome dela. Ah, isso ia”!
     

                                                ***      
      Quando vejo a felicidade estampada nos olhos da mãe sinto que tudo valeu à pena. Cada momento de dor, cada lágrima derramada na Lisboa. Foi duro agüentar os reveses da vida pisando àquele solo. Às vezes os colegas diziam pra mim que era pra ficar firme “doideira, não vê que seis anos passam logo? Isso é no que dá passar a vida agarrado a lingerie da mãe”!     Eles bem podiam aliviar e fingir que eu tinha sido um garoto normal, só pra me fazer esquecer, de vez em quando, que nunca vi mamãe comportadinha, dentro de umas saias rendadas, como qualquer dama da sociedade. Não! Quando muito bem vestida, ela saía à varanda num penhoar vermelho. Linda sim é verdade, mas nada natural. Ou tudo natural demais, considerando o seu estilo de vida.   A garotada da minha escola vivia louca pra visitar minha habitação, que eu nunca ousei chamar de casa, muito menos de lar.      Já imaginou como seria estranho: “sim, sim. Eu moro naquela casinha roxa no final da rua B. exatamente aquela! Pois é, meu lar é super legal, um pouco desordenado ás vezes. Geralmente, nos fins de semana. Se bem que, durante a semana mesmo, tem festas todas as noites, muita gente estranha e uns homens que já em elevado estado de embriaguez hora ou outra me puxam de lado e perguntam: diz aí garoto, há alguma chance de você ser meu filho?      Como é que eu posso saber? Das trinta habitantes desse espaço conheço perfeitamente a minha mãe e tenho sérias dúvidas se aquela loura gorda e baixinha de meia idade é mesmo minha avó (esse detalhe guardo comigo!), mas, como distinguir, nessa enorme leva diária de homens que frequentam a casa roxa, o meu pai”?
    Enfim, este é um assunto para outra hora. Voltando a minha habitação, como dizer: meu lar é constituído de uma mãe; um irmão mais novo; vinte e oito tias; uma avó, muito diferente do tradicional; e uma média mensal de duzentos homens esquisitos, meus pais em potencial. Francamente, “não dá né”?
       Outros tempos, outras histórias...
       
                                            ***      
      Eu costumava passar horas pensando nessas coisas. Lembrando a época das vacas, nem gordas nem magras, só vacas da minha vida. E mais uma vez estava cismando nisso no momento em que ela entrou com seus cachinhos dourados e ares de um doce anjo. A menininha era encantadora. Apegou-se a mim no instante mesmo que me viu. A admoestação era que ela era uma pessoa de trato difícil, mas me olhou e sorriu. Ganhou-me nesse sorriso, a diabinha. No geral também não sou de entregar-me facilmente, mas, ao encará-la pela primeira vez, senti que nossa relação, para bem ou para mal, seria eterna.
     Conheci a menininha no dia mais triste de minha vida, por circunstâncias que contarei mais tarde, se eu me animar a fazê-lo.           Pois bem, estava sentado na areia observando o mar, sempre visito o mar quando estou mal, só a ele meu coração para e escuta.         Quando tudo está desarranjado em meu interior o barulho das ondas fala mais alto que minha angústia, o ímpeto delas me acalma.
Olhando para ele, consigo entender que há algo mais inconstante do que minha vida. Então uma moça loura de quem não conseguia me lembrar, mais que jurou ter tido um lance comigo anos atrás, no final do colegial, parou ao meu lado com cara de poucos amigos e disse que estava me procurando há muito tempo.
      Perguntei-lhe o que ela poderia querer comigo, se eu nem ao menos lembrava tê-la conhecido. Ela contou que havia recebido uma super proposta de emprego no exterior, mas estava com um probleminha de locação, (esse papo estranho me colocou de sobreaviso) eu já não tava com saco para me aturar, ter que ouvir uma completa estranha falar de seus problemas me fez explodir: o que eu tenho com isso? Se o seu problema é de locação, parabéns pra você, loura, entre outras coisas, eu estou enfrentando o problema de desalojamento.
      A loura manteve a calma e explicou que eu tinha tudo a ver com seu problema, pois a senhoria do apartamento onde ela deveria morar não aceitava crianças, e mesmo que aceitasse, ela não teria tempo para dedicar à filha no exterior, e era aí que eu entrava na história, porque ela decidiu que era minha obrigação assumir os cuidados com a filha de agora em diante. 
       Que filha, mulher, você está louca? 
       Ela sustentou a história e eu fiquei sem chão. 
    Nunca fui muito responsável, não soube cuidar bem nem de mim. Além do que, sempre fiz de tudo para evitar esse tipo de pesadelo. Agora acordo com esse! 
      Conseqüência de um descuido da adolescência. 
      Quantos anos ela tem? Perguntei. 
     Ela disse que tinha seis, ou sete, não me lembro bem. Quis saber quando a conheceria. Ela disse que a menina estava no carro. Ela ia buscá-la para eu ver e levá-la comigo, já que seu vôo partiria em duas horas.
    Fiquei aguardando ali e de repente ela chegou. Rechonchuda. Com um brilho ferino nos olhos. De acordo com a loura ela poderia levar meses até querer falar comigo, que ela era arredia, geniosa e muitas coisas desse gênero. Mas quando nos encaramos o brilho ferino dos olhos se dissipou e ela sorriu, revelando todo o seu encanto desconhecido pela mãe. Sabe que você se parece muito comigo? Disse, todo mundo vai dizer que sou mesmo sua filha. Não tenho costume de lidar com pequenos, por isso, apenas sorri. A menininha, assumindo o controle, me abraçou. A loura ficou sem reação. Esta não era a filha que ela conheceu e veio me apresentar.
      
