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Mais aforismos...



Elijanique Savil

Ameniza um pouco
as verdades que dizes
ouça um pouco mais
falar muito
não convém
Verdadeiramente,
a verdade que tens é tua
não interessa de fato
a ninguém.

Se for sorrir
seja intenso e verdadeiro.
Não finja um sorriso
seja sábio,
tudo bem.
Se não perceberam tua dor
paciência, seja inteiro
viva bem.

Nada mais é igual,
todo o sonho
é tão confuso
sonhar é único alento.
Esquecer tudo, estar em paz
é única solução.
mas como dominar
o pensamento?

À quem não sabe o que quer,
tudo é pesente,
tudo vale.
Um brinde à vida!
Só se perde o que se tem.
Abra um sorriso,
passe um bálsamo,
esqueça a ferida.

ATRAVÉS DO TÁXI

Elijanique Savil


 

Ela queria apenas fugir um pouco da realidade. Encontrar uma maneira, ainda que fragmentada de sentir-se completa. Suas aulas ainda eram um sucesso. Seus pianistas encantavam multidões em todos os concertos que faziam, mas ela não. Alguma coisa quebrara-se em seu interior e ela não conseguia ser feliz. 

Às vezes se perdia horas no tempo, lembrando a dureza que enfrentara para chegar aonde chegou. Os tempos eram difíceis e toda porta em que batia fechava-se em sua cara.


Era vista como a negrinha. Ninguém pronunciava seu nome. Um dia, de brincadeira, disse em casa que seria uma grande pianista, o padrasto mirou-a de cima com olhar desconcertante:

Uma negrinha assim, bastarda? Fique feliz se achar uma casa de família que te queira para limpar o chão.

Ela engoliu o choro. Quando tivesse idade não aceitaria mais a esmola daquele porco.

O padrasto era um estranho remanescentezinho de Hitler que ainda acreditava na soberania da raça ariana.

Tempos idos. Muitos momentos não vividos. Só encarados com a garra de quem sabe que não nasceu para o chão e por isso segue escalando pontas de pedras na ânsia de chegar ao topo.

Enfim, alguém teve pena da negrinha.

Seu Rico, um professor de piano em final de carreira. Em sua época tinha sido dos bons. Agora, o tempo endurecera seus dedos, secando sua música suave. Ele viu uma espécie de talento nela. Ensinou-lhe quanto sabia e, até criou um nome artístico para ela. A negrinha virou Sassá e a proximidade lhe rendeu um casamento com um ciquentão aos dezesseis.

Mais tarde, Sassá assumiu a academia de música do marido e enterrou seu talento de grande artista livre no banco de seu sustento diário.

Eu amo ensinar, no entanto diversas vezes imaginei-me recebendo os aplausos destinados aos meus músicos. Sinto-me realizada por cada criatura que brilha nos concertos da cidade, mas é como se me faltasse algo. Mesmo doando-me por completo no exercício da profissão, sei que não estou sendo inteira.

Há pouco tempo estive a beira da morte e pensei: se morrer hoje que benefício terei legado à humanidade? Não tive nenhuma ideia revolucionária, não erigi um monumento lendário.

Não tive filhos.

Meus alunos e sobrinhos se lembrarão de mim. Mas, até essas lembranças se tornarão rarefeitas com o tempo, e por fim se escassearão completamente. Que será de mim então?

Queria ter tido um filho, pois, nele, veria propagada a memória de minha breve existência. Nunca antes tinha sentido essa necessidade quase física de ser mãe. Hoje sou constantemente atormentada pela ideia de que não tive um rebento em meus braços.

Quando vagueio por aí em meu táxi particular, sinto como se embalasse o filho que nunca terei. Apetece-me a ideia de particularizar algo coletivo. É uma excentricidade benéfica. Ao menos assim tenho a ilusão de roubar à humanidade um prazer que é meu por direito.

Prefiro especialmente os dias chuvosos para rodar pela cidade. Ver a água deslizar apressada pelo para-brisas.

A água passa correndo na vidraça. Apressadamente ela escoa como o tempo que ainda me resta. Lava resíduos impuros de pensamentos sujos.

Depois que ela passa tudo o que sobra são as aporias celestes. Pó de asas do anjo que me embala o repouso.

A água passa pela vidraça correndo e eu permaneço estática diante da apressada e imponente fuga dela.

A água, eu e a vidraça: breve, mas significativo encontro de substâncias tão díspares, tão próximas.

Estava pensando num desses aforismos bobos quando cruzou pela primeira vez com o homem.

As roupas em frangalhos, barba por fazer e muitos quilos mais magro, porém aquele olhar inconfundível ela jamais esqueceria...

Joseph Akiff, seu melhor aluno de piano. O descendente de judeu que perdera a pátria muito antes do nascimento e, mesmo tendo brilhado em vários palcos ao redor do mundo, conservava no olhar uma sombra de alguém que estaria sempre perdido em seu interior.

Abriu para ele um sorriso largo. Daqueles que já nem sabia como sorrir desde o instante da viuvez e foi ao seu encontro. Fazer algo por esse eterno garoto perdido devolver-lhe-ia ao menos um terço da vontade de voltar a viver. O piano, através dos dedos dele, tinha o poder de chamá-la para fora da rocha em que ela mergulhara.

Agora quando roda pelas ruas da cidade com seu precioso livro aberto no colo, já não lê nele a ânsia de voltar a ser humana. Ele já não representa tanto mais. A vida lhe roubou o sonho de ser mãe, mas lhe presenteou com o prazer de acolher um filho adulto...

Sassá já não é um nome vazio.

É uma Mulher que adotou para si um Homem.

O Substituto

Naquele dia os alunos estavam mais ruídosos que o normal. Ele bem que ensaiou uma ou outra arrancada inicial no conteúdo programático da d...