                                            ***      
      Não tinha outra saída, eu precisava enfrentar a mãe. Voltei para casa carregando aquele pacotinho louro que representava o oposto da resposta que eu tinha ido buscar no mar. Reclamei com ele da dificuldade enfrentada na adaptação da vida antiga. Da situação de rejeição e do despejo (a mãe não me queria mais por perto), além do desemprego que provavelmente me levaria, muito em breve a engrossar as filas de espera por uma vaga embaixo da ponte. Aí ele me manda uma boca a mais para alimentar, um corpo a mais para passar frio nas ruas dessa cidade! Definitivamente, eu teria que engolir meu orgulho ferido. Apelar para o emocionalismo da mãe era minha única solução.
    Ela quase ficou louca quando contei toda a história transcrita aqui. Lembrou de quando se viu inexplicavelmente grávida de um namoradinho que a abandonou no dia seguinte e escondeu a barriga durante meses, até que se cumpriu o período da gestação. Por azar, no período em que o pai veio tirar férias na cidade e quis obrigá-la a abandonar o bebê em um canto qualquer por ser a personificação e o fruto do seu pecado. Quando se viu dividida entre a sarjeta e o fruto de sua linda noite de amor, a única de sua vida. Ela não teve dúvidas do quê era prioridade em sua vida. Eu estou aqui. Ela está aqui. A escolha dela já foi revelada. E eu nem sei como cheguei até aqui, na verdade, era da menininha que eu estava falando. Então, a mãe estava profundamente magoada comigo, mas ela jamais me jogaria na rua com essa coisinha linda sob minha “irresponsabilidade”, foi este o termo que ela usou.
     Apesar das dificuldades enfrentadas no início, sua chegada, menininha, foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida.
        ...Seus olhos estão estranhos, Tião.
        Desculpe menininha, eu estava recordando... Não ouvi você.
       Ah, não era importante. Deixa pra lá. Me conta?...
       Querida, eu não sei.
      Como não, Tião? Desde àquele dia na praia ela não telefonou? Não escreveu nem uma linha? Não deu sinal de vida?
       Nunca mais menininha.
       Como vocês se conheceram?
      Não nos conhecemos. Eu já disse a você, ela chegou com um papo estranho de um lance antigo. Coisas da adolescência... Não sei. Não me lembro dela. Não me lembro de nós. Nem sei se ela foi real. Talvez ela tenha sido enviada apenas para me colocar em contato com meu anjo.
      E quem é seu anjo? Ela sorriu com uma parte da boca como só ela sabe fazer.
      Você é meu anjo. Disse. Mas, você esteve mais tempo com ela do que eu. Só me lembro de tê-la visto aquela vez.
       Sim, só que você já era adulto, tinha boa memória. No primeiro ano eu já tinha esquecido o rosto dela. O nome então, sem chance!         Quase todas as mulheres do mundo são chamadas de mãe. Será que sou extraterrestre?
       Não menininha, você é humana. Extremamente humana.
     Adoro essa mania que você tem de me chamar de menininha, sabia? Fica tão impessoal. Tão distante! É maravilhoso sentir esse distanciamento por parte da única pessoa que faz a ponte entre mim e a raça humana.
     Para menininha! Não seja irônica. Eu nunca reclamei por você me chamar de Tião.
     Tudo bem. Já que você não sabe nada dela, porque não me fala de você? Você prometeu falar quando eu crescesse. Já estou maior agora. Conta para mim a sua história, vai?
     Vamos lá então. Promessa feita, promessa a ser cumprida não é? Deixa eu começar desde antes de eu nascer.
     
                                                ***     
   Contei para ela todo o drama de minha mãe. Falei da gravidez inesperada. Da expulsão de casa. Do acolhimento na casa roxa. Da exploração de sua mão e outras coisinhas de obra por parte da “vó”.    Do meu crescimento naquele antro. Da conturbada fase de adolescente filho da... Da humilhação no colégio, não só pelos colegas, mas também, de praticamente todos os professores. Contei um episódio que considero interessante e guardei comigo a vida inteira: “um dia, no 1° colegial, decidi escrever uma crônica e comecei a procurar algo ‘que merecesse uma crônica’, acho que foi Sabino quem disse isso. Minha vida daria uma excelente sucessão de boas crônicas, mas eu não queria falar de mim. Então pensei em um professor muito bacana que tinha na escola. O único que me defendia quando começava a chover acusações e desaforos. Aquele cara firmeza com quem eu sempre podia contar. Achei natural escrever algo para ele, sobre ele, sei lá. Entre os poucos papéis importantes que guardo, tenho uma cópia da dita crônica, li-a para a menininha:
...
       Quando parei, ela me olhava encantada.
       É tão linda esta crônica, Tião. Porque você não concluiu?
      Por que um colega entrou na sala enquanto eu escrevia, leu uma parte da história por cima dos meus ombros e me chamou de filho da... Puxa-saco. Guardei o papel no meio do livro que eu usava como apoio e o chamei para brigar no pátio. Fomos suspensos.              Perdi o encantamento inicial da escrita. Nunca tive coragem de mostrar ao professor, aqueles rabiscos, mas, por conta deles, fui motivo de chacota o ano inteiro.
     Depois de meditar um pouco sobre minha história a menininha, insaciável de fatos e narrações pediu que eu falasse mais. Como não me ocorresse nada mais a dizer ela abriu o caminho:
     A vó sempre me tratou com carinho, e você fala do amor e do cuidado dela por você, mais eu sempre reparei que ela age como se você não existisse Tião. O que aconteceu com vocês?
   Pois é menininha, acho que o codinome negativo que me acompanhou desde a infância acabou me influenciando para o mal.      Eu sempre amei aquela velha. Juro que sim. Nunca faria nada para magoá-la. Só que ela tinha um sonho tão grande de me ver doutor. Sinceramente, menininha, apesar de todo o carinho e respeito que sempre tive pela mãe, eu consegui ser um tremendo filho da puta com ela. A vida inteira a mãe juntou economias para minha faculdade. Ela falava com orgulho que comeu o pão que o diabo amassou naquele prostíbulo, mas que ia me ajudar a viver de manjar.
      Quando terminei o colegial, não tinha adquirido conhecimento aproveitável para encarar um vestibular, então arrumei a documentação com um colega do beco e mostrei pra ela:
      Minha matrícula numa faculdade do estrangeiro!
     A velha foi às nuvens. Abriu uma poupança em meu nome.      Preparou todo o meu enxoval. Visitou todas as moradoras do bairro mostrando minha ficha de inscrição. Melhor, esfregando na cara delas dizendo que seu menino “ia se formar dotôr nazoropa”.

   Eu tinha visitado a capital na formatura, onde encontrei um lugarzinho encantador para uma temporada de férias. Um pedacinho colorido do céu! Foi lá, no meio de uma noitada de brincadeiras e muita, muita diversão, que minha ideia começou a tomar corpo.
    Trinta dias depois desembarquei de volta à capital. Tomei um táxi que me deixou na frente do prediozinho amarelo.
      Pensei:
     Vou adotar o ofício da mãe e ficar por aí mesmo, afinal, mulher da sociedade também se diverte, e eu estou no mundo pra isso!
Liguei para a mãe e, olhando para a placa que piscava em neon, avisei:
      Mãe está tudo tranquilo! Acabei de chegar na Lisboa.
      Ela me sustentou ali por seis anos.


SEM PRESSA

Elijanique Savil



Caminho 
sem pressa agora. 

Correr por quê? 

O bonde já perdi. 
O tempo já perdi 
e o amor 
me escorre pelos dedos.

Sem pressa, 
agora caminho.

Para que o desespero?

A noite já chegou,
o infortúnio 
me ultrapassou.
Já sou senhor 
do meu tempo.

Caminho agora 
sem pressa. 

Onde a celeridade? 

Meu pé já esmagou a flor. 
Já me suplantou a dor. 

Agora, caminho sem pressa.

CURTAS PALAVRAS

Elijanique Savil


Sob o céu
Um Ser vil
Ora
Por dia bom
Sem ter afã.

À toa a toa,
Ao léu,
sem paz,
ave sem asa
ata nós.

Age mal,
Ama mal,
Vai mal,
Faz mal.

Tal ego,
Sob pás de cal,
rui o lar,
ira pai,
mãe,
tio...

Não ria,

Ser vil.

Na contramão


 Elijanique Savil



OS FINS NÃO JUSTIFICAM OS MEIOS.

NADA ESTÁ BEM, QUANDO ACABA BEM,
PORQUE SE ACABA, 
NÃO HÁ MAIS NADA PARA ESTAR BEM!

A DOR DA AUSÊNCIA COSTUMA SER MAIOR 
QUE A ALEGRIA DA CHEGADA,
E AS NOITES DE INVERNO, 
MAIS LONGAS 
QUE OS DIAS CALOROSOS DO VERÃO.

BRAÇOS PARA TE EMPURRAR NÃO FALTAM, 
MAS, ONDE ENCONTRAR MÃOS 
QUE TE LEVANTEM DO CHÃO?

AMIGOS DE VERDADE SÃO RAROS. 
VALORIZE-OS, 
POIS NA ANGÚSTIA SERÃO, PRA VOCÊ, 

 COMO IRMÃOS!

frag men tos









Elijanique Savil





Fragmentos esparsos de tuas memórias
Estilhaços de lembranças tuas no texto

No texto
lembranças de estilhaços teus
Memórias de teus esparsos fragmentos

Teus fragmentos esparsos
de memórias
de lembranças
nos teus estilhaços de texto

Teus fragmentos no texto
memórias
Estilhaços de tuas esparsas lembranças

Memórias de teus fragmentos
esparsos
Teus estilhaços de texto
lembranças

Lembranças de teus estilhaços esparsos
Fragmentos de memórias tuas no texto


O Substituto

Naquele dia os alunos estavam mais ruídosos que o normal. Ele bem que ensaiou uma ou outra arrancada inicial no conteúdo programático da d